Na recente visita que fiz a Angola não podia deixar de o contactar e convidá-lo para almoçar, como sempre ocorria quando ele se deslocava a Lisboa.
Por pura coincidência fi-lo no dia anterior à chegada a Luanda do Papa Leão XIV.
D. Zacarias, como abreviadamente o chamava, deu-me conta de que no próprio dia em que lhe telefonei tinha tido alta do hospital, sentindo-o muito debilitado, manifestando o propósito de ir ter comigo ao hotel onde me encontrava hospedado.
Consciente da debilidade em que se encontrava, ironizei com ele, respondendo que almoçaríamos na primeira oportunidade, e adiantando que tínhamos ainda uma vida pela frente.
No dia 29 do passado mês de maio, um amigo comum e familiar de D. Zacarias, no caso o Dr. Carlos Sangueve, apressou-se a comunicar-me o infausto acontecimento da sua morte .
Muito já se escreveu sobre a personalidade de D. Zacarias e não vou por isso repetir o seu invulgar percurso de vida e as justas honrarias de que foi beneficiário
Sublinho, porém, a atribuição pelo Parlamento da União Europeia do prémio Sakarov , em 2001, antes só atribuído a outro africano, Nelson Mandela, pelo contributo prestado à liberdade de pensamento.
Foi um privilégio poder ser amigo próximo de D. Zacarias, como fui de outros eclesiásticos angolanos, nomeadamente D. Alexandre do Nascimento ou do que foi padre, Joaquim Pinto de Andrade , ambos anti colonialistas, sendo que o último permaneceu católico após deixar o sacerdócio e tendo, estes três amigos, consciência de que eu era agnóstico.
Esta minha condição de agnóstico nunca me condicionou ou me impediu, bem pelo contrário, de reconhecer o importantíssimo papel da doutrina social da igreja para a humanidade e a influência que essa doutrina teve na criação da actual União Europeia , então CEE, através das representações partidárias que se reclamavam da democracia cristã e do socialismo democrático.
A coincidência da minha recente deslocação a Angola ter dado lugar ao telefonema a D. Zacarias e o facto do Papa Leão XIV ter chegado ao aeroporto 4 de fevereiro no dia seguinte, leva-me, a neste artigo, invocar ambos.
Desde logo por não ser obra do acaso o actual Papa ter cidadania norte americana e ter escolhido o nome de Leão XIV, como que assumindo neste mundo incerto ser continuador de um dos pontífices que antes dele mais marcou a doutrina social da igreja, com a encíclica "Rerum Novarum", no caso Leão XIII.
A primeira encíclica do Papa Leão XIV, recentemente publicada segue as linhas mestras da doutrina social da igreja com o título de " Magnifica Humanidade".
Esta encíclica, para além de procurar dar resposta aos novos desafios com que a humanidade está confrontada , desde a inteligência artificial, aos processos migratórios, passando pelas questões ambientais, resultado de inúmeros fatores, nalguns casos da vertiginosa evolução técnica e cientifica, sublinha não se poder nunca perder de vista que tudo se deve submeter a princípios e valores humanos.
São os critérios humanos que devem ser valorizados por serem os que moldam as democracias, a justiça, a liberdade, mas também a igualdade, a dignidade do trabalho e os direitos fundamentais, incluindo nestes últimos os que respeitam a salvaguarda do direito internacional, que é contrário à afirmação do direito do mais forte sobre o mais fraco.
Na verdade, o poder é um instrumento para a prossecução do bem comum e não um fim em si mesmo, a conservar a qualquer preço,
Lembrar D.Zacarias e o Papa Leão XIV é refletir sobre dois exemplos de vida com sentido, assentes na doutrina social da igreja e abrir janelas à reconquista da esperança com valores e princípios neste mundo hoje tão hedonista que põe em causa direitos fundamentais e inclusive o direito internacional