O Presidente americano, alegadamente irritado com as operações militares israelitas no Líbano, chamou "doido varrido" ao chefe do Governo israelita e disse-lhe que é ele o responsável por Israel ser hoje "o país mais odiado do mundo"
"Tu és um doido do ...", atirou Donald Trump, recorrendo ao palavrão mais usado no mundo, contra Benjamin Netanyhau, na conversa telefónica que teve lugar nas últimas horas e o site Axios relatou palavra por palavra.
Conversa na qual o americano criticou fortemente o seu "grande amigo" por manter em brasa a frente de guerra no sul do Líbano, que é uma "granada" lançada por Telavive para cima da mesa das negociações entre americanos e iranianos.
Entre os termos mais abrasivos usados por Trump na conversa com Netanyhau, surge em destaque a ameaça da Casa Branca sobre o chefe do Governo em Telavive: "Se não fosse por mim estavas há muito na prisão!".
Ao dizer a Netanyhau que podia estar preso, também pode estar a dizer-lhe pode ser preso, referindo-se ao julgamento que decorre em Israel onde este é acusado de crimes graves de corrupção e branqueamento de capitais e que tem sido sucessivamente adiado devido à guerra.
Provavelmente Donald Trump referia-se ao facto de ter defendido, em publicações na sua rede social Truth Social, que a Justiça israelita devia deixar Benjamin Netanyhau em paz porque a sua missão às frente de Israel é mais importante que o seu julgamento.
O que leva a que alguns analistas, como Trita Parsi, do Quincy Institute for Responsible Statecraft, uma organização norte-americana de reflexão sobre política internacional, a admitir que este tipo de conversas mais ruidosas servem apenas para consumo interno nos EUA e num momento em que a guerra é cada vez menos popular.
Ou Larry Wilkerson, antigo coronel e conselheiro do secretário da Defesa norte-americano, que diz ser mesmo uma anormalidade o poder que o primeiro-ministro israelita tem sobre o Presidente norte-americano quando se sabe que sem o apoio dos EUA, Israel é pouco mais de um anão militar...
O que tende a colocar estes desentendimentos telefónicos que chegam a público, através dos media, via fontes anónimas como forma de Trump "mostrar" que não é uma marioneta nas mãos de Benjamin Netanyhau.
O que é ainda mais premente quando se aproximam as eleições intercalares de Novembro e onde pode perder as maiorias quen o seu Partido Republicano tem nas duas cãmaras do Congresso, como todas as sondagens antecipam.
Conversa que não é a primeira aparentemente abrasiva entre os dois, ou até entre Netanyhau e outros Presidentes norte-americanos, estando ainda fresca na memória a chamada entre Joe Biden e o primeiro-ministro israelita onde, em 2023.
Nessa chamada foi usado o mesmo tom e a mesma agressividade nas palavras mas, tal como agora, sem qualquer mudança no apoio indefectível dos EUA a Israel, sendo que na altura era do genocídio em Gaza que se falava.
Desta vez foi a ameaça do Irão abandonar as negociações com os EUA e o alerta às populações do norte de Israel para abandonarem as suas casas, deixando claro que uma chuva de misseis estará a caminho, caso Netanyhau não trave a invasão do Líbano.
Porque Teerão mantém no mesmo patamar negocial as frentes de guerra no Líbano, onde o seu aliado regional mais relevante, o Hezbollah, está sob fogo, e no Golfo Pérsico, onde os EUA repetem periodicamente os ataques apesar do cessar-fogo vigente.
Isto, quando as autoridades iranianas subiram um degrau na manifestação pública de desconfiança em tudo o que lhes é dito por Donald Trump e a sua Administração, considerando que a Casa Branca parece não ter abandonado a sua política de avanços e recuos diários no desenho de um acordo de paz.
Ao fim de dois meses de duração do cessar-fogo na guerra que americanos e israelitas lançaram contra o Irão a 28 de Fevereiro, já só é possível perceber o que está a obstaculizar um entendimento entre Teerão e Washington se se pensar que Israel insiste em manter a sua guerra no Líbano como forma de fazer desmoronar qualquer processo de paz no Golfo Pérsico.
E a única razão visível apontada por Donald Trump para a guerra é que "os iranianos não podem ter uma arma nuclear" mesmo que em Teerão se repita que esse objectivo não existe.
Até porque são conhecidas as duas "fatwas", ou decretos religiosos invioláveis à luz do Corão (Sharia), de dois Líderes Supremos, a proibir o país de ter armas nucleares, o que deixa apenas como válida a tese de que Netanyhau detém um poder de influência na Casa Branca muito além do normal e é preciso encontrar justificação atrás de justificação para manter o conflito.
Face a este cenário de desconfiança, e depois de na passada sexta-feira, 29 de Maio, o próprio Trump ter dito que estava concluído um "memorando de entendimento", que iria reunir a sua equipa de conselheiros para a última palavra ser dada, tudo desmoronou sem que até hoje se perceba a razão.
Facto é que Washington colocou novas condições para serem acrescentadas ao "memorando de entendimento", o que levou os iranianos a deixarem os americanos sem resposta até hoje, terça-feira, 02.
Além de voltarem a deixar claro que não confiam em Trump e a ameaçarem sair da mesa das negociações se não forem dadas garantias sólidas da boa-fé negocial da Casa Branca.
O que, no fim de contas, deixa cada vez mais espaço para a formulação de propostas alternativas para explicar a montanha-russa de decisões emanadas pela Casa Branca, e, entre outras, destaca-se a questão da manipulação dos mercados energéticos.
É assim porque Trump avança ou recua quase sem excepção às sextas-feiras ou às segundas-feiras, para provocar subidas ou descidas no valor do petróleo e do gás (LNG).
Um calendário de tal modo coincidente que várias analistas notam ser já difícil encontrar uma explicação, além da intenção de manipulação, para a forma como os americanos estão a agir no decurso das conversações com os iranianos.
O que é já evidente é que Israel não abandonou a sua ofensiva no sul do Líbano, onde, mesmo depois da escaldante conversa entre Trump e Netanyhau, as Forças de Defesa de Israel (IDF) e o braço armado do Hezbollah, continuam a digladiar-se.
Sendo que há décadas que os israelitas não chegavam tão longe para norte do país, ganhando mesmo posições nas proximidades da capital, Beirute.
E, perante tal cenário, a ameaça iraniana de abandonar as negociações de paz é dia após dia mais plausível, o que faz com que a retoma do conflito aberto seja igualmente mais provável.
O que fica bem em evidência nas palavras do presidente do Parlamento iraniano, e chefe da equipa de negociadores, Mohammad Bagher Ghalibaf, que fez saber nas últimas horas que se Israel não abandonar de imediato os seus avanços no Líbano não apenas as negociações serão interrompidas como "o inimigo será combatido com todo o vigor".
Daí o aviso de Teerão às populações do norte de Israel para abandonarem as suas casas dirigindo-se para sul, onde estrão menos expostas aos ataques, o que deverá acontecer a qualquer momento porque, já depois da conversa com Donald Trump, o primeiro-ministro Benjamein Netanyhau veio garantir que "os planos militares para o sul do Líbano prosseguem inalterados".










