É verdade que vivemos uma realidade relativamente nova, que alterou os pilares em que assentavam praticamente todas as actividades que demarcavam o exercício da política como actividade profissional e que os parâmetros clássicos levaram um enorme safanão com as novas formas de activismo político e de intervenção social que se registam um pouco por todo o mundo. De acordo com Pierre Rosanvallon, "as possibilidades de exercer a "contrademocracia" (nós preferimos chamar os contrapoderes) aumentaram graças à autoconsciência cidadã e aos avanços tecnológicos". O que explica que grande parte das novas questões políticas trazidas para a rua nos últimos anos têm sido levantadas mais pelo caminho das manifestações e de uma acção directa do que propriamente pelos métodos até então julgados convencionais - partidos, grupos de pressão, sindicatos, associações socioprofissionais, parlamentos.

A gravidade dessas mudanças - que não se revelariam tão negativas se fossem acompanhadas pelos actores até então essenciais da actividade político-partidária, estudando-as, compreendendo-as e interpretando-as, é que são, pelo menos na sua aparência, além de pontuais, desestruturadas e sem oferecerem alternativas, apolíticas, não assentando em quaisquer pressupostos ideológicos ou de princípios nem buscando a integração ou até o surgimento em grupos, novos que fossem, o que Daniel Innerarity chama de "estruturas duradouras de intervenção". Ou seja, até se pode defender que a participação existe em maior número, se olharmos para o espaço das redes sociais - que as mais das vezes só serve para marcar posições momentâneas e pontuais, sem uma lógica de continuidade, o que é facilmente explicável pela iliteracia, pela adopção da opinião que está mais na moda, pela ignorância de quem, não aprofundando a temática, dá as considerações que entende que deve dar, um pouco à moda de pequenos trumps ou diminutos bolsonaros.

"As pessoas querem ser implicadas no processo político, mas nos seus próprios termos, ou seja, de maneira intermitente, parcial e esporádica" (Hibbing/Theiss-Morse).

Mesmo que por culpa dos partidos clássicos a militância partidária esteja a perder atractividade, salvo para os que querem fazer carreira política para atingir objectivos pessoais as mais das vezes pouco sérios e sem nada a ver com reais preocupações individuais e colectivas, é forçoso admitir que as transformações, a curto, médio e longo prazos, ainda passam pela influência de um quadro partidário clássico, ainda que tenha de se adaptar às novas realidades que surgem um pouco por todo o lado. Estas exigências pontuais, que apenas dão vazão a pulsões de momento, porque não são integradas em nenhum âmbito político que lhes dê forma e conteúdo, apenas servem para os "likes" e um círculo reduzido de pessoas. Voltando a Innerarity, "a construção política e institucional da democracia falha, independentemente da emoção do momento, da pressão imediata e da atenção mediática". É bom que reflictamos todos sobre este tema. Em particular os partidos que integram o nosso quadro institucional.