Até à data de hoje, segunda-feira, 27 de Julho, o vírus que provoca a mais letal das febres hemorrágicas conhecidas já fez 1.405 mortos em cerca de 3.200 caos conformados laboratorialmente.
Porém, estes números estão longe da realidade porque, como as organizações internacionais, incluindo a Organização Mundial de Saúde (OMS) notam publicamente, boa parte dos pacientes e das mortes não chegam a ter validação oficial por acontecerem fora das estruturas sanitárias criadas pelas autoridades para combater a infecção.
Como as os números oficiais confirmam, e já se esperava, esta variante do Ébola, que tem como origem o vírus Bundibugyo, para o qual não existe nem vacina nem tratamento, tem uma taxa de mortalidade elevada, superior a 40%.
Apesar destes factores inebriadores da eficácia do combate, como a ausência de tratamento ou vacina, a elevada letalidade e a capacidade de propagação, aliam-se ainda contra a ciência médica aplicada na contenção desta 17ª epidemia de Ébola o factor "tradição" que levas a que muitos pacientes optem por curandeiros e feiticeiros para a cura.
A OMS já considerou esta epidemia como das mais sérias e perigosas desde que foi descoberto o vírus em humanos, na década de 1970, no oeste da RDC, na província do Equador, com potencial de evoluir rapidamente para números semelhantes à epidemia de 2013/15 na África Ocidental.
Nessa epidemia morreram mais de 11 mil pessoas e provocou uma severa crise económica e social com milhões de deslocados, além da ruptura dos serviços de saúde em países como a Serra Leoa, Conacri ou Libéria...
Histórico
Desde que foi detectado o primeiro caso, na periferia de Bunia, a capital da província de Ituri, no leste da RDC, o vírus, desta que é a mais letal das febres hemorrágicas conhecidas, já chegou ao Uganda, com dezenas de casos, e as províncias dos Kivu Norte e Sul.
Além disso, o que justifica a chamada de atenção da OMS para o facto de nenhuma das 16 epidemias que antecederam a actual ter mostrado uma capacidade como esta de se expandir, os restantes países vizinhos da RDC estão sob forte tensão devido à ameaça de as suas fronteiras sanitárias serem trespassadas.
Países esses, onde está incluída Angola, já montaram esquemas de controlo sanitário nas suas fronteiras, e, por exemplo, nas angolanas, incluindo no Aeroporto de Luanda, AIAAN, foi igualmente montado um sistema de medição de temperatura em tudo semelhante ao que existiu durante a pandemia da Covid-19.
Entretanto, países como os EUA e o Canadá, e alguns europeus, já criaram regras restritivas de acesso a pessoas que tenham estado na RDC nos últimos 21 dias, duração da incubação da infecção, com centros de quarentena no exterior para os seus cidadãos nacionais, como fizeram os Estados Unidos no Quénia para quem tenha estado no Congo.
É que a alarmante velocidade de propagação deste vírus, que resulta muito do facto de esta estirpe, Bundibugyo, ao contrária das restantes, mais comuns e conhecidas da ciência, não ter ainda nem vacina nem tratamento conhecidos, exige, segundo as organizações internacionais, um controlo mais férreo da sua evolução.
Na memória colectiva está ainda o que sucedei na África Ocidental entre 2013 e 2015, quando morreram mais de 11 mil pessoas e milhares ficaram infectadas, provocando a deslocação de centenas de milhares de pessoas das suas aldeias, com consequências
Além da ausência de uma vacina, ou de tratamento eficaz, como sucede com as restantes estirpes deste vírus mortal em 40% dos casos, está a contribuir para a dificuldade de o controlar a crendice popular que afasta os pacientes dos centros médicos criados para lidar com a doença.
Uma das dificuldades maiores das equipas médicas é o continuado problema da pressão dos denominados médicos tradicionais e feiticeiros para que os doentes evitem os hospitais oficiais e procurem soluções nas fórmulas tradicionais, o que está não apenas a aumentar a letalidade da doença como a contribuir grandemente para o seu alastramento geográfico.
É que parte destas crenças implicam que os pacientes, com sintomas de doença, se desloquem para as suas terras de origem em busca de tratamento tradicional, contribuindo para que o vírus se espalhe de forma dramática, como reconhece a OMS.
Por isso, com apoio internacional, as autoridades congolesas, que estão a realocar fundos públicos como em nenhuma outra ocasião, desenvolveram campanha de sensibilização para evitar episódios, que tendem a repetir-se, de assalto de grupos aos centros de confinamento para levarem familiares e amigos a serem tratados por médicos tradicionais e curandeiros.
Porém, estes números não fazem jus à realidade, visto que muitas das vítimas falecem longe dos cuidados oficiais, o que leva a outro problema grave, que é o facto de a tradição "obrigar" familiares e amigos a tocar no corpo para as últimas despedidas dos falecidos, abreviando a expansão do vírus que tem nos fluídos corporais a sua forma de infectar novas vítimas.
