É neste contexto que se insere a presente reflexão. Não com a pretensão de revisitar conceitos amplamente conhecidos, mas com o propósito de contribuir para uma questão prática: como podem as Instituições Financeiras Públicas operar, de forma coordenada e orientada a resultados, para acelerar a diversificação da economia angolana?
Mais do que discutir a necessidade da diversificação - consensual - importa discutir os seus mecanismos de financiamento, a arquitectura institucional que a sustenta e a intencionalidade estratégica que a deve orientar.
O consenso teórico e as suas implicações práticas
No mundo dos economistas, ao qual pertenço já há algum tempo, Albert Hirschman é reconhecido como um dos principais pensadores da diversificação económica. A partir da sua teoria das ligações produtivas, defendia que os países em desenvolvimento não deveriam tentar fazer tudo ao mesmo tempo, mas antes concentrar-se em sectores com capacidade de gerar encadeamentos para montante e jusante, estimulando, a partir deles, o surgimento e a expansão de outras actividades económicas.
Outros autores, como Raúl Prebisch, a partir da tradição estruturalista latino-americana, sublinharam a necessidade de diversificação da pauta exportadora por via da industrialização, como forma de superar a dependência de commodities e a deterioração estrutural dos termos de troca. Já Paul Krugman trouxe para o debate a dimensão territorial, demonstrando que a diversificação económica resulta também da especialização regional ancorada nas vantagens competitivas de cada espaço económico.
Mais recentemente, Philippe Aghion, Céline Antonin e Simon Bunel - retomando Schumpeter - recolocaram a inovação no centro da transformação estrutural. Na sua leitura, o crescimento e a diversificação não resultam apenas do aumento da produção, mas de um processo contínuo de substituição tecnológica, empresarial e produtiva - a chamada "destruição criadora"..
O denominador comum destas abordagens é claro: Diversificar não é dispersar, é concentrar recursos em sectores com capacidade de gerar efeitos multiplicadores. Isto é, reduzir dependências, alargar a base produtiva, criar resiliência macroeconómica e abrir espaço à inovação.
Angola e o imperativo estrutural da diversificação
A necessidade de diversificar a economia angolana não constitui novidade analítica nem política. Desde os primeiros anos da Independência que esta aspiração foi afirmada ao mais alto nível, como condição de soberania económica e estabilidade social.
Angola continua a deter uma economia altamente dependente do sector petrolífero, com mais de 90% das exportações; apesar de decrescerem, as receitas fiscais deste sector ainda ombreiam com as não-petrolíferas, de acordo com o OGE 2026, evidenciando que o processo de transição estrutural está em curso, mas longe de concluído.
Em economias ricas em recursos naturais, a elevada procura externa tende a dinamizar excessivamente o sector extractivo, atraindo investimento, divisas e factores produtivos. O influxo de moeda estrangeira gera pressões de apreciação cambial, reduzindo a competitividade dos sectores transaccionáveis, particularmente indústria e agricultura.
Este fenómeno - conhecido como Doença Holandesa - foi descrito na década de 70 após a descoberta do campo de gás de Groningen, na Holanda, e permanece uma referência incontornável para economias petrolíferas.
Superar este padrão não depende apenas de políticas industriais. Depende, sobretudo, da capacidade de transformar renda extractiva em capacidade produtiva diversificada.
* Economista