Esta proximidade de datas não é apenas uma coincidência do calendário: é uma convergência de valores. A paz que conquistámos exige ser cultivada diariamente, e o desporto apresenta-se como um dos seus mais poderosos veículos, promovendo inclusão, disciplina, respeito e espírito de equipa.

Ao longo dos 50 anos da nossa independência, fomos aprendendo, muitas vezes com sacrifício, que o desporto transcende a mera dimensão competitiva. Ele afirma-se como uma ferramenta eficaz de promoção da igualdade, da justiça social e da coesão nacional, capaz de romper barreiras, aproximar comunidades e desafiar estereótipos profundamente enraizados.

Na generalidade dos países, a prática desportiva é reconhecida como um direito fundamental, com dignidade constitucional, e como um pilar importante para o desenvolvimento sustentável. Angola não deve ser excepção. Investir no desporto é investir na saúde pública, na educação cívica e na construção de uma sociedade mais equilibrada e solidária.

Abril é também o mês em que celebramos o Dia da Juventude, efeméride que, no contexto angolano, assume uma relevância ainda maior. Com cerca de 65% da população com menos de 25 anos, a juventude representa simultaneamente o nosso maior activo e o nosso maior desafio.

Temos diante de nós um vasto reservatório de talento jovem, cheio de energia, criatividade e vontade de vencer. Contudo, este potencial só se converterá em verdadeiro capital social e económico se forem criadas condições concretas para o seu desenvolvimento. E é aqui que se impõem desafios estruturais que não podem continuar a ser adiados.

A educação dos jovens deve estar orientada não apenas para a transmissão de conhecimentos, mas para a sua efectiva empregabilidade. É imperioso alinhar os sistemas de ensino com as necessidades reais do mercado de trabalho, promovendo competências técnicas, espírito crítico e capacidade de inovação.

Paralelamente, o apoio à micro e pequena actividade empresarial deve ser encarado como uma prioridade estratégica. Muitos jovens angolanos encontram no empreendedorismo a única via de inserção económica. No entanto, sem acesso a financiamento, formação adequada e acompanhamento técnico, grande parte destes pequenos negócios não consegue sobreviver nem crescer de forma sustentável.

Outro desafio incontornável é o combate à gravidez precoce, que continua a comprometer o percurso educativo e o futuro de muitas jovens. Este fenómeno exige uma abordagem integrada, que combine educação, sensibilização, apoio social e responsabilização colectiva.

É neste contexto que o desporto assume uma importância ainda mais estratégica. A experiência que vivenciamos em comunidades como o Cazenga demonstra que a prática desportiva pode funcionar como um poderoso instrumento de inclusão social, orientação de valores e construção de cidadania.

O vínculo entre o desporto e a promoção de uma cultura de paz é amplamente reconhecido a nível global. O Papa Leão XIV tem igualmente destacado o papel do desporto na promoção da convivência sã, do respeito mútuo e de uma verdadeira cultura do encontro.

Num país jovem como Angola, investir na juventude através do desporto, da educação orientada para a empregabilidade e do apoio ao empreendedorismo não é apenas uma opção de política pública - é uma necessidade estratégica. Porque cada jovem integrado e cada oportunidade criada representam um passo firme na construção de uma Angola mais justa, mais próspera e verdadeiramente em paz.

Desporto, juventude e inclusão

*Jurista e Presidente do Clube Escola Desportiva Formigas do Cazenga