Nas nossas tertúlias com os jovens atletas do Clube Escola Desportiva Formigas do Cazenga, há uma ideia que repetimos quase como um compromisso pedagógico: o basquetebol nunca foi apenas um jogo. A sua essência está profundamente ligada ao conhecimento, à escola e à formação integral do ser humano. Não por acaso, esta modalidade nasceu pelas mãos de um professor de Educação Física, o canadiano James Naismith, em Springfield, no Estado de Massachusetts, um dos maiores centros mundiais do saber, onde se encontram instituições como a Universidade de Harvard e o Massachusetts Institute of Technology (MIT).


Recordamos igualmente aos nossos jovens que uma das páginas mais inspiradoras da história do basquetebol angolano foi escrita no universo académico. Em 1978, Angola conquistou a medalha de bronze nos Jogos Universitários de Nairobi, no Quénia, feito que lhe abriu as portas das Universíadas da Cidade do México, no ano seguinte. Nessa competição, José Carlos Guimarães destacou-se entre os melhores marcadores do torneio, dividindo o palco com atletas que viriam a marcar a história do basquetebol mundial, entre os quais Charles Barkley. A mensagem é simples: o conhecimento e o desporto caminham lado a lado.


O título desta reflexão inspira-se numa expressão que atravessa gerações e cuja actualidade permanece intacta: um país faz-se com homens e livros. A força desta expressão reside precisamente no seu sentido universal e humanista. Os livros expandem horizontes, despertam consciências e desenvolvem o pensamento crítico. São eles que transformam cidadãos em protagonistas da construção de uma sociedade mais livre, mais culta, mais democrática e mais próspera.


É precisamente essa convicção que sustenta a criação da futura biblioteca comunitária do Clube Formigas do Cazenga, uma iniciativa do Grupo Castel. Num município onde vivem perto de dois milhões de pessoas e onde os espaços públicos dedicados à leitura continuam a ser escassos, este projecto representa muito mais do que um edifício repleto de estantes. Representa uma oportunidade. Uma porta aberta para sonhos maiores. Um lugar onde cada livro poderá ser o início de uma nova história de vida.
Ao longo destes anos temos assistido a uma transformação silenciosa, mas profundamente reveladora. Descobrimos uma juventude extraordinariamente curiosa, inteligente e sedenta de conhecimento. Jovens que, apesar das adversidades, possuem uma enorme capacidade para aprender, questionar e reinventar o seu próprio destino quando lhes são oferecidas oportunidades.


Benjamin Franklin escreveu que «o investimento no conhecimento paga sempre os melhores juros». Dificilmente encontraremos uma definição mais feliz para aquilo que procuramos fazer diariamente. O nosso trabalho não termina no treino, nem no desenvolvimento das capacidades técnicas dos atletas. Começa, precisamente, aí. Procuramos formar estudantes antes de formar campeões. Criamos oportunidades para que leiam, frequentem sessões de cinema, assistam a debates culturais, participem em palestras e tertúlias e contactem com pessoas capazes de lhes alargar os horizontes. Porque acreditamos que uma boa leitura pode mudar uma vida com a mesma intensidade que uma grande vitória dentro de campo.


Aquilo que temos vindo a construir no Cazenga permite-nos sonhar mais alto. Sonhar com um país onde o desporto seja definitivamente reconhecido como uma política pública de desenvolvimento humano; onde cada pavilhão possa ser também um centro de aprendizagem; onde cada clube seja um espaço de cidadania; e onde investir na juventude deixe de ser encarado como uma despesa para passar a ser entendido como o mais inteligente dos investimentos.


O desporto continua a ser uma das mais poderosas ferramentas de transformação social de que dispomos. Ensina disciplina, respeito, solidariedade, tolerância, resiliência, superação e sentido de comunidade. Mas, quando caminha de mãos dadas com a educação, multiplica exponencialmente a sua capacidade de transformar pessoas e comunidades.


Talvez seja essa a maior lição que o basquetebol nos oferece. Os troféus ficam nas vitrinas. As medalhas envelhecem. Os recordes acabam sempre por ser ultrapassados. Mas o conhecimento permanece. E um livro colocado nas mãos de uma criança poderá, um dia, valer muito mais do que qualquer taça conquistada dentro das quatro linhas.


Porque, no fim de tudo, as grandes nações não se medem apenas pela riqueza que acumulam ou pelos edifícios que erguem. Medem-se, sobretudo, pela qualidade dos cidadãos que conseguem formar. E esses cidadãos começam a construir-se com educação, com valores, com desporto... e, inevitavelmente, com livros.
*Jurista e Presidente do Clube Escola Desportiva Formigas do Cazenga