Há muito que se suspeita nos corredores da oposição guineense que todo o processo de tomada do poder pelos militares no momento em que eram contados os votos das Presidenciais de Novembro do ano passado foi um golpe de teatro forjado entre Embaló e o líder militar, general Horta N-Tam, que entretanto assumiu o cargo.

Com este anúncio de que está a regressar ao país, depois de quase um ano exilado no Senegal e noutros países da região, Sissoco Embaló expõe o seu plano de conseguir fazer a Guiné-Bissau regressar a uma espécie de partido único, após a aprovação da nova Constituição (ver links em baixo).

Quando ocorreu o golpe militar, a contagem dos votos era-lhe desfavorável, mesmo largamente desfavorável, segundo a oposição, o que deixa agora dúvidas sobre este regresso com um enquadramento triunfal antecipado.

Mas o facto de a nova Constituição ter sido aprovada em referendo com facilidade, permite igualmente a tese de que o povo guineense está saturado da instabilidade que este pequeno país lusófono da África Ocidental vive há décadas e prefere outra solução, mesmo que escassamente democrática.

Entretanto, esta notícia do regresso de Embaló está longe de ter caído em Bissau como uma bomba, era, isso sim, esperada a qualquer momento.

E o ex-P residente guineense anunciou igualmente nas últimas horas que será candidato às eleições presidenciais de dezembro, a menos de uma semana do regresso anunciado a Bissau.

"Sim, serei candidato", disse Sissoco Embaló à revista Jeune Afrique (JA) a partir de Brazzaville, de onde deverá seguir para Bissau no próximo domingo, numa citação recuperada pela Lusa.

De acordo com a revista, o antigo chefe de Estado guineense considera que o general Horta N"Tam Inta-a, presidente de transição desde o golpe de Estado de 26 de novembro de 2025 e "principal artífice do seu afastamento, mas de quem se manteve próximo, respeitará os termos da carta de transição e não se candidatará", o que deixa o caminho aberto para o início da pré-campanha.

Até 6 de dezembro, data marcada para as eleições, haverá o congresso do seu partido, o Madem G15, a 16 e 17 de outubro, e será depois lançada a Plataforma Republicana, que reúne mais de uma dezena de partidos e que deverá dar o apoio à candidatura de Sissoco Embaló, acrescenta a JA.

O antigo chefe de Estado anunciou o seu "regresso voluntário ao país" para o próximo dia 04 de outubro e apelou a que a sua chegada decorra "num ambiente de harmonia, tolerância e respeito mútuo".

O anúncio do regresso de Embaló, deposto num golpe de Estado em 26 de novembro passado, foi feito pelo próprio nas redes sociais.

De acordo com a publicação, Umaro Sissoco Embaló, que fixou residência em Marrocos desde o golpe, sublinha a necessidade "de colocar o interesse nacional e a estabilidade acima de quaisquer divergências políticas".

"A Guiné-Bissau é a nossa pátria e pertence a todos nós. Independentemente das nossas posições ou opções políticas, devemos preservar a paz social, fortalecer a união e colocar o interesse nacional acima das diferenças", escreveu o ex-Presidente na mensagem.

Umaro Sissoco Embaló presidiu à Guiné-Bissau de 27 de fevereiro de 2020 a 26 de novembro de 2025 até ser derrubado por um golpe liderado pelo general Horta Inta-a, seu antigo chefe de segurança na Presidência da República.

A oposição considerou que se tratou de um "golpe cerimonial" por ocorrer em vésperas de divulgação dos resultados provisórios das eleições presidenciais que o bloco defende terem sido ganhas "à primeira volta" por Fernando Dias da Costa.

Na sua mensagem de anúncio do regresso, Sissoco Embaló destaca que o "retorno a solo pátrio é um gesto de confiança" no futuro da Guiné-Bissau, motivado pelo sentimento de pertença e "pelo desejo de reencontrar" a sociedade guineense.

O ex-chefe de Estado apela a que a receção "seja pacífica e fraterna, evitando comportamentos que possam suscitar tensões ou divisões" entre compatriotas e ainda que reforce a responsabilidade cívica e preserve os princípios fundamentais do Estado de direito.

Com o golpe de Estado de 26 de novembro, os militares criaram um Conselho Nacional de Transição (CNT), que assumiu as competências do parlamento, e nomearam Ilídio Vieira Té primeiro-ministro e ministro das Finanças.

O órgão fez aprovar uma nova Constituição que reforça os poderes do Presidente da República, entre outras alterações. O general Horta Inta-a marcou para 6 de dezembro próximo a data para a realização de eleições legislativas e presidenciais e a oposição considera que aquele estaria a preparar-se para facilitar o regresso de Embaló ao poder.