Embora tenha, na recta final do seu primeiro mandato, em 2020, olhado para África, aparentemente pela primeira vez em quatro anos, para surpreender o mundo ao reconhecer o Saara Ocidental como parte integral de Marrocos, Donald Trump nunca deixou de desprezar o continente.

Chegou mesmo, em 2018, num fórum sobre imigração, a denominar os países africanos como "buracos de m...", o que gerou forte indignação em praticamente toda a África, e quando olhou para o continente para tomar uma decisão política, foi igualmente polémico.

É que ao fazer os EUA reconhecer o Saara Ocidental como parte de Marrocos contrariou a política continental da União Africana e enfureceu mesmo alguns países, como a Argélia, e mesmo angola, que sempre alinhou com o Governo Saarauí e as pretensões à auto-determinação da Frente Polisário.

Agora, novamente com estrondo, Donald Trump volta a surpreender ao tirar um novo coelho da cartola africana ao anunciar um projeto de construção de uma auto-estrada que terá o seu nome e ligará as cidades de Tiznit, em Marrocos, e Dakhla, esta última localizada no território ocupado do Saara Ocidental.

A auto-estrada, orçada em cerca de 900 milhões de dólares, terá cerca de mil quilómetros de extensão, atravessando cidades costeiras, incluindo El Aaiún, também na zona do Saara Ocidental controlada por Marrocos.

A extremidade sul da auto-estrada, em Dakhla, irá ligar-se ao megaprojeto do Porto Atlântico da cidade, atualmente em construção e com inauguração prevista para 2028.

No seu discurso, citado pelas agências, Donald Trump agradeceu ao Rei de Marrocos e disse que espera percorrer essa via, apontando para uma conclusão do projecto "em breve".

A antiga colónia espanhola do Saara Ocidental foi ocupada por Marrocos em 1975, apesar da resistência armada da Frente Polisário até 1991, altura em que os dois lados assinaram um cessar-fogo com vista à realização de um referendo sobre a autodeterminação.

As divergências sobre a consulta e a inclusão ou exclusão dos colonos marroquinos impediram, até ao momento, a realização do referendo.

O mais recente revés para o povo sarauí foi o apoio dos governos espanhol e francês ao plano de autonomia marroquino, uma mudança de posição descrita como uma traição pela Frente Polisário, que considera que Espanha é ainda a potência administrativa do Saara Ocidental.

Donald Trump tem sido um defensor do plano marroquino desde que reconheceu a soberania de Rabat sobre o Saara Ocidental, no final de 2020, pouco antes do fim do seu primeiro mandato.

A decisão histórica em 2020

Com efeito, a primeira Administração Trump optou, em 2020, por uma decisão histórica para marcar aqueles que seriam os seus últimos dias na Casa Branca redesenhando as fronteiras do continente africano.

O fê-lo tornando oficial um "mapa" onde Washington reconhecia a soberania de Marrocos sobre o Saara Ocidental, um território referenciado pela ONU como sendo disputado pelo Governo de Rabat e pela Frente Polisário mas que Angola reconhece como soberano, sendo um dos 16 países com embaixada da República Árabe Saaraui Democrática (RASD) na sua capital.

Donald Trump, que iria deixar a Casa Brabca a 20 de Janeiro de 2021, optou, com tremenda surpresa, porque até aí tinha ignorado totalmente o continente e, quando dele se lembrou, foi para dizer, em 2018, que era constituído por "buracos de merda", por focar a sua atenção na política externa em África, redefinindo as fronteiras de Marrocos ao reconhecer que este país do norte do continente integra soberamente o Saara Ocidental, onde a Frente Polisário luta à 45 anos pela sua independência em nome da RASD, auto-proclamada em 1976.

O mapa reconhecido pelos EUA assume especial relevância porque, apesar de as Nações Unidas manterem a sua posição de considerarem este território como estando em disputa, historicamente determina em definitivo quem ganha e quem perde estas disputas, dando corpo à imagem simbólica de Washington como "polícia do mundo".

O Saara Ocidental é um território ladeado por Marrocos, pela Argélia, pela Mauritânia e pelo Atlântico e os autonomistas consideram Al-Ayun, ou Laiune, como a sua capital e está na lista das Nações Unidas de territórios não autónomos desde a década de 1960, sendo o seu controlo disputado por Marrocos e pelo movimento independentista Frente Polisário que, a 27 de Fevereiro de 1976, proclamou a República Árabe Saaraui com um governo no exílio.

A República Árabe Saaraui é reconhecida internacionalmente por 50 países, incluindo Angola, contando em Luanda com uma das suas 16 embaixadas em todo o mundo, e membro da União Africana desde 1984, o que levou Rabat a abandonar este órgão pan-africano, mas não dispõe de representação oficial na ONU.

A posição de Angola sobre esta matéria é de longa data e pode ser percebida pela presença de uma embaixada em Luanda da RASD.

Porque mudou o azimute de Washington sobre este território?

Os analistas internacionais apontam como razão para a mudança de agulha na política externa norte-americana um acordo feito com o Reino de Marrocos no sentido de trocar o reconhecimento da soberania de Rabat sobre o Saara Ocidental pela abertura de relações diplomáticas entre este país magrebino e Israel, que é uma forma de Washington dar peso e relevância internacional ao seu mais forte aliado no Médio Oriente, o primeiro.ministro israelita Benjamin Netanyahu, sob pressão da justiça de Tel Aviv por suspeita de corrupção e tráfico de influências.

Com o novo mapa de Marrocos reconhecido por Washington, aprovado depois de Donald Trump ter tornado público o reconhecimento dos EUA da soberania marroquina sobre o território, a política externa da União Africana, que não reconhece o direito de Rabat sobre a RASD, ficou coma induzido.

E isso porque é evidente o risco de todos os países do continente poderem provocar faíscas nos EUA se não acertarem agulhas com esta nova posição face ao risco de eventuais sanções económicas, como já sucedeu noutras ocasiões e circunstâncias, sendo disso melhor exemplo os "castigos" norte-americanos ao Irão, Rússia ou à Venezuela.

Todavia, com a iminente, ao tempo, saída de cena de Donald Trump, derrotado pelo democrata Joe Biden nas eleições de 03 de Novembro desse mesmo ano, cuja perspectiva para a política externa de Washington seria distinta da do ainda Presidente republicano, mas em nada mudou esse reconhecimento, este episódio tenderia a ter menos impacto e importância.

Isto, porque, também para os Estados africanos, esta repentina deslocação das atenções de Trump para África, continente que ignorou totalmente nos últimos quatro anos, poderia provocar alguma tensão.

Pouco ou nada mudou, apesar de ter surgido em contramão com a posição generalizada que passa pelo reconhecimento da RASD ou, pelo menos, por uma posição intermédia, apelando ao diálogo como "arma" para resolver o conflito.

A Frente Polisário exige, apesar desta mudança de fluxo do poder sustentado pela força global de Washington, a realização de um referendo para definir o destino do território, colónia espanhola até 1975, enquanto Marrocos propõe a indicação de um Governo autónomo para o Saara Ocidental mas obtendo como contrapartida o reconhecimento da sua soberania.

Entre 1975 e 1991 o território foi palco de um violento conflito armado entre as duas partes, que terminou com um cessar-fogo onde Guerguerat, zpna fronteiriça, surge como área desmilitarizada.

Agora, se Donald Trump levar avante a ideia da auto-estrada entre Marrocos e o Saara Ocidental, ainda por cima com o seu nome escrito no asfalto, qualquer atentado a esta infra-estrutura poderá ser visto como um golpe contra a Casa Branca... e também por ali se mantém a memória do que sucedeu a Nicolas Maduro na Venezuela... ou os recentes ataques aéreos na Nigéria alegadamente contra os jihadistas do Boko Haram.