A explicação, como o NJOnline constatou hoje, às primeiras horas do dia, quando os milhões de cidadãos se põem a caminho do trabalho, é que tanto os táxis (candongueiros) como os "malianos", mesmo que não estejam ilegais, sabem que vão ser dos principais alvos das forças policiais integradas na "Operação Resgate".

No táxi, os cidadãos, a esmagadora maioria dos habitantes de Luanda, vão para o trabalho, e nas cantinas dos "malianos" abastecem-se para o mata-bicho (pequeno-almoço), ou fazem as compras para o jantar da noite no regresso a casa após o trabalho.

Hoje, pelo menos durante a manhã, isso não vai acontecer com a mesma facilidade.

Como o NJOnline verificou em bairros como o Cazenga, Rangel, Kilamba KIaxi, etc;, é a pé que os cidadãos se estão a deslocar, e não é nas cantinas dos "malianos" que se estão a abastecer.

"Até parece que os táxis fizeram greve", disseram aos NJOnline vários cidadãos.

Mas não só: As casas de venda de peças de automóveis e lubrificantes, em bom número, não abriram, as lanchonetes ficaram fora de serviço, também em grande número, e os vendedores ambulantes, que palmilhavam as principais artérias da cidade desapareceram e não é fácil encontrar zungueiras na sua azáfama diária.

No entanto, como disse ao NJOnline o intendente Mateus Rodrigues, porta-voz do comando provincial da Polícia Nacional, a "Operação Resgate" só vai sair para as ruas do país depois de a Polícia Nacional, através de uma conferência de imprensa agendada para cerca das 10:00, explicar ao país, mais uma vez, os contornos e objectivos desta operação.

Para já, fica uma certeza, os receios de que esta iniciativa possa ferir os direitos e garantias de alguns sectores da sociedade, como o do comércio informal (zungueiras), segundo a Polícia Nacional, são infundados, porque os agentes que vão protagonizar esta operação, estão instruídos para não ferirem os direitos e garantias que o Estado de Direito lhes garante. Mas, se isso suceder, a PN disponibilizou um conjunto de números de telefone para onde os cidadãos, sob garantia de confidencialidade, podem fazer as suas denúncias face à ocorrência de maus tratos ou desrespeito da lei por parte dos elementos das autoridades: 931 69 99 99 ou 936 94 94 94, ou ainda 991 15 16 16, são alguns dos contactos telefónicos disponíveis.

O que pretnde alcançar esta operação?

Na apresentação da "Operação Resgate", no passado dia 19 de Outubro, o comandante geral da Polícia Nacional (PN), comissário-geral Paulo de Almeida, afirmou que o objectivo desta acção policial é o de "repor a ordem, repor a autoridade", porque "temos visto na nossa sociedade, nos nossos centros urbanos, uma desordem, uma falta de autoridade, uma anarquia".

Dizendo tratar-se de uma operação de grande amplitude", Paulo de Almeida, explicou que o nome da iniciativa se devia à necessidade de resgatar "a autoridade do Estado, da ética, da ordem, da disciplina".

Já no dia 30, o ministro do Interior, durante uma conferência de imprensa para a apresentação formal da operação, declarou que a que a Polícia Nacional (PN) teria ordens para varrer o país, aplicando "mão pesada", no sentido de "acabar com as irregularidades existentes".

De acordo com o ministro, são várias as inquietações das autoridades, como "a ocupação dos espaços públicos para construção de residências casebres, lanchonetes ou instalações de mercados informais, ocupação ilegal de reservas fundiárias para construção desordenada de bairros, mercados informais, ou a existência de armazéns e oficinas ao longo dos principais eixos viários que têm influência negativa na circulação viária".

Também a existência de mercados informais nas pedonais e passagens aéreas, a presença de infraestruturas inacabadas ou abandonadas, a venda de produtos de furto, com mais destaque para peças de diversas viaturas, telemóveis e similares, está a preocupar as autoridades, segundo o MININT.

No domínio da circulação rodoviária, Veiga Tavares apontou o uso alternativo ilegal de moto-taxistas de passageiros e o exercício ilegal de táxi, actividades que considera urgente "organizar, ordenar e disciplinar", tal como "a venda ambulante nos congestionamentos e nos pontos de carga e descarga de passageiros".

No domínio da imigração ilegal, o ministro referiu a "persistência por parte de cidadãos nacionais no auxílio à imigração ilegal", apontando também como aspectos negativos o tráfico ilegal de diamantes, o contrabando de mercadorias, a fuga ao fisco e o tráfico de drogas.

O ministro diz que a "Operação Resgate" é extensiva à "obtenção fraudulenta de documentos nacionais, ao exercício ilegal da actividade de medicina, da actividade ilícita religiosa", bem como à "introdução de hábitos e costumes estranhos na cultura nacional, como a caça furtiva, a pesca ilegal de recursos florestais, a exploração ilegal de minérios e inertes.

O governante lamentou, por outro lado, a destruição dos bens públicos e a subtracção de cabos eléctricos e placas solares que dificultam e restringem o sistema de distribuição de energia.

"A destruição de condutas de água e contadores, furtos de bombas de águas e painéis, vandalização de equipamentos hospitalares e outros actos de vandalismos em algumas centralidades são também situações que nos levam a tomar medidas urgentes", avisou.

Segundo Ângelo da Veiga Tavares, o Ministério vai ainda tomar medidas no que respeita à poluição sonora, à realização de festas convívio, em que equipamentos sonoros de alta potência têm incomodado os vizinhos, bem como a instalação de equipamento de som de alta potência em viaturas particulares e de transporte de passageiros.

No que diz respeito à falta de controlo dos pais e de tutores, crianças vítimas de violência doméstica e acusados de feitiçaria, referiu que "essas situações exigem que o Estado assuma o seu papel, com vista a por cobro a todo esse fenómeno".

"O objectivo desta operação, diz o ministro, tem como metas "o reforço da autoridade de Estado a todos os domínios, a redução dos principais factores provocadores da desordem e da insegurança, a redução da violência urbana mediante o incremento da acção preventiva, o aperfeiçoamento dos mecanismos e instrumentos para prevenção e combate à emigração ilegal, a redução dos níveis de sinistralidade rodoviária e melhoria da circulação rodoviária, e a proibição de produtos não autorizados em mercados informais".

No entanto, e após as muitas criticas à violência dos agentes contra as vendedoras ambulantes, o director do gabinete de comunicação institucional e imprensa do Comando Geral da Polícia Nacional, comissário Orlando Bernardo, deixou um aviso a todos os efectivos envolvidos na "Operação Resgate": serão punidos todos quantos tiverem comportamentos impróprios, que atropelem os direitos e garantias dos cidadãos e comprometam a organização.

Esta operação surge depois da "Operação Transparência", programada para se manter, de forma faseada, até 2020, e que visa pôr fim ao garimpo ilegal de diamantes e à imigração ilegal nas províncias de Malanje, Lunda- Norte, Lunda-Sul, Bié, Moxico e Uíge, está a ser desenvolvida por efectivos da Polícia Nacional (PN) e das Forças Armadas Angolanas (FAA).