O recado, dirigido a Moçambique, é extensível a Angola - onde Moscovo sinalizou pela manhã ao Novo Jornal, ao apelar ao respeito pela soberania dos povos e das suas leis, quando o conselheiro de Putin, Anton Kobyakov, reagiu à condenação de dois russos por terrorismo.

Enquanto o Presidente da República, João Lourenço, aceitou viajar para a Tanzânia a convite da Presidente Samia Hassan, em Moscovo, Daniel Chapo ouviu proferido por Vladimir Putin um discurso carregado de peso histórico.

"Moçambique não é um parceiro novo. É um irmão de luta. Quando Samora Machel e a FRELIMO lutavam contra o colonialismo português, a União Soviética estava lá. Não com palavras. Com armas, com médicos, com bolsas para os vossos jovens estudarem em Moscovo, enquanto Lisboa vos bombardeava", declarou.

E prosseguiu: "a amizade da Rússia e Moçambique não é de papel. Não é de contrato. É de sangue. Sangue derramado na mesma trincheira contra o colonialismo. Samora Machel sabia disso. Por isso hoje, quando olho para o Presidente Chapo, não vejo um Presidente estrangeiro. Vejo o filho daquele sangue".

Estas palavras do líder russo oferecem uma perspectiva clara sobre um posicionamento que lhe é característico, ou seja, uma filosofia pautada por uma visão de mundo que conhece e se reconhece naquilo que foi o Império da antiga União Soviética.

Como o NJ havia apontado na antevisão desta cimeira, Moscovo olha para este evento como uma grande oportunidade de consolidar os laços profícuos entre os seus velhos parceiros, que na verdade são irmãos de sangue, conforme Putin categorizou.

É claro que o gesto do Presidente russo não foi feito por acaso, afinal Daniel Chapo havia dito no primeiro dia da cimeira que a soberania energética de uns não pode ser construída à custa da segurança energética de outros.

Ambos os pontos de vista se interligam, uma vez que a Rússia e a Ucrânia continuam num conflito onde a energia é uma das principais frentes de ataque e o controlo, como se verifica em termos económicos nesse embate entre os maiores abastecedores de cereais mundiais.