O que os eleitores israelitas decidirem hoje, que será, de acordo com as sondagens mais credíveis, entre uma coligação liderada pelo Likud, de Benjamin Netanyahu, o actual primeiro-ministro, ou o Yashar, com o antigo CEMGFA, Gadi Eisenkot, à cabeça, terá tanto impacto no mundo que há quem ironize com a ideia de que o mundo inteiro devia votar nestas eleições.

E não é que a diferença ideológica ou até no que diz respeito a considerar o Irão como o "maior inimigo de Israel" seja relevante entre Eisenkot e Netanyahu, o que os distingue é a forma como dizem que as mesmas coisas devem ser feitas de forma diferente.

Há 19 anos no poder, Benjamin Netanyahu não precisa de uma grande vitória para ganhar mais quatro anos no comando de Israel, precisa apenas que o seu partido, o Likud, tradicionalmente de direita moderada mas radicalizado para o extremo ideológico pelos colegas da coligação que sustenta o seu Executivo, consiga manter uma maioria em coligação, igual ou diferente da actual.

É que com Netanyahu no Governo estão os líderes dos dois partidos, pequenos em tamanho mas gigantes em radicalismo, o Otzma Yehudit (Poder Judaico), de Itamar Ben Gvir, ministro da Segurança Interna, e o Hatzionut Hadatit (Sionismo Religioso), de Bezalel Smotrich, ministro das Finanças, cujas propostas extremistas fariam, a ser cumpridas, de Israel um país em permanente estado de guerra contra os vizinhos e contra as populações palestinianas nos territórios que ocupam há décadas.

Gadi Eisenkot, que procura abrir caminho para uma maioria de 61 deputados, no Parlamento de 120 lugares, com alguns partidos do centro-direita e até do centro-esquerda ideológico, foge, na retórica de campanha, à agressividade mostrada por Netanyahu, o que permite antever maior contenção na condução das múltiplas frentes de guerra em que o país se encontra, na sua política externa e até sobre a Palestina no seu conjunto, se vier a obter a preferência dos eleitores nestas eleições.

Todavia, outros nomes relevantes da política israelita não baixaram, longe disso, os braços, desde logo o antigo ministro das Finanças, Avidor Lieberman, do partido Yisrael Beiteinu, que se apresenta com a missão de atirar Netanyahu para o bau da história má de Israel, e Naftali Bennett, ex-primeiro-ministro, do Juntos, uma aliança de partidos, que pretende mudar Israel para novos carris da História.

Mas, como apontam alguns analistas, apesar de todos eles se apresentarem como alternativa a Benjamin Netanyahu e ao seu Governo ultra-radical de extrema-direita, nenhum deles fala abertamente de reviravolta na forma como lidar com os palestinianos, ou com o Irão, porque entendem que isso seria dar um sinal de fraqueza que poderia resultar mal eleitoralmente neste momento singular da história de Israel.

Com os dados lançados, Benjamin Netanyahu tentou alterar o destino que o aguarda, que será, em caso de derrota, um longo e pesado processo em tribunal onde está acusado de fraude, corrupção e abuso de poder, que o poderá levar à cadeia, procurando convencer o seu "amigo" Donald Trump para lançar uma nova vaga de ataques contra o Irão, que lhe permitiria adiar as eleições e ganhar novo impulso eleitoral para a próxima data da votação.

O azar do actual primeiro-ministro israelita é que Trump também tem eleições agora, a 03 de Novembro, uma semana após as em Israel, e, ao contrário daquele, nos EUA um ataque ao Irão teria, seguramente, consequências desastrosas para o seu Partido Republicano, que está, apontam as sondagens, à beira de perder a maioria no Congresso.

É a guerra no Golfo Pérsico que está, embora a da Ucrânia também contribua, a fazer disparar a inflação e o preço dos combustíveis nos EUA, os dois factores mais relevantes para a decisão do voto entre o eleitorado norte-americano, o que obriga Donald Trump a uma contenção redobrada, mesmo que isso choque de frente com os interesses do seu "amigo" Netanyahu.

As eleições em Israel são de tal modo relevante para o mundo que podem mesmo vir a impactar de forma indelével as que vão ter lugar dentro de uma semana nos Estados Unidos, porque em caso de derrota clamorosa de Netanyahu, este mantem, poder de decisão suficiente para se "vingar" ordenando um ataque contra o Irão sob a alegação de que Teerão está, mesmo que isso esteja provado ser falso, inclusive pelo sistema de intelligentsia norte-americano, de obter uma arma nuclear.

E, nesse caso, como sucedeu em Junho de 2025, e também a 28 de Fevereiro deste ano, nos dois ataques injustificados pera a Lei Internacional, contra o Irão, por norte-americanos e israelitas, e como o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, confirmou, Washington foi obrigada a seguir os passos de Telavive por não poder abandonar o seu principal aliado no mundo.

Com Donald Trump a afirmar repetidamente que não vai deixar o Irão obter armas nucleares, sendo claro, como a organização que agrega as 17 "secretas" norte-americanas, incluindo a CIA e a NSA, que tal risco não existe, repetindo a argumentação falsa de Netanyahu, se Israel partir para a guerra após as eleições intercalares nos EUA, como vai a Casa Branca recusar integrar esta ofensiva?

Não vai, como não o foi anteriormente, porque, como afirmava recentemente Larry Wilkerson, antigo coronel norte-americano e chefe de Gabinete do secretário de Estado Colin Powell, na Administração Bush, Donald Trump aramadilhou-se a si próprio na teia tecida por Benjamin Netanyahu, não apenas nos argumentos usados como ao deslocar a maior máquina militar, naval e aérea, desde a guerra do Iraque, para a região nestas últimas semanas.

Mas estas eleições são ainda substantivas no plano global porque são as primeiras a acontecer após o 07 de Outubro de 2023, durante o assalto do Hamas ao sul de Israel, que deixou mais de 1200 mortos em Israel e provocou como resposta do primeiro-ministro Netanyahu o genocídio subsequente com a destruição quase total de Gaza, o exíguo território palestiniano de 365 kms2 e 2,3 milhões de habitantes, com mais de 75 mil mortos confirmados e mais de 400 mil corpos ainda soterrados sob os escombros, segundo várias organizações internacionais.

De que forma esta crueldade, pode moldar o voto nestas eleições em Israel, é uma questão relevante, tanto a exercidas por Israel mas também a protagonizada pelos combatentes palestinianos em Outubro de 2023.

Há, contudo, um elemento que joga contra Netanyahu: as suspeitas crescentes e substantivas (ver links em baixo) de que o primeiro-ministro israelita foi avisado por diversas fontes do ataque do Hamas de 07 de Outubro, pelo menos 10 dias antes, pela secreta egípcia e pelo Presidente dos Emirados Árabes Unidos, como revelou uma investigação do jornal israelita Haaretz.

Mesmo com esse aviso antecipado, Benjamin Netanyahu optou por não fazer nada para impedir esse ataque, alegadamente, segundo a própria imprensa israelita, porque isso lhe permitiria, como aconteceu de facto, lançar uma nova invasão sobre Gaza, que seria uma promessa feita aos seus colegas no Executivo Ben Gvir e Smotrich, e que estes lha estavam a exigir sob ameaça de fazerem colapsar a coligação de Governo.

Nunca como nestas eleições, a escolha de pouco mais de 7 milhões de pessoas, os eleitores credenciados em Israel, tiveram nas mãos o destino de uma região, o Médio Oriente/Oeste asiático, ou mesmo do mundo, pelo impacto que vão seguramente ter no Golfo Pérsico (guerra entre o Irão e a coligação israelo-americana) e na Península Arábica (conflito entre Houthis e sauditas).