Um telefonema rápido ao Matadi Daniel, um renomado nefrologista da nossa praça, que conheci no Porto, por via do Lira, ele confirmou-me o pior cenário.
Sabia-o doente há uns anos, da degradação paulatina do seu estado de saúde, mas também da sua vontade férrea em não se deixar abater ou vergar, mesmo conhecendo as limitações e fragilidades humanas.
Confesso que estava longe de imaginar que o Lira, um médico de créditos firmados, professor, intelectual e defensor de causas sociais, que conheci há quatro décadas no Huambo, com quem travei várias tertúlias, perdesse tão cedo a vida, a beirar os 68 anos. Talvez, porque ele se habituara a lidar com a dor alheia, a salvar vidas ou a dar esperança aos seus mais próximos, quando confrontados com determinadas doenças.
O Lira, como bem o definiu o Lima Buta, seu colega e amigo de longa data, foi "um homem de pontes", cuja "sensibilidade gregária fez dele um criador inato de pontes humanas (a nossa própria relação, recorda, é resultado deste traço arquitectónico do mestre Lira".
"Ele tinha uma enorme capacidade de se relacionar com as pessoas de diferentes estratos sociais", recorda o médico especializado em Psiquiatria num dos hospitais de Lisboa.
Nas redes sociais, a notícia causou comoção e as reacções não se fizeram esperar. O jornalista Reginaldo Silva escreveu na sua página do Facebook que o Lira fazia parte da sua geração, recordando que eles eram os jovens que, nos anos de 1974/5, recebeu os Movimentos de Libertação Nacional (MLN), "com entusiasmo revolucionário", mas que, pouco tempo depois, acabaram vítimas da intolerância política.
"Por razões diferentes, ambos também fizemos parte da primeira geração de presos políticos que a República Popular de Angola "aconchegou", sem culpa formada, nem direito a julgamento, nas suas superlotadas cadeias por vários anos que se prolongaram, até ao final de 1980 ".
Por sua vez, o médico Matadi Daniel escreveu na mesma plataforma digital que, na infância, Lira tinha sido um exímio jogador de futebol, que ganhou o nome de Pengula-pengula" devido à sua desenvoltura em campo.
Segundo ele, o Lira, ainda estudante, foi encarcerado pela então sinistra polícia política, a DISA, por ter pertencido à OCA, (Organização Comunista de Angola), de tendência maoista.
Feito médico, sublinhou Daniel Matadi, ele fez parte do pioneirismo do ensino da Medicina no Huambo, onde foi docente da cadeira de Semiologia Clínica. Como intelectual, adiciona, dedicou-se à poesia e música no movimento Kiximbula, com o Azevas, um médico já falecido.
" Perdemos um homem, um amigo, um humanista e um referenciado médico, sócio da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo desde 2012. A sua dedicação ao cuidado dos doentes desde a sua formação no Serviço de Endocrinologia do Hospital de Santo António, no Porto, até à sua marcante actividade internacional na Clínica Girassol, em Luanda, foi sempre pautada pelo mais alto rigor científico, humanismo e ética profissional", recorda a arquitecta Maria João Teles Grilo, que conheceu Lira nos tempos idos das revoltas estudantis, em Luanda.
Por sua vez, a Sociedade Angolana de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SAEDM), enalteceu numa mensagem de condolências, que foi lida durante um velório realizado em Luanda, sem corpo presente, que o Dr. Domingos Lira foi um dos grandes participes da criação da referida instituição profissional, em 2016.
"Ele contribuiu no desenvolvimento e consolidação da especialidade em Angola, através da sua actividade clínica e académica, assim como no seu percurso de formação e colaboração científica entre Angola e Portugal ".
" O seu rigor, competência, dedicação e sentido de responsabilidade granjearam-lhe o respeito da comunidade científica, tanto em Angola como em Portugal. Ele será recordado pelo seu empenho no fortalecimento da Especialidade e pelo seu contributo com a qualidade para a criação e consolidação da Sociedade Angolana de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo, da qual foi participante activo com o título de primeiro Presidente", lê-se no comunicado.
No mesmo local, que juntou familiares, amigos e colegas de Domingos Lira, foi lida uma mensagem de Archer Mangueira, economista e actual governador do Namibe, na qual ele recorda os tempos em que ambos estavam envolvidos nas lutas estudantis e políticas em 1974-5.
"Foi um dos dirigentes estudantis mais inteligentes e eloquentes que encontrei na minha iniciação à política. Tornou-se médico, professor e homem de ciência. Mas era muito mais do que os títulos e as qualificações que conquistou, visto que possuía uma cultura vastíssima, uma inteligência inquieta, um profundo sentido humanista e um amor inabalável por Angola".
Foi ele quem escreveu o posfácio de "Angola: a Geração da Transição", o livro que Archer publicou há dois anos.
E justifica as razoes que o levaram a convidar o seu coetâneo: "Queria que o olhar final sobre o livro fosse o de alguém que tivesse vivido aquele tempo, compreendesse as suas esperanças e contradições, e pudesse ler a narrativa com independência intelectual.
Tivemos sonhos e divergências. Vivemos momentos de enorme esperança e atravessámos períodos muito dolorosos. Algumas das nossas expectativas realizaram-se. Outras foram adiadas", escreveu Mangueira.
Numa cerimonia marcada por cânticos religiosos, declamações de poesia, testemunhos de familiares e amigos, coube a Filomeno Vieira Lopes, presidente do Bloco Democrático, descrever o percurso político de Domingos Lira. Descreveu-o como tendo sido um dos membros fundadores da Frente para a Democracia (FpD) e um defensor de causas sociais, em prol das camadas mais vulneráveis.
