... porque o barril de Brent, que serve de referência para as ramas exportadas por Angola, rebolou literalmente para cima da fasquia dos 70 USD, ficando mais de 10 USD acima do valor médio usado pelo Governo de João Lourenço no OGE 2025...
... o que é um "boost" tremendo para as apertadas contas nacionais que ainda têm no sector petrolífero um pilar essencial para aguentar a pressão da crise económica gerada pela inflação em alta há muitos anos e um desemprego que não se detém na ascensão.
E é neste contexto (ver aqui) que já perto das 11:00 desta quinta-feira, 19, hora de Luanda, o barril de Brent estava a bater nos 71,37 USD, mais cerca de 1,40% que no fecho da última sessão, quando também já se fazia sentir o efeito do iminente ataque dos EUA ao Irão.
E a razão é simples e conhecida: o Golfo Pérsico satisfaz mais de 30% das necessidades de crude globais, sendo que uma das garantias já fornecidas pelo Irão é que, em caso de ataque dos EUA, a resposta será célere e devastadora, sobre os aliados de Washington.
Como Teerão não tem como chegar directamente ao território norte-americano, a reacção será contra a sua economia, primeiro, atingindo o sector energético Oil&Gas do Médio Oriente, levando o barril para a estratosfera da valorização, atingindo severamente a economia dos EUA.
Mas os mercados sabem ainda outra coisa, até porque as autoridades iranianas já o disseram. Os primeiros misseis hipersónicos e indefensáveis do Irão serão para Israel, mas depois é a infra-estrutura petrolífera dos países da região onde os EUA têm as suas bases, da Arábia Saudita, EAU, Catar, a maior de todas, Al Udeid, Kuwait...
E, por fim, mas não por último, o Estreito de Ormuz, por onde passa 35% do crude e do gás consumidos no mundo, será fechado, o que o Irão pode fazer em segundos, minando aquela passagem marítima com cerca de 30 kms mas com menos de 3 kms acessíveis aos petroleiros de grande calado.
Se tal cenário viesse a afectivar-se, o barril de crude, segundo os analistas da AIE e da JP Morgan, treparia aos trambolhões muito para lá do seu recorde de sempre, que foram os 147 USD, para o Brent, em Julho de 2008...
Não é, porém, incontornável que tal cenário se venha a erguer à frente dos olhos do mundo, porque Donald Trump, com eleições intercalares em Novembro, onde correria o risco de perder as maiorias nas duas câmaras do Congresso, está obrigado a pensar duas vezes.
Para mais, com o com o maior escândalo de pedofilia de sempre em todo o mundo às costas, por ser nele, nos "Ficheiros Epstein", citado milhares de vezes, como o próprio já admitiu publicamente, a oposição democrata rapidamente avançaria para o "impeachement".
Isto, numa altura em que a OPEP+ está a recuar também na linha que manteve ao longo de quase todo 2025 com mensais e substanciais acréscimos de produção, o que gerou uma desvalorização acentuada da matéria-prima da qual ainda muito depende Angola.
Com efeito, em Novembro o "cartel" congelou o seu programa de recuperação de quota devido a um evidente e crescente excesso de produção, tendo agora decidido por manter intocada a produção para Março. Uma boa nova para o Governo angolano.
Todavia, ainda com uma dependência tão vincada das exportações de crude, mesmo que a diminuir ano após ano, em Angola, como, de resto, noutras dezenas de países com as mesmas características em todo o mundo, este momento...
... é mais uma razão para não se perder os mercados de vista
O actual cenário internacional tende a manter os preços acima do valor estimado para o OGE 2026, que contempla um ajustamento em baixa deste valor, 61 USD, em relação aos 70 USD de 2025, valor conservador mas aconselhável, atendendo aos altos e baixos e às incertezas globais...
Ainda assim, Angola é um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.
Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.
O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.
O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.
Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.
Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.
A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.

