O Inquérito à Juventude Africana 2026, da Fundação da Família Ichikowitz (FFI), ouviu 4.901 jovens, dos 18 aos 24 anos, em 16 países, entre os quais Moçambique, indica que os jovens que participaram no estudo estão mais otimistas em relação à direção que o continente africano está a tomar.
A percentagem de jovens que faz uma avaliação positiva subiu de 37% em 2024 para 43% em 2026, com o "Afro-otimismo" a "ultrapassar os níveis pré-covid", segundo o relatório.
O Quénia e a África do Sul destoam da tendência, com sete em cada dez jovens em ambos os países a considerar que o continente "está a ir na direção errada".
O otimismo é mais elevado no Ruanda (68%), na Somália (66%), no Burquina Faso e no Gana (ambos com 60%).
Apesar do aumento do otimismo, as pressões económicas, particularmente o aumento do custo de vida, estão no topo, "ultrapassando as mortes por doenças infecciosas e a instabilidade política como o evento de maior impacto dos últimos cinco anos", indica o estudo.
Para os próximos anos - e pela primeira vez desde que estes relatórios começaram a ser publicados, em 2020 - os jovens colocam a criação de "novos empregos bem remunerados" e a redução da "corrupção governamental" como prioridades.
Outro tema em destaque na investigação é a mudança de atitude em relação aos Estados Unidos da América (EUA).
Em 2024, os jovens esperavam que uma administração de Joe Biden (entre 2021 e 2025) fosse "melhor para o seu país" do que uma administração de Donald Trump (que presidiu entre 2017-2021 e 2025-presente), por 42% a 23%, respetivamente.
Atualmente, e apesar da preferência declarada por uma presidência Biden, "cerca de três em cada cinco jovens (58 a 60%) estão muito ou razoavelmente otimistas de que a administração Trump trará um futuro melhor, com o otimismo a ser mais pronunciado no capacitar da juventude, nas operações de segurança e no combate ao terrorismo", indicou.
Segundo o fundador e comissário do Inquérito à Juventude Africana, Ivor Ichikowitz, numa resposta à agência Lusa, "a mudança reflete menos uma alteração na ideologia política e mais uma mudança na forma como os jovens africanos acreditam que a política global funciona atualmente.
Muitos inquiridos parecem reconhecer que o Presidente Trump aborda as relações internacionais sob o prisma das transações, da influência e do interesse mútuo, em vez da ajuda externa ou da diplomacia baseada em valores.
Em vez de rejeitarem essa abordagem, muitos parecem dispostos a alinhar com ela, desde que África garanta benefícios tangíveis em troca".
Este positivismo convive, no entanto, com "uma inquietação mais profunda, apontando para muitas das complexidades da relação com os EUA", alertou o relatório.
"Pouco mais de metade (58%) dos jovens acredita que os EUA irão desrespeitar o direito internacional para obter acesso aos recursos naturais no seu país, com a preocupação a ser mais elevada na África do Sul e na Libéria (ambos com 70%)", exemplificou.
Também o encerramento da USAID, decretada por Trump, dividiu ainda mais as opiniões: "Mais de dois em cada cinco (46%) jovens acreditam que terá um impacto negativo no seu país, com a preocupação a ser mais elevada em Moçambique (76%), no Ruanda e no Quénia (ambos com 63%)".
O relatório mostra também que existe uma forte vontade de ver reformas nas organizações multilaterais, apesar de a União Africana e as Nações Unidas (ONU) serem vistas como "os organismos internacionais mais influentes" e terem "um impacto amplamente positivo no continente".
A ONU, dizem 80% dos inquiridos, "precisa de reformas para incluir uma representação africana permanente" no Conselho de Segurança.
Sobre sistemas políticos, a juventude africana expressa "uma convicção generalizada de que a liderança jovem é, neste momento, insuficiente" e mantém-se "firmemente comprometida com a democracia", referiu.
No entanto, a "democracia de estilo ocidental (...) não é bem aceite no contexto africano", alertou.
Segundo explicou Ivor Ichikowitz à agência Lusa, a "democracia à moda africana" que resulta da investigação atribui maior importância tanto aos resultados como aos procedimentos.
"Os inquiridos associam consistentemente a boa governação à unidade nacional, à estabilidade política, a líderes que criem emprego e melhorem os serviços públicos, a par de eleições verdadeiramente livres e transparentes", acrescentou.
Em matéria de segurança, sete em cada dez jovens dizem sentir-se seguros no seu país, mas esta questão é "tanto uma preocupação económica como física, com o desemprego e a pobreza a serem vistos como a maior ameaça à segurança da comunidade", indicou o documento.
