Bem organizados, melhor equipados, tudo coordenado na perfeição, foi o que permitiu à coligação de grupos rebeldes, incluindo tuaregues e alas jihadistas da al Qaeda e do ISIS, na África Ocidental e Oriental, retirar largas áreas do país do controlo dos militares aliados de Moscovo (ver links em baixo).

E este avanço foi de tal modo bem conseguido que aos militares das forças regulares malianas e os mercenários do antigo Grupo Wagner, actualmente designado Arica Corps, sendo uma organização paramilitar semi-oficial inserida nas forças russas, só tiveram tempo de fugir.

Embora a maior parte da guarnição militar maliana e russa tenha conseguido sair de Kidal, segundo algumas fontes depois de negociações, muitos foram feitos prisioneiros nesta localidade já no sudeste do país mas ainda a mais de mil kms da capital, Bamako.

Nesta reconquista dos jihadistas, que põe em risco uma das grandes vitórias russas no Sahel ao expulsar a França da sua parte mais emblemática da "FranceAfrique", foi morto o ministro da Defesa do Mali, Sadio Camara, que era uma peça estrutural do poder militar no país.

Poder militar que tem hoje como chefe máximo o Presidente o coronel Assimi Goïta, mas no qual Camara era um elemento fulcral na ligação aos russos, o que fragiliza a estrutura ainda remanescente em Bamako e dificulta a recuperação do território perdido agora, em pouco mais de 10 dias.

No "core" destes ataques, que alguns analistas próximos de Moscovo não duvidam ter sido orquestrada, financiada e apoiada logisticamente pela França, estão os igualmente mercenários ao serviço da al Qaeda, integrados na Jama"at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM) e o grupo separatista Tuaregue Azawad Liberation Front (FLA).

Mas o grande golpe no poder militar, que ali chegou em 2020 através de um golpe de Estado, e depois reconsolidado em 2021, além da perda de territórios de difícil recuperação sem um forte investimento russo, foi a morte do ministro da Defesa, Sadio Camara.

Isso porque se trata de um dos principais líderes da junta militar no poder desde 2020 e foi morto no sábado durante um ataque de rebeldes separatistas em Kati, anunciaram fontes oficiais.

"No ataque em Kati, o ministro Camara foi morto, assim como a sua segunda mulher", disse um membro da família do militar à agência de notícias francesa AFP, citada pela Lusa.

A notícia da morte de Camara, corroborada por uma fonte governamental e por diversas fontes militares, foi divulgada por vários meios de comunicação, incluindo a rádio francesa RFI, a televisão do Qatar Al Jazeera ou a publicação Africa Report.

Segundo fontes familiares e militares citadas pela RFI, Camara morreu após um ataque com um camião armadilhado à sua residência em Kati, nos arredores de Bamako.

A mesma rádio noticiou que o líder da junta militar maliana, Assimi Goita, foi retirado de Kati para um local seguro, enquanto um outro general ficou ferido e recebeu tratamento numa clínica da capital.

Camara era considerado uma figura central no regime militar liderado por Goita e desempenhou um papel determinante na aproximação estratégica com a Rússia, bem como na reestruturação das alianças de segurança na região do Sahel.

A morte de Camara ocorre num contexto de forte recrudescimento da violência e de ofensivas coordenadas lançadas no sábado por grupos armados em várias regiões do território maliano.

Os combates foram retomados no Mali entre grupos rebeldes e o exército, apoiado por mercenários russos, em Kidal (norte) e Kati.

Os rebeldes tuaregues anunciaram que alcançaram um acordo que permite aos soldados russos do Africa Corps retirarem-se de Kidal, cidade que os separatistas afirmam agora controlar totalmente.

A Frente de Libertação do Azawad (FLA), que reivindica o território do norte do Mali, já tinha assegurado no sábado que assumira o controlo de Kidal após combates intensos.

O grupo lançou a ofensiva em coordenação com os jihadistas do Grupo de Apoio ao Islão e aos Muçulmanos (JNIM, aliado da Al-Qaida), segundo a AFP.

Embora o Mali enfrente conflitos e violência extremista há mais de uma década, a ofensiva simultânea entre o JNIM e a FLA não tem precedentes desde que a junta militar assumiu o poder, em 2020.

Desde o amanhecer de sábado, os confrontos opuseram o exército aos atacantes na periferia de Bamako e em várias cidades estratégicas, como Gao e Sévaré.

O Governo maliano disse no sábado à noite que os combates tinham causado 16 feridos, entre civis e militares, e "danos materiais limitados", mas que a situação estava "totalmente sob controlo em todas as localidades".

A Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) condenou energicamente os "ataques terroristas" no Mali.

"Estes atos hediondos demonstram mais uma vez a natureza bárbara dos autores, que continuam a ameaçar a paz, a segurança e a estabilidade em toda a sub-região da África Ocidental", afirmou a organização com sede em Abuja, na Nigéria.

A CEDEAO apelou à união e mobilização de todos os Estados, forças de segurança, mecanismos regionais e populações da região num "esforço coordenado para lutar" contra o flagelo do terrorismo.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, também condenou no sábado o "extremismo violento" no Mali e apelou a "um apoio internacional coordenado para enfrentar a ameaça evolutiva do extremismo violento e do terrorismo no Sahel".