Convém dizer, com a frontalidade que a verdade exige: a controvérsia é fútil, descabida, e, mais grave ainda, intelectualmente desonesta. Não estamos perante um debate sério sobre ética institucional ou disciplina militar; estamos perante um sofisma de distração, desses que se fabricam para desviar o olhar do essencial num tempo em que o mundo se redesenha sob o signo inquietante das guerras híbridas, da instabilidade sistémica e das novas equações da geoestratégia global.
A presença de figuras como José Alberto Ferreira Lopes, Heitor Barras Romana e Agostinho Costa conferiu densidade analítica ao debate, permitindo um cruzamento fecundo entre tradição doutrinária europeia e a experiência concreta angolana. Este último, aliás, tem sido um exímio esgrimidor de argumentos no espaço público europeu, um estratega cuja palavra não passa despercebida nos círculos de análise militar, pela sua precisão, contundência e agudeza interpretativa.
Contudo, e é aqui que a superficialidade se revelou, para além dos discursos e das formulações estratégicas, houve um momento que alguns, com zelo quase patológico, decidiram elevar à categoria de escândalo: a fotografia, a "selfie", captada entre generais, especialistas e participantes.
É precisamente neste ponto que se impõe uma apologética lúcida, firme e, permita-se, implacável.
O general, convém reiterá-lo com rigor ontológico, não é uma entidade mineral, petrificada numa liturgia de rigidez permanente. É homem. Homem com história, com memória, com afectos, com densidade existencial. Exigir-lhe uma assepsia emocional absoluta é não apenas anacrónico, mas conceptualmente indigente. É confundir autoridade com mumificação.
E, no entanto, foi isso que alguns pretenderam: ver na espontaneidade de um gesto, num abraço, num sorriso, numa fotografia, um indício de subalternização. Ou, numa leitura ainda mais grotesca, de "superalternização"simbólica.
Nada mais falacioso. Nada mais intelectualmente desonesto.
O que se observou, e o vídeo, silencioso mas eloquente, atesta, foi um momento de convivialidade entre pares. Não há ali qualquer indício de hierarquia invertida, nem de submissão simbólica. Há, isso sim, uma suspensão momentânea do formalismo, típica dos espaços onde a confiança já foi construída. Há abraços que não diminuem; há gestos que não degradam; há sorrisos que não subtraem autoridade, antes a ampliam.
Mas talvez o problema resida precisamente aí: na incapacidade de alguns em compreender que a autoridade pode ser habitada pela humanidade.
Perguntemo-nos, com uma ironia que beira o óbvio: quem nunca viu Marcelo Rebelo de Sousa a dissolver a distância protocolar num abraço quase pastoral com os cidadãos? Quem ignora que João Lourenço já partilhou momentos informais, inclusive com figuras como Will Smith? Quem nunca observou Barack Obama ou Donald Trump em registos descontraídos, capturados e disseminados em segundos à escala global?
E, elevando o argumento ao plano mais sensível: aproxima-se a visita de Papa Leão XIV a Angola. Pergunta-se, com inteira franqueza: quem, entre os mais severos críticos de hoje, recusaria uma fotografia, uma simples, humana, memorável "selfie" com o Santo Padre? Quem, nesse instante, evocaria a "dignidade do cargo" para justificar a recusa de um gesto de proximidade?
Que atire a primeira pedra.
A crítica que se ergueu contra os generais angolanos não é apenas fútil, é um sofisma de distração, desses que prosperam na espuma dos dias para ocultar o essencial. Num momento em que o sistema internacional se reconfigura sob a pressão de conflitos híbridos, de novas doutrinas de dissuasão e de rearranjos geoestratégicos complexos, deter-se numa fotografia é, no mínimo, uma forma sofisticada de irrelevância.
Ou, pior ainda, e aqui convém uma prudência vigilante, pode insinuar-se a sombra de interesses menos confessáveis, agendas mal alinhadas com o interesse nacional, que procuram instrumentalizar o efémero para fragilizar o estrutural. Não é a primeira vez que o acessório é erigido em escândalo para obscurecer o essencial.
Porque o essencial é outro: Angola consolidou a paz. Angola afirma-se como actor estável numa região volátil. Angola convoca especialistas internacionais, cruza saberes, pensa estrategicamente o seu futuro. E os seus generais, esses mesmos que ontem foram guardiões da sobrevivência nacional, são hoje também agentes dessa estabilidade.
E, veja-se bem, são humanos.
Humanos o suficiente para abraçar. Para sorrir. Para registar um momento.
Humanos o suficiente para não temer a leveza que a paz permite.
Criticar essa leveza é, em última instância, uma forma de negar o próprio sentido da paz. É querer eternizar a dureza da guerra num tempo que já não lhe pertence. É exigir que os homens permaneçam prisioneiros de uma solenidade estéril, como se a autoridade fosse incompatível com a alegria discreta de um instante partilhado.
Mas não é.
A verdadeira autoridade não se mede pela ausência de humanidade, mas pela capacidade de a integrar sem se dissolver nela.
E talvez, apenas talvez, o verdadeiro incómodo de alguns não seja a fotografia, nem o abraço, nem a "selfie".
Seja, antes, o facto de Angola ter chegado a um ponto da sua história em que os seus generais já não precisam de provar nada, e, por isso mesmo, podem simplesmente... ser.
*Chefe do Serviço de Inteligência e Segurança Militar ( SISM)