Quando um míssil russo atinge um porto ucraniano no Mar Negro, as consequências fazem-se sentir muito para além das fronteiras da Ucrânia - através das rotas comerciais internacionais, do abastecimento alimentar e dos mercados mundiais, inclusive em África.
No dia 1 de Setembro de 2026, ao intervir na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque, a Vice-Ministra dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia, Mariana Betsa, destacou as consequências humanitárias da guerra e o seu impacto na segurança alimentar, marítima e nuclear a nível global.
Nesse mesmo dia, ataques russos com mísseis e drones causaram a morte de 12 pessoas em Kyiv e na região de Kyiv, entre as quais um cidadão da Índia. Isto confirma, mais uma vez, que as consequências desta guerra ultrapassam largamente as fronteiras da Ucrânia.
1,6 milhões de crianças ucranianas sob ocupação
Cerca de 1,6 milhões de crianças encontram-se em territórios da Ucrânia ocupados ou controlados pela Rússia. A Ucrânia documentou mais de 20 mil casos de deportação ilegal ou transferência forçada de crianças para a Rússia. Até ao início de Setembro, foi possível trazer de volta 2 495 crianças.
Nos territórios ocupados, os programas de ensino ucranianos são substituídos por programas russos, enquanto o ensino da língua ucraniana e da história da Ucrânia é restringido. As crianças são envolvidas nos chamados programas «militar-patrióticos», destinados a alterar a sua identidade nacional e à sua militarização.
A Comissão Internacional Independente de Inquérito das Nações Unidas sobre a Ucrânia chegou a conclusões quanto à gravidade de tais actos, incluindo a deportação e a transferência forçada de crianças ucranianas. O Tribunal Penal Internacional emitiu mandados de detenção contra o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, e Maria Lvova-Belova, em relação com a transferência ilegal de crianças.
O Mar Negro e a segurança alimentar de África
Desde o início da invasão em grande escala, a Rússia tem atacado sistematicamente as infra-estruturas agrícolas, portuárias e logísticas da Ucrânia. Mais de 1 050 instalações de infra-estruturas portuárias foram danificadas e mais de 240 navios civis foram alvo de ataques. Só durante o Verão de 2026, mais de 50 navios civis foram alvo de ataques, que causaram a morte de quase 30 pessoas.
Cerca de 90% das exportações ucranianas de cereais e oleaginosas são efectuadas através dos portos do Mar Negro. As rotas terrestres e fluviais alternativas não têm capacidade para assegurar volumes de transporte comparáveis.
Por conseguinte, cada ataque contra um porto ucraniano, um terminal de cereais ou um navio mercante cria riscos adicionais para as cadeias internacionais de abastecimento, para os preços dos alimentos e para a estabilidade dos mercados mundiais.
Para Angola, tal como para muitos outros Estados africanos, a estabilidade dos fluxos alimentares internacionais e das rotas comerciais marítimas tem uma importância económica e social directa.
Mais de 2 milhões de toneladas de cereais provenientes dos territórios ocupados
Paralelamente aos ataques contra as infra-estruturas alimentares da Ucrânia, a Rússia retira sistematicamente produtos agrícolas dos territórios ucranianos ocupados.
Só em 2025, mais de 2 milhões de toneladas de cereais ucranianos, com um valor total de cerca de 400 milhões de dólares dos Estados Unidos, foram ilegalmente retiradas desses territórios. Posteriormente, estes produtos chegam aos mercados internacionais, inclusive através da chamada «frota-sombra de cereais», cujos mecanismos permitem ocultar a verdadeira origem das cargas.
A Ucrânia apela aos Estados e às organizações internacionais para que reforcem o controlo sobre tais operações e impeçam a legalização de produtos agrícolas ilegalmente retirados dos territórios ucranianos ocupados. A segurança nuclear não conhece fronteiras
A Central Nuclear de Zaporizhzhia - a maior central nuclear da Europa - encontra-se há mais de quatro anos sob controlo russo. Os seus seis reactores encontram-se parados, embora os sistemas de segurança necessitem de manutenção permanente e de um fornecimento externo de energia estável.
Segundo informações da parte ucraniana, a Rússia utiliza a zona da central e a cidade ocupada de Enerhodar para instalar elementos de infra-estrutura militar. A Ucrânia exige a retirada dos militares e do armamento russos, bem como a garantia de acesso pleno da Agência Internacional de Energia Atómica às instalações relacionadas com a segurança nuclear.
A paz não pode significar a legalização da ocupação
A Ucrânia defende de forma consistente um cessar-fogo total, imediato e incondicional como passo para uma paz justa e duradoura. Ao mesmo tempo, o fim das hostilidades não pode significar a legalização dos resultados da agressão.
A guerra da Rússia contra a Ucrânia dura desde 2014, enquanto a invasão em grande escala teve início em 24 de Fevereiro de 2022. Um princípio fundamental do direito internacional estabelece que as fronteiras dos Estados soberanos não podem ser alteradas pela força e que a ocupação militar não pode constituir uma forma legal de aquisição de territórios.
Se a comunidade internacional aceitar o contrário, isso criará um precedente perigoso para todos os Estados. É por esta razão que a Ucrânia apela a que não sejam reconhecidos os resultados das eleições russas realizadas nos territórios temporariamente ocupados e a que seja apoiado o trabalho do Tribunal Especial para o Crime de Agressão contra a Ucrânia.
Por que razão isto é importante para África
Para Angola e para os outros Estados africanos, a guerra contra a Ucrânia não deve ser vista como um conflito europeu distante.
A segurança do Mar Negro afecta os fluxos alimentares internacionais. Os ataques contra navios mercantes põem em risco a liberdade de navegação. A situação em torno da Central Nuclear de Zaporizhzhia diz respeito à segurança nuclear global. E o princípio do respeito pela soberania e pela integridade territorial é igualmente importante para todos os Estados-Membros das Nações Unidas.
Hoje, a Ucrânia não defende apenas o seu próprio território. Defendemos o princípio segundo o qual um Estado mais poderoso não pode, pela força, privar outro Estado do seu território, dos seus cidadãos ou do seu direito a uma existência independente.
A paz que a Ucrânia procura não é simplesmente a ausência de tiros. É uma paz baseada na Carta das Nações Unidas, no direito internacional, no respeito pela soberania e pela integridade territorial e na responsabilização pela agressão.n
Só uma paz assim poderá ser verdadeiramente duradoura - para a Ucrânia, para África e para todo o mundo.
Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da Ucrânia na República de Angola
