Melhor do que passar em segundo lugar, só em primeiro. Este segundo lugar tem sabor de primeiro para Cabo Verde. É o culminar de um trabalho de anos, perseverança, identificação de talentos e uma base que assenta numa linha de continuidade e de investimento que não pode, nem deve jamais ser ignorada.

Aconteça o que acontecer no duelo com a Argentina nos dezasseis-avos-de-final do Campeonato do Mundo de 2026, a dimensão do que este grupo orientado por Pedro Bubista acaba de fazer é já incalculável. O nulo diante da Arábia Saudita, alcançado na última sexta-feira, frente a um país cuja liga emergente conta com nomes como Cristiano Ronaldo, Sadio Mané e Karim Benzema, além de milhões de petrodólares investidos em desporto, junta-se aos empates com o Uruguai (2-2) e com Espanha (0-0). Resultados que contrariam a velha máxima de que determinadas equipas nasceram apenas para resistir, sobreviver e não para competir com as melhores. "Os Tubarões Azuis" provam que essa ideia está definitivamente ultrapassada.

A epopeia colectiva

Mais do que olhar para o nulo frente aos "Falcões Verdes", ou antecipar o próximo encontro, importa conhecer o país que carrega esta conquista e os rostos que lhe deram forma. Cabo Verde é um arquipélago com dez ilhas, nove das quais habitadas, com uma população próxima de meio milhão de habitantes. Um território cuja identidade se revela na gastronomia, no crioulo, na música, no orgulho pela pátria.

Como disse Pedro Bubista aos jornalistas, esta selecção é a identidade de um povo.

É como se, ao subirem ao relvado, víssemos a resiliência, a entre-ajuda, o espírito de pertença, o amor pela camisola que trazem no peito e o sacrifício em prol do colectivo.

As gerações de uma conquista:

Por detrás dos "Tubarões Azuis" não está só uma geração, estão várias gerações. Em 2012, Cabo Verde qualificou-se pela primeira vez para o Campeonato Africano das Nações (CAN), disputado um ano depois, na África do Sul.

Nessa edição assinaram uma campanha memorável, terminando em segundo lugar do grupo, registando um nulo com a anfitriã, um empate a (1-1) com Marrocos e sendo o carrasco de Angola com um triunfo por (2-1).

A equipa orientada por Lúcio Antunes caiu nos quartos-de-final perante o Gana (0-2), porém deixou o primeiro grande sinal de que os filhos de Cabral podiam competir de igual para igual com algumas das melhores selecções do continente.

Dessa geração permanecem Vozinha, o guardião que se tornou uma figura incontornável do futebol cabo-verdiano. Outrora alvo de muitas críticas, nunca se atirou aos adeptos. Preferiu fazê-lo onde mais importa, dentro das quatro linhas, jogo após jogo. O outro é Ryan Mendes, então apontado como um dos maiores prodígios cabo-verdianos a despontar na Ligue 1 em França. Uma grave lesão alterou-lhe o rumo da carreira, contudo nunca o compromisso com a pátria. Ambos representam o pulmão e o coração do núcleo, simbolizando a longevidade, a lealdade e a dedicação a um projecto que atravessa mais de uma década.

Curiosamente, ambos estiveram presentes na melhor campanha de sempre de Cabo Verde no CAN, em 2023-2024, na Costa do Marfim.

Já com Pedro Bubista ao leme, os insulares terminaram em primeiro lugar do grupo, com sete golos marcados e três golos sofridos, superando pelo caminho o gigante continental, Gana (2-1), Moçambique (3-0) e empatando com a selecção mais titulada da prova, o Egipto, a duas bolas.

Nos oitavos-de-final, venceram a Mauritânia por 1-0 e nos quartos-de-final só caíram frente à África do Sul (1-2) nos penáltis, após um nulo. Foi uma campanha sem derrotas no tempo regulamentar.

Tudo isto é reflexo de uma equipa organizada, disciplinada do ponto de vista táctico e capaz de explorar as fragilidades dos adversários sem abdicar da sua filosofia de jogo. É um conjunto que sabe sofrer, pressionar, defender e escolher o momento certo para atacar, tal como um "Tubarão Azul" espera pela oportunidade antes de desferir o golpe.

Ao longo de décadas chegaram novos rostos, mas a essência do núcleo nunca mudou. Roberto Lopes ("Pico"), descoberto pelo antigo técnico, Rui Águas, através do LinkedIn quando actuava no Shamrock Rovers. Logan Costa, hoje no Villarreal, Stopira, que adiou o fim da carreira para viver o sonho de um Mundial. Dailon Livramento, herói da qualificação, Kévin Pina, um dos médios em maior destaque no CAN 2023-24, Jamiro Monteiro um talento formado fora, Gilson Benchimol Tavares, Diney Borges são alguns nomes que compõem um grupo espalhado pelos campeonatos de Portugal, Espanha, Israel, Turquia, EUA, Países Baixos e Irlanda.

É por isso que este joker não apareceu por acaso no baralho do grupo H. Foi construído durante mais de uma década, e hoje continua a ensinar ao desporto-rei que identidade, organização e compromisso ganham jogos.