Momento de sucessão ou de transição?

Fernando PachecoPublicado 20/02/2017 12:35:00

Na edição do Novo Jornal de 21/8/2015, muito antes do anúncio, pelo próprio, da retirada de José Eduardo dos Santos da vida política activa, escrevi que a questão da transição na liderança do país estava a deixar de constituir um tabu e que era necessário reflectir sobre ela.

Foto: Quintiliano dos Santos

"A transição não é apenas um problema do MPLA, é de todo país. Reafirmo o que disse há alguns meses: a transição na liderança do MPLA deveria ser feita com José Eduardo dos Santos (JES) no activo, pois, seja qual venha ser o formato, esta seria uma oportunidade para que ela fosse feita sem turbulência, de todos os pontos de vista. (...) A ser anunciada antes das eleições de 2017, representaria, creio, uma mais-valia para o MPLA na disputa, e contribuiria para a preservação da estabilidade no país".

A 18/3/16, ainda no Novo Jornal, após o anúncio feito numa reunião do Comité Central do MPLA, voltei ao assunto reafirmando que ele devia sair, por desgaste e por determinantes de ordem biológica. "Dada a complexidade da nossa situação e da crise em que vivemos, da qual ele também é responsável tanto pelas boas, como pelas más razões, (...) deveria ser ele a gerir a transição de poderes, para criação da confiança necessária e suficiente para se evitarem traumatismos ou o caos. O futuro de Angola não pode passar apenas pelo MPLA, mas não pode passar sem o MPLA. Nestas circunstâncias, um recuo futuro em relação ao anúncio feito seria muito mau para ele e para o país. Espero que os militantes do MPLA tenham isso em conta".

Não sei que razões concretas terão levado JES a dar estes dois passos - o anúncio e a sua reafirmação, tantas foram as especulações -, mas não tenho qualquer dúvida em afirmar que foram positivos, principalmente depois de colocada a hipótese sobre uma eventual sucessão dinástica através de um dos seus filhos.

Como também não tenho dúvidas sobre a importância que deve ter jogado o como como a sociedade civil e outros segmentos da sociedade angolana, tão injustamente ignoradas no seu papel de influenciar a vida política angolana, reagiram a essa possibilidade.

Não há, da minha parte, contradição entre o que disse antes e depois. Continuo convencido de que JES deveria ter abandonado o poder pouco tempo depois de alcançada a paz, momento em que havia atingido o seu mais elevado nível de capital político.

Posso compreender o seu desejo de só sair depois de ver comprovada nas urnas a sua popularidade, mas foi ele o principal responsável pelo adiamento das eleições presidenciais e, depois, pela aprovação de uma Constituição que continua a merecer muita contestação em diversos sectores da sociedade angolana.

Até poderia, no limite, ter saído em 2012, numa altura em que o país, aparentemente, vivia um bom momento, de modo que hoje pudesse ser recordado como o principal obreiro do que de bom havia naquela ocasião.

Mantendo-se no poder, JES não acrescentou quase nada ao seu capital político anterior, e estou a referir-me ao mérito de ter acabado com a guerra, ao modo como poupou a vida dos principais colaboradores de Jonas Savimbi e evitou a humilhação da UNITA, à defesa da soberania e da integridade territorial, ao lançamento do processo de reconciliação nacional, para referir os aspectos mais relevantes.

Pelo contrário, a sua permanência no poder trouxe à superfície as suas fragilidades ou pontos fracos, como a incapacidade, por motivos diversos, de acabar ou combater a corrupção, o que conduziu ao desvio de recursos públicos elevadíssimos do objectivo nobre de combater a pobreza e reduzir as desigualdades ou evitar o seu crescimento (...).

(Pode ler na íntegra a coluna de opinião "Conversas na Mulemba", de Fernando Pacheco, na edição n.º470 do Novo Jornal, nas bancas e também disponível em formato digital, que pode pagar no Multicaixa)

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