A ameaça russa tem servido aos líderes europeus dos países da NATO, e da União Europeia, para justificar o desvio de fundos destinados aos sectores sociais, como Educação, Saúde e Segurança Social, para a Defesa.

Esse trajecto tem sido feito sem protestos de grande dimensão popular na Europa Ocidental, apesar da perda notória de qualidade de vida, postos de trabalho e a redução dramática da qualidade das escolas, hospitais... devido ao exemplo da Ucrânia, país invadido pela Rússia em 2022.

O mote tem sido, sem grandes desvios retóricos, a ideia de que se Moscovo invadiu a Ucrânia, é porque se prepara para avançar com as suas tropas sobre os países da NATO a Oeste.

Mas a realidade no terreno mostra que essa ideia, como têm apontado múltiplos especialistas militares com créditos firmados, como major-general Agostinho Costa ou o coronel Jacques Baud, antigo elemento da intelligentsia suíça e da NATO, é errada.

A principal alegação destes especialistas militares para colocar em causa o pânico verbal, mesmo que seja apenas estratégia para convencimento popular da opção militarista da Europa Ocidental, é que a Rússia em quase cinco anos conquistou 20% da Ucrânia, o que exige questionar a legitimidade desse medo que está a ser inculcado nas sociedades ocidentais.

Além disso, os líderes russos, incluindo o Presidente Vladimir Putin têm repetido que Moscovo não tem qualquer intenção de invadir outros países europeus e que a invasão da Ucrânia é fruto de um processo histórico sem qualquer ligação ao resto do continente europeu.

Especialmente após o golpe de Estado de 2014, quando o Presidente Viktor Yanukovich, pró-russo, foi deposto num movimento organizado e financiado pelos EUA e pela União Europeia, como diversos documentários já demonstraram, e a sublevação das regiões russófonas e russófilas do leste ucraniano contra a alteração de Governo em Kiev.

Face a este cenário, que tem como pano de fundo a evidente incapacidade russa, mesmo sendo uma superpotência militar, de levar a melhor sobre os ucranianos, embora estes contem com apoio ilimitado da NATO desde o início, o Presidente russo aproveitou agora para criticar os dirigentes europeus.

E fê-lo em declarações a jornalistas russos claramente para aproveitar o balanço do reatamento das relações bilaterais com os EUA de Donald Trump (ver links em baixo), que olha para Moscovo com muito menos "ardor" que o antecessor Joe Biden, apelidando a opção militarista dos europeus de "esquizofrenia política".

E considerou, novamente, ridícula a ideia hoje hegemónica nos media e nas chancelarias ocidentais de que a Rússia é uma ameaça, sublinhando que nem o povo russo nem os povos europeus procuram ou querem o surgimento de um conflito0 militar entre si, recusando de forma liminar a ideia de que o seu país se está a preparar para uma guerra com a NATO.

Citado pelos media russos, Putin nota que "esses líderes estão agora constantemente a falar da ameaça russa e a dizer publicamente que se estão a preparar para uma guerra com a Rússia, o que só pode ser visto como `esquizofrenia política'. Espero que isto passe porque é apenas ridículo".

Por fim, nesta entrevista a um jornalista da televisão pública russa, Rossiya 1, o chefe do Kremlin disse estar confiante que "os líderes europeus percebam que é melhor para a Europa viver em harmonia com a Rússia, porque esse caminho é o que melhor serve os povos de ambos os lados".

"Se se olhar hoje para o processo político na Europa, é evidente que os povos europeus não tê qualquer desejo de começar uma guerra com a Rússia", disse Putin, deixando claro que se referia às repetidas sondagens que em países como a França ou a Alemanha antecipam vitórias eleitorais claras a partidos que se opõem à guerra.

Rercorde-se que estas declarações surgem quando Moscovo e Kiev se preparam, por intermédio de Donald Trump, reatar as negociações de paz em formato trilateral (ver links em baixo) provavelmente nos Emiratos Árabes Unidos, em Novembro,

Face à desagregação do alinhamento EUA-União Europeia, que permitiu aos ucranianos contar, até à chagada de Trump à Casa Branca, em Janeiro de 2025, com o apoio ilimitado em armas e dinheiro de Washington, e com os europeus claramente a "perderem rede" por incapacidade óbvia de dar à Ucrânia o que o país precisa para alimentar a sua máquina de guerra, em Moscovo começa a surgir a ideia de que algo está a mudar.

Provavelmente uma mudança forçada pela nova teia de relações que está a ser tecida entre Moscovo e Washington, de onde se destacam os negócios energéticos, as repetidas conversas telefónicas entre Putin e Trump, mas que pode significar o surgimento de um novo "mapa" geoestratégico.

Isso mesmo transparece das palavras de Kirill Dmitriev, o conselheiro económico de Putin, que recentemente veio defender que a Europa Ocidental vai, em breve, "inevitavelmente mudar de curso e retomar as relações com Moscovo", notando que é também esse o desejo do Kremlin, falando de uma "aproximação pragmática" e livre de emoções sem sentido.

Dmitriev defende mesmo que os países europeus vão, como sempre fizeram, seguir os passos avisados dos Estados Unidos, reatando os laços económicos do a Federação Russa, pela razão simples de que é esse o caminho que melhor serve o interesses de ambos os povos.

E lançou uma previsão: "Os políticos europeus que continuarem a optar por culpar a Rússia pelos seus problemas domésticos ao invés de se dedicarem á sua resolução de forma pragmática vão perder o poder".