A primeira são as crises que atravessam alguns países ou regiões importantes para a definição do fluxo de crude para os mercados e que estão por detrás da realidade de hoje, com o Brent de Londres, onde são definidos os valores das exportações diárias de Angola, perto das 12:99, em novo valor recorde desde meados de Outubro de 2014, nos 79,20 USD por barril.

A crise na Venezuela, com o desmoronamento do sector produtivo devido ao desinvestimento dos últimos anos e a falta de manutenção dos equipamentos, estando na base deste cenário o caos político em que aquele pais sul-americano se encontra, é uma delas, como nota a EIA, organismo que administra e responde pelo sector da energia nos EUA, sublinhando que no prazo de um ano a produção venezuelana desceu de 2,3 milhões de barris por dia (mbpd) para 1,6 mbpd, quando se sabe que nos últimos 10 anos a quebra começou em valores próximos dos 6 mbpd.

Ainda neste primeiro ponto, a crise despoletada pela saída dos EUA do acordo nuclear com o Irão e a subsequente reposição das sanções que incidem, sobretudo, nas exportações de petróleo daquele país do Médio Oriente, que, a prazo curto, pode subtrair entre 1,5 e 2 milhões de barris no fluxo diário de crude no mercado, podendo ir além disto se os restantes signatários do acordo - China, Rússia e países europeus - não resistirem a pressão de Washington para que, também eles, castiguem Teerão com o regresso das sanções.

Uma das instituições mais pesadas no universo financeiro movido a petróleo é o Bank of America Merrill Lynch, que aponta 2019, segundo o site Quartz, como o ano em que o mundo vai voltar a comprar e a vender o barril acima dos 100 USD.

Ora, este cenário levou a a OPEP, que tem em curso, com a Rússia e mais 11 produtores não-membros do "cartel", um plano de cortes na produção de 1,8 mbpd de um total aproximado de 50 mbpd, desde 01 de Janeiro de 2017, com o objectivo de enxugar o excesso de produção dos mercados, a confirmar que o objectivo já foi alcançado. Isto, num mundo que consome em média cerca de 92 mbpd.

Mas a OPEP, de que Angola faz parte e que contribuiu com uma diminuição na sua produção de 78 mil barris por dia, quer mais que esse enxugamento do mercado, quer garantir que assim vai continuar e pensa fazê-lo através de um acordo de longa duração - entre 10 a 20 anos - que a Arábia Saudita, país que dita as regras na organização, e a Rússia se preparam para assinar, e que tem como objectivo garantir que o petróleo se manterá como um valor permanente para as economias exportadoras, como é o caso.

Alias, Angola faz parte, com a Venezuela, de alguns dos mais importantes exportadores mundiais onde a queda abrupta dos preços a partir de meados de 2014 levou a um desinvestimento no sector, o que pode redundar, como a Agência Internacional de Energia já notou, numa quebra acentuada da produção nacional a prazo que pode ir até aos 1,29 mbpd em 2023, a partir dos actuais cerca de 1,6 mbpd.

Todavia, o outro ponto forte dos argumentos dos especialistas alinhados com uma perspectiva crescente do preço do barril é o eventual colapso da indústria do xisto norte-americana, ou "fracking", cuja extracção passa por um processo polémico e com cada vez mais contestação devido ao uso de químicos no subsolo para implodir a rocha.

Isto, porque, como nota hoje, os EUA, apesar de terem aproveitado o cenário actual, com as crises entre os produtores, Irão incluído, para aumentar a sua produção e serem já o nº1 no mundo, têm uma limitada capacidade de resposta face à quebra no fluxo para os mercados gerada noutras partes do mundo.

Especialmente no sector-estrela da indústria do crude nos EUA, o "fracking", cujos produtores, quase todos de pequena dimensão e privados, foram financeiramente causticados em 2014 devido ao breakeven elevado, na ordem dos 70 USD por barril - valor em que está no mercado WTI de Nova Iorque -, mas que não estão a beneficiar integralmente do actual momento de alta.

OU seja, este sector não deverá crescer muito mais, podendo mesmo diminuir, apesar de ter sido responsável pelo aumento da produção nos EUA em mais de 1 mbpd do total actual que supera os 10,5 mbpd.

Isto, porque, como refere Francisco Blanch, chefe do departamento de pesquisa dos mercados das "commodities" do Bank of America Merryl Linch, não existe capacidade de pipelines e também por estão a receber menos 15 USD por barril, em média, que os produtores tradicionais, com os contratos feitos até 2022 fixados nos 51 dólares por barril.

A tudo isto, somam-se as análises generalizadas das instituições financeiras mundiais, como o FMI, que apontam para um crescimento da economia global acima do esperado para os próximos anos, motivado também pelo crescimento das grandes economias consumidoras de petróleo, como a chinesa, a indiana ou as norte-americana e europeia.