Esta mudança, que já é identificada sem sublimações entre muitos dos analistas que fogem ao alinhamento incondicional com o "guião" ocidental, surgiu logo após o ataque ucraniano a um dormitório escolar a 22 de Maio na localidade de Sarobelsk, na região de Lugansk, anexada pela Rússia em 2022.
Nesse ataque, com dezenas de drones ucranianos, morreram 21 estudantes russos e perto de 40 ficaram feridos.
A primeira vaga retaliatória aconteceu na madrugada de Sábado, 23, para Domingo, com a Rússia a usar centenas de drones e, pela primeira vez, um conjunto alargado de misseis hipersónicos, incluindo o já famoso Oreshnik, de cruzeiro e balísticos.
E com esta primeira vaga vingadora emergiu uma nova postura das autoridades em Moscovo face ao conflito que já dura há mais de quatro anos, com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, a dar o tiro de partido: ninguém nem nada está a salto em Kiev.
Nesse mesmo dia, o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo emitiu uma nota que chegou a todas as embaixadas na capital ucraniana a exortar os diplomatas e pessoal administrativo estrangeiro a deixar "o mais depressa possível" o país.
Este aviso seguiu-se a um outro do Ministério da Defesa da Rússia onde se apelava aos cidadãos de Kiev para se manterem longe de locais de interesse militar, centros de decisão política e unidades industriais...
Isto, quando entre um grupo alargado de analistas políticos e militares desalinhados do "guião" da NATO e da Ucrânia, se começa a dar como garantido, aponta, entre outros, Larry Wilkerson, coronel na reforma do Exército dos EUA e antigo conselheiro do secretário de Estado Collin Powell, na Administração George W. Bush, que "Moscovo vai deixar de evitar atacar os decisores de mais alto nível" em Kiev.
Também Douglas MacGregor, ex-coronel e membro da equipa do secretário da Defesa na primeira Administração Trump, entende que se está "notoriamente perante uma mudança de postura" com uma escalada no mapa dos alvos dos ataques russos em Kiev, sendo que o mesmo pensa Scott Ritter, antigo membro da intelligentsia da Marinha dos EUA, ou Larry Johnson, anterior analista da CIA.
E o major-general Agostinho Costa defendeu, na CNN Portugal, que o aviso do ministro russo dos Negócios Estrangeiros não é uma ameaça vazia mas sim o anúncio de uma real mudança de paradigma neste conflito na perpectiva russa.
O analista militar português entende ainda que se está a assistir efectivamente a uma escalada no mapa dos alvos que deixaram de estar protegidos pelas linhas vermelhas do Kremlin, desde logo centros de comando militar e de decisão política, em Kiev.
Todavia, esta mudança de agulha no "mapa" da guerra russo-ucraniana, com Moscovo a escalar para um patamar onde inclusivamente não se afasta a possibilidade de ataques preemptivos na Europa Ocidental, ocorre num momento em que, por exemplo, na CNN International, surgem reportagens onde se diz abertamente que os russos estão a perder a guerra tecnológica no terreno.
Ou ainda, como se pode observar nas peças mais recentes da britânica Sky News, na linha de contacto, ao contrário do que sucedia até há alguns meses, é agora a Ucrânia que dá cartas e tem supremacia, especialmente devido aos avanços na tecnologia de drones, não apenas impedindo avanços russos como estando mesmo a recuperar territórios.
E, ainda no mesmo espaço temporal, a Federação Russa vai a eleições legislativas em Setembro, numa altura em que se percebe uma mudança de humor eleitoral entre os russos.
Mudança essa que está a incubar a possibilidade de a saturação da guerra e as sanções económicas poderem levar a que o partido de Vladimir Putin, a Rússia Unida, perca a maioria dos lugares que detém presentemente na Duma (Parlamento) em Moscovo.
É este conjunto de factualidades que também está a servir de força motriz para a mudança de abordagem militar à "operação militar especial" na Ucrânia, o que levou um dos mais conhecidos parlamentares russos, Andrey Kartapolov, a vir a público dizer que essa mudança não é apenas uma possibilidade, é uma realidade inamovível.
De acordo com este deputado sénior, segundo noticia o site da RT, o canal de televisão estatal em língua inglesa, os militares russos "vão começar agora a atacar os búnqueres usados pelas chefias militares e políticas ucranianas" como resposta aos "ataques terroristas de Kiev".
No entanto, ao contrário do que está a correr entre muitos dos analistas citados, Kartapolov assegurou aos deputados da Duma que nem o Parlamento ucraniana (Rada) nem o gabinete do Presidente Volodymyr Zelensky estão entre os alvos a abater pelos mísseis russos.
Entretanto, dentro da Federação Russa, segundo uma recolha de opiniões feita junto de diversos analistas e especialistas militares pelo jornal Kommersant, um dos mais lidos no país, citado pela RT, essa mudança de perspectiva já é vista como irreversível.
Uma dessas vozes é a de Andrey Ilnitsky, especialista militar e membro da direcção do Conselho de Defesa e Política Externa (CFDP), que entende que não se trata de uma escalada que visa a vingança mas sim uma "adequação moral" à aplicação da justiça contra terroristas e uma resposta à saturação para a contenção do Kremlin até aqui.
Este analista russo sublinha ainda que esta mudança de abordagem serve para que os "nacionalistas ucranianos e os seus parceiros externos percebam que o custo das suas acções está agora a subir em termos militares" de forma imparável.
Também Vasiliy Kashin, director do Centro de Estudos Europeus e Internacionais da Escola Superior de Economia de Moscovo, entende que a intensificação dos ataques em Kiev "é a resposta inevitável à escalada ucraniana nos seus ataques em território russo de profundidade".
"Se a Rússia mudar de actuação nos ataques em Kiev reduzindo os cuidados com os efeitos colaterais desses ataques - porque as populações estão a ser alertadas para isso - estará a aumentar as possibilidades de sucesso nos ataques aos locais conhecidos de produção de armas, nomeadamente de drones", aponta Kashin.
Este especialista entende ainda que com esta nova abordagem, Moscovo obtém novas ferramentas de pressão sobre as autoridades ucranianas e os seus apoiantes externos para se aproximarem da opção negociada para o fim do conflito.
Já Sergei Poletaev, analista do CFDP, e editor do Vatfor Project, um grupo de análise política e militar independente, nota, ainda ouvido pelo Kommersant e citadio pela RT, que há uma ponderosa distinção entre declarações e possibilidades efectivas, porque "Kiev é claramente uma das cidades mais fortificadas" do país e possivelmente do mundo.
Aponta como importante para esta nova postura militar russa o facto de um conjunto de factores estar a acelerar tudo, entre estes o comportamento ucraniano selvático e a fragilidade crescente das suas defesas aéreas devido ao menor envio de munições dos EUA por causa da guerra no Irão.
"Acredito que esta é uma das razões para esta mudança de agulha no centro de decisão russo, mas veremos se as declarações pesadas do Ministério dos Negócios Estrangeiros se vão transformar em acção ou não", disse.
Por fim, Dmitry Suslov, vice-director do Centro de Estudos Europeus e Internacionais da Escola Superior de Economia de Moscovo, aponta como "absolutamente necessária" esta mudança em curso na forma como o comando militar vai passar a gerir os seus ataques na Ucrânia.
"Os ataques sistemáticos aos locais de interesse militar e de decisão política em Kiev têm estado a ser adiados há demasiado tempo sem que exista um entendimento geral para isso face à gravidade dos ataques ucranianos directa e objectivamente planeados sobre civis", defendeu.
Num derradeiro acrescento, Dmitry Suslov lembra que a capacidade tecnológica ucraniana para exponenciar o efeito do uso de drones chega-lhes dos seus aliados europeus e norte-americanos, o que lhe serve para deixar no ar a ideia de que também esse lado do conflito deve ser considerado neste novo "mapa" da guerra.
De lembrar ainda é que tanto os líderes ucranianos, desde logo o Presidente Volodymyr Zelensky, que logo a seguir a esta nova ameaça russa se tem feito fotografar nas ruas de Kiev, quer os países europeus, já fizeram saber que não vão deixar a capital ucraniana apesar dos riscos existentes se Moscovo executar os novos planos de ataques.
Além disso, horas depois da vaga de ataque russa no Sábado, a Ucrãnia enviou dezenas de drones contra alvos no interior da Federação Russa, num evidente desafio ao Kremlin.






