Está-se num momento em que se adivinha o regresso à guerra? Ainda não, mas o cessar-fogo em vigor e o processo negocial que decorre sob mediação paquistanesa está sob forte pressão.
Perto das 09:00 da manhã desta terça-feira, escassas horas após estas notícias terem sido conhecidas, o cessar-fogo de seis semanas parece estar a aguentar-se e as negociações iraniano-americanas prosseguem apesar de fortemente beliscadas.
Os americanos justificaram o ataque a sistemas de de misseis iranianos em Bandar Abbas, cidade próxima do Estreito de Ormuz, e a navios da marinha da IRGC, alegando que estavam em curso preparativos para "semear" minas navais no Golfo Pérsico.
Porém, o que os analistas defendem é que os norte-americanos estão, com este ataque premeditado, a dizer aos iranianos é que, no campo das negociações sobre o futuro do Estreito de Ormuz, o seu controlo militar sobre a passagem é frágil e pode ser anulado.
Isto, porque os dois lados assumem que existem progressos nas negociações de paz mas há dois pontos em que não podiam estar mais afastados: no programa nuclear iraniano e na "decisão irreversível" de Teerão em manter o controlo do Estreito de Ormuz.
Com este ataque a Bandar Abbas, e a alguns navios da marinha iraniana, a mesma que o Presidente norte-americano Donald Trump disse repetidamente que estava toda no fundo o mar, chegou a ser avançado em alguns sites que estava a recomeçar a guerra.
Possibilidade que foi ainda alimentado pela notícia de que o Irão abateu um MQ-9 Reaper, um dos mais caros - mais de 30 milhões USD - drones de vigilância em alta altitude e ataques de precisão da Marinha dos EUA.
Tal parece não ser o desfecho que até os mercados petrolíferos admitiam como mais provável visto que o barril de crude disparou de novo para os 100 USD, no caso do Brent, em Londres, na abertura dos mercados.
O que levou, de imediato, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, a vir publicamente garantir que as conversações se mantinham, bem como a iminência de um entendimento mínimo para declarar a guerra acabada.
Todavia, foi igualmente neste espaço temporal que em Teerão se ficou a conhecer uma directiva do Líder Supremo do Irão, aiatola Mojtaba Khamenei, onde este determina que os EUA nunca mais terão nos países do Golfo Pérsico um "escudo de protecção" para as suas acções militares nem "postos avançados seguros" para as suas acções agressivas.
Este surgimento de Khamenei, filho do antigo Líder Supremo, abatido a 28 de Fevereiro pela coligação israelo-americana, no primeiro dia desta guerra que já vai em três meses, metade dos quais sob uma camada de gelo fino mantida pelo cessar-fogo, tem como objectivo claro dizer a Donald Trump que seja qual for o entendimento a que chegarem, o regresso dos EUA às bases na região - todas total ou parcialmente destruídas nas primeiras semanas de guerra - não está entre as possibilidades discutidas.
A questão das bases dos EUA nos países da região, principalmente na Arábia Saudita, Emiratos, Bahrein, Kuwait e Catar ainda não tinha sido falada no âmbito das negociações, mas esta directiva de Mojtaba Khamenei indicia que o tema estará a chegar à capa dos jornais, procurando assim deixar clara a posição de Teerão sobre essa questão.
Numa altura em que delegações do Irão e do Paquistão estão em Doha, no Catar, num "sprint" para chegar a um entendimento mínimo para garantir que a guerra fica afastada como possibilidade, este episódio abrasivo na região de Hormuzgan pode, contudo, indiciar igualmente que as partes não estão a conseguir avançar e que a opção militar está em cima da mesa.
Precisamente aquilo que Donald Trump tem estado a dizer diariamente embora aqui e ali com publicações na sua rede social mais optimistas, falando mesmo na iminência de um acordo, apesar de na resposta simétrica, Teerão tenha, a igual ritmo, feito saber que ainda há muito caminho a percorrer e que nalguns temas nem sequer começou essa caminhada.
Os mais problemáticos imbróglios são a questão nuclear, que os americanos querem fechar já, com garantias de que Teerão nunca terá armas nucleares, e os iranianos, aceitando e repetindo que ter esse tipo de armamento não é seu objectivo, pretendem discutir numa fase posterior; a abertura do Estreito de Ormuz, com ou sem "portagem", sendo o desentendimento igualmente claro; e o levantamento das sanções, imediato ou com um calendário temporal alargado; e a devolução dos fundos congelados no exterior.
O que parece ser claro é que o Irão não vai abdicar em nada do que exige nestes três capítulos, até porque, como notam quase todos os analistas, os EUA e Israel estão sem opções militares convencionais que possam alterar o padrão, como se viu nas seis semanas de intensos ataques, e Donald Trump está sob uma gigantesca pressão interna (ver links em baixo), com eleições à porta, para se libertar das grilhetas eleitorais deste conflito para o qual foi arrastado por Israel.
Apesar deste cenário complexo, o que as negociações visam é bastante simples: chegar a um memorando de entendimento que contenha a reabertura do Estreito de Ormuz para todos os navios, definir um calendário razoável para as partes sobre a questão nuclear, e apontar de forma clara as etapas para levantar sanções e devolver os mais de 20 mil milhões USD em fundos iranianos congelados no sistema financeiro internacional ao abrigo de sanções dos EUA, da União Europeia e das Nações Unidas.
Mas há um ponto, embora vários analistas sublinhem que se trata de um expediente argumentativo e justificativo para a continuidade da guerra, que pode ser uma abertura eficaz da porta da paz, que é a questão do programa nuclear iraniano.
Isto, porque Trump tem, nas últimas semanas, como que tapado com este tema todos os outros, deixando no ar a ideia de que se for resolvido o assunto do nuclear iraniano, os restantes são mera burocracia.
E a saída possível emerge de um cenário em que os iranianos não aceitam ver os seus 450 kgs de urânio enriquecido quase em percentagem militar sair do país, e os americanos insistem que este material não pode manter-se disponível para Teerão: agora, Donald Trump admite que o urânio em estado de enriquecimento igual ou superior a 60% pode ser destruído no Irão sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atómica.
Também sobre a exigência iraniana de que o fim da guerra signifique também o fim do conflito no Líbano, com a saída das forças israelitas do sul do país, e o fim definitivo dos ataques sobre todo o território libanês e em todas as formas, parece estar a observar avanços com uma aparente menor paciência da Casa Branca para a vontade do primeiro-ministro Benjamin Netanyhau manter a frente libanesa em brasa por questões de natureza política interna.
Outra saída airosa para os EUA é que estão, ao que tudo indica, disponíveis para aceitar que o Irão, ao invés de cobrar uma portagem directa aos navios que atravessem o Estreito de Ormuz, optem por cobrar uma verba justificada por questões de impacto ambiental e de necessidade de investir na segurança da navegação no Golfo, o que vai dar ao mesmo mas sob outra designação.
O que é também uma abertura que permite a entrada em cena da China, um aliado do Irão mas a quem Trump pediu formalmente, na sua recente visita a Pequim, que interceda de forma a pressionar Teerão, o que pode estar a acontecer, como fica evidente nos elogios chineses ao papel de mediador do Paquistão.
Isso ficou-se a saber através do primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, que esteve esta segunda-feira, 25, em Pequim, para uma rápida visita de trabalho, e na qual o assunto Golfo Pérsico esteve no centro da conversa que manteve com o Presidente Xi Jinping.
Há, porém quem entenda, como Larry Johnson, antigo analista da CIA e comentador frequente nos media alternativos, que os EUA e Israel estão apenas num intervalo para reabastecer antes de nova vaga de ataques sobre o Irão, porque o objectivo foi e é sempre o mesmo: acabar com o regime vigente no Irão e colocar em Teerão uma liderança amiga do Ocidente.










