Horas depois desta nova linha vermelha traçada por Vladimir Putin no mapa dos riscos de alastramento do conflito do leste europeu para ocidente, os pés do ex-primeiro-ministro britânico, Boris Jonhson, tremeram com uma explosão.

Quando estava a sair da Ucrânia pela fronteira com a Polónia, com outras figuras que com ele partilham um ódio visceral e público a Putin, como David Petraeus, antigo director da CIA, no final do dia de Domingo, Johnson estava numa estação de comboio próxima do local onde um ataque de um drone russo - ainda não reivindicado - destruiu uma locomotiva a poucos pouco mais de um km da fronteira.

Este ataque que ainda fez tremer o chão debaixo dos pés do antigo primeiro-ministro do Reino Unido tem tudo para ser visto como um aviso dos russos a Jonhson e a Petraeus, que tinham estado há algumas horas numa conferência sobre segurança em Kiev.

E isso demonstra que Moscovo ainda não esqueceu que foi o britânico que em Março de 2022, na qualidade de chefe do Governo de Londres, fez descarrilar as negociações que estavam quase a acabar com o conflito poucos dias após a invasão russa, a 24 de Fevereiro.

Com efeito, a liderança russa recorda com insistência que a paz com os ucranianos só não aconteceu porque Boris Jonhson irrompeu por Kiev adentro exigindo ao Presidente Volodymyr Zelensky que abandonasse as negociações com os russos quando já havia mesmo um draft com os princípios gerais da paz entre Kiev e Moscovo, negociado em Istambul.

Nessa altura, em Março em Abril, Boris Johnson garantiu a Zelensky que se mantivesse a guerra com os russos, teria todo o apoio em armas e dinheiro "pelo tempo que fosse preciso" até "derrotar a Rússia no campo de batalha".

As mesmas palavras que depois foram repetidas pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e pelo Presidente dos EUA, na altura Joe Biden, situação que se manteve até à chegada de Donald Trump à Casa Branca, em Janeiro de 2025, quando os EUA iniciaram um "fade out" ruidoso nesse apoio ilimitado a Kiev.

Numa altura em que a Ucrânia repete exaustivamente que precisa de mísseis interceptores Patriot para poder repelir os mais intensos ataques russos sobre Kiev desde o início da guerra, que já vai para cinco anos, e quando se aproxima a época mais crítica do ano, que é o rigoroso inverno naquelas latitudes, são cada vez mais os analistas que admitem que a Ucrânia nunca esteve tão perto do colapso militar e económico.

E este ataque nas imediações do local onde estava Boris Johnson, que é, de longe, o maior defenso do apoio ilimitado a Kiev, mantendo ainda hoje, quando já não mandam em Londres, essa mesma postura, está a ser visto como um aviso russo para a tentação crescente na Europa Ocidental - a Alemanha é o exemplo acabado disso - para aumentar a pressão militar sobre Moscovo.

E na Polónia sucede o mesmo, com, por exemplo, Donald Tusk, o primeiro-ministro polaco, a reagir ao ataque com o drone russo próximo de Johnson e Petraeus, anunciando o início de preparativos crescentes para "o risco de a guerra entre pela fronteira polaca" adentro, na suas palavras precisas.

Tanto Tusk como o chanceler alemão Friedrich Merz estão no grupo dos mais aguerridos falcões de guerra anti-russos na Europa Ocidental, e estão ainda entre aqueles que já admitiram em público que uma guerra com a Rússia se encaminha para a condição de inevitável em alguns anos.

O que é conforme as declarações dos principais comandantes militares do Reino Unido, da França, da Alemanha, Itália e Polónia, que ao longo de 2025, parecendo falar em uníssono, admitiram essa guerra poder acontecer já em 2027, mais tardar 2030.

O que não pode ser desenquadrado das palavras de Putin em Nova Deli, na Cimeira dos BRICS, onde este assumiu que os países que enviarem tropa para a Ucrânia no decurso deste conflito, "passam à condição de alvos legítimos" da Federação Russa.

Nestas palavras, o chefe do Kremlin dirige-se especificamente às forças dos países europeus no terreno, mesmo em caso de Kiev e Moscovo poderem chegar a um entendimento sobre um cessar-fogo.

Condição que é essencial, já avisou Zelensky e Donald Trump, para que tenha lugar uma reunião tripartida EUA/Rússia/Ucrânia, a que os russos já se referiram como possível, para encontrar condição para acabar com a guerra.

Mas Putin mantém qualquer cessar-fogo como inegociável, alegando que os países da NATO aproveitariam essa pausa nas hostilidades apenas para reforçar o apoio militar aos ucranianos, até que um acordo de paz definitivo seja assinado.

Reagindo ao ataque com o drone russo na proximidade do antigo primeiro-ministro britânico e da fronteira com a Polónia, Volodymyr Zelensky disse que é "precisamente para impedir estas situações que os ucranianos lutam e morrem todos os dias" e é também por isso que pedem que os EUA e os aliados europeus não abrandem no apoio militar e financeiro a Kiev.