As viaturas movem-se, compactas, pois já todo o espaço foi tomado e novas faixas de rodagem foram inventadas onde era possível. As pessoas, indiferentes pela rotina, procuram encarar a provação da forma mais estóica possível, distraindo-se como podem, revisitando os pensamentos que possam trazer-lhe algum conforto, ouvindo música, as notícias ou um podcast que os possa cultivar, ou simplesmente aproveitando o tempo para trocar umas palavras com o companheiro de viagem, quiçá o cônjuge, com quem não há muitas oportunidades tão favoráveis a uma troca de impressões sobre as preocupações comuns.
Um ruído desagradável começa a ouvir-se, o que desperta os pacatos cidadãos que cumprem esse ritual diário e os leva a olhar para os retrovisores para descobrirem o habitual personagem que aparece invariavelmente àquela hora, com a sua viatura barulhenta e cheia de luzinhas onde o vermelho e azul predominam, qual carro de luxo de feira, malcriado, como menino birrento, e que vai impondo o seu volume às viaturas que o precedem, coagindo-as a afastarem-se para lhe cederem o lugar, como se tivesse o direito de atropelar os direitos de todos os concidadãos para chegar mais depressa ao seu destino.
A impertinência do indivíduo que julga natural impôr a sua presença desagradável a todos, sendo, pela ocorrência repetida, pouco provável que seja alguém em missão realmente urgente, imprevista e inadiável, não é mais do que um acto de prepotência de quem, por se deslocar numa viatura com luzinhas e uma estridente sirene, se acha acima das normas da boa-conduta cidadã, e, certamente, também acima da Lei.
Hoje, com os vidros rigorosamente fumados, nem sequer se pode procurar identificar quem assim procede, e, amiúde, me pergunto se não será apenas um malfeitor vulgar que de tal se aproveita para atropelar todas as regras. É claro que também poderá ser um malfeitor sofisticado, investido, ou auto-investido, de direitos que julga não se aplicarem aos outros que, como ele, transitam às horas de ponta nas estradas da nossa urbe. Infelizmente é vulgar vermos essa atitude em quem ocupa cargos de responsabilidade nos aparelhos dos mais diversos órgãos do Estado ou do Governo.
O problema é que a prepotência começa em actos aparentemente sem grandes consequências como esse, ou com a música alta fora de horas em festas levadas a cabo em zonas residenciais, ou na ocupação de espaços públicos para a celebração de actividades particulares que vão de aniversários a óbitos, ou no atraso sistemático a cerimónias onde têm um papel importante e onde muitas pessoas têm que aguardar pacientemente por eles, ou no seu relacionamento com os prestadores de serviços que passam a ser considerados seus servos, não havendo a preocupação de se saldarem os compromissos assumidos nos prazos estabelecidos, passa pelo nepotismo na procura de vantagens para os seus nos mais diversos âmbitos, e acaba em ordens que estão na origem de actos de extrema violência, motivados por uma análise deficiente, porque não se teve a preocupação de se ter em conta a sensibilidade de todos os envolvidos, que podem ter consequências que perduram no imaginário popular, e que fragilizam o sentimento tão necessário de união da Nação, como os recentemente ocorridos no Cazombo.
A humildade deveria ser directamente proporcional ao nível de responsabilidade. Particularmente nos chamados servidores públicos.
