A posição foi assumida pelo presidente da direcção da Associação Nacional de Café, Cacau e Palmar de Angola (Cafang), João Ferreira, admitindo que o tempo é de "reconstruir" o sector, que em 1973 fez do país o segundo maior exportador em África, com 240.000 toneladas num ano.

"Não tenho a mínima dúvida que o café, se for assumido como tal, pelo Estado, pelas associações, pelos produtores, tem tudo para ser o segundo produto de exportação do país", aponta João Ferreira, que coloca a tónica da preocupação no envelhecimento dos cafeeiros, sobretudo plantados ainda no período colonial, e da própria mão-de-obra, com a fuga dos mais novos do campo para as cidades.

Com uma rentabilidade de apenas 130 quilogramas de café por hectare (402 quilogramas em 1973), muito abaixo de outros países, mais competitivos, e cafeeiros com 50 anos que ainda produzem, sem mudas e abandonados durante as quase três décadas de guerra civil, Angola apresenta como vantagem não ter falta de água ou de terrenos para cultivo, em 11 das 18 províncias.

"Mas é preciso que alguém trabalhe o café, precisamos de fixar os mais novos. E depois precisamos de financiamento, de estradas e de subsídios", defendeu o presidente da Cafang, à margem do habitual encontro mensal organizado pela Câmara de Comércio Estados Unidos - Angola, realizado na noite de sexta-feira, em Luanda.

Este encontro serviu para abordar, com empresários, as oportunidades do sector do café em Angola e o relançamento da sua cultura, negócio que actualmente vale pouco mais de 15 milhões de dólares de facturação, com as variantes Arábica e Robusta.

Segundo Sara Bravo, presidente do Fundo de Desenvolvimento do Café de Angola (FDCA), com uma aposta forte no sector, retomando os níveis de produção do passado, o país teria condições para garantir uma quota de 10% das necessidades internacionais, gerando um volume de negócios superior a 2.000 milhões de dólares. Ou seja, praticamente o dobro do que rende a exportação de diamantes, que são actualmente o segundo produto de exportação de Angola.

Contudo, admitiu Sara Bravo, à margem do mesmo encontro, até lá, os desafios do café angolano "ainda são muitos". "Faltam insumos, há um baixo fornecimento de mudas, de instrumentos de trabalho e de qualidade. Fazemos muito trabalho manual, há falta de adubos e temos uma infraestrutura muito fraca, temos poucos descasques e apenas duas máquinas de beneficiamento do café no país", lamentou.

A produção de café, que até 1974 foi a principal fonte de receitas de Angola, chegou a cair até um mínimo de 1.241 toneladas em 2001. O êxodo dos agricultores após a independência, em 1975, a falta de gestão qualificada das terras e a destruição provocada pela guerra ajudam a explicar um cenário que reduziu os 596.000 hectares de cultivo de café para os actuais 53.000 hectares e 25.000 produtores, sobretudo nas províncias do Uíge e do Kuanza Sul.

Para alterar este cenário, o FDCA defende a reestruturação e modernização do sector, admitindo avançar para contratos de partilha com os produtores. O problema é que com uma dotação à volta de 300 milhões de kwanzas (um milhão de euros), pouco pode fazer: "É mesmo difícil fazer a promoção do café sem os fundos, mas o trabalho está aí, tem de ser feito e com os poucos recursos vamos fazendo alguma coisa, dando algum apoio, mas não é suficiente", admite Sara Bravo.