Por experiência própria, por aquilo que temos a oportunidade de vivenciar diariamente no Cazenga, não temos dúvidas de que os clubes dedicados à formação constituem pilares essenciais no desenvolvimento das crianças e dos jovens e na promoção, no seio das comunidades, de uma cultura de hábitos de vida saudáveis.
Todavia, a boa vontade e o espírito de iniciativa de alguns carolas, gente com elevado sentido de cidadania e uma genuína paixão pela cultura física e pela educação desportiva das nossas crianças, por si só, não bastam. As barreiras que impedem o florescimento e o crescimento sustentado dos clubes de formação continuam a ser absolutamente gigantescas.
No dia-a-dia, estes clubes enfrentam uma multiplicidade de desafios: dificuldades financeiras permanentes, escassez de recursos humanos com formação adequada, carência de instalações e de material desportivo, desinteresse ou reduzido acompanhamento por parte de muitas famílias e, ainda, a condição social desfavorável de um número significativo de atletas. Tudo isto condiciona seriamente o cumprimento da sua missão.
No plano financeiro, a realidade é particularmente preocupante. As receitas tradicionais dos clubes de formação resumem-se, essencialmente, às joias e quotas pagas pelos sócios, às mensalidades suportadas pelas famílias dos atletas e aos contratos de patrocínio.
Contudo, obter recursos através de qualquer uma destas vias, tendo em conta a nossa actual realidade económica, social e até histórico-cultural, é uma tarefa verdadeiramente hercúlea.
São escassos os clubes de bairro, especialmente aqueles que se dedicam exclusivamente ao desporto de formação, que conseguem contar com um número significativo de sócios que paguem regularmente as suas joias de adesão e quotas. Pelas mesmas razões, continua a existir uma enorme resistência por parte de muitos encarregados de educação em aceitar que a prática desportiva dos seus filhos implique o pagamento de uma mensalidade, ainda que simbólica.
A celebração de contratos de patrocínio entre empresas e clubes de formação continua igualmente a ser uma excepção. E, pelas suas insuficiências conceptuais e pelo seu reduzido alcance prático, a actual Lei do Mecenato está longe de constituir uma solução eficaz.
Acresce a isso a inexistência, no nosso ordenamento jurídico, de um verdadeiro regime de financiamento ao desporto. Permitam-me utilizar esta expressão: faz-nos falta uma autêntica legislação financeira desportiva. Uma lei de incentivo ao desporto, acompanhada de um quadro legal que estimule de forma efectiva a responsabilidade social das empresas, poderia representar um importante ponto de viragem para o desporto comunitário.
Perante este quadro, em que, por um lado, existe uma vontade genuína de muitos cidadãos socialmente comprometidos com a promoção da prática desportiva nos seus bairros e, por outro, persistem enormes limitações para o funcionamento normal dos clubes de formação, a minha convicção é clara: as administrações municipais não podem, nem devem, continuar simplesmente a olhar para o lado.
É a própria Constituição da República de Angola que consagra o desporto como um direito social fundamental dos cidadãos. Sendo assim, o desporto deve ocupar um lugar de destaque nas políticas públicas de promoção da educação, da saúde, da inclusão social e do bem-estar colectivo.
Pela sua natural relação de proximidade com as populações, compete aos órgãos da administração local do Estado assumir um papel activo na dinamização da prática desportiva nas suas áreas de jurisdição. Isso passa por garantir algum apoio financeiro aos clubes comunitários, disponibilizar as infra-estruturas desportivas existentes, promover programas de capacitação dos agentes desportivos locais e estimular, de forma criativa e organizada, a responsabilidade social das empresas instaladas nos respectivos municípios, sejam elas micro, pequenas, médias ou grandes empresas.
Os clubes de formação não devem ser vistos apenas como organizações desportivas. São verdadeiras escolas de cidadania, espaços de inclusão social e instrumentos privilegiados de prevenção da delinquência juvenil, do consumo de drogas, da violência e do abandono escolar.
Apoiar o desporto de formação não é uma despesa. É um investimento inteligente nas pessoas, nas comunidades e, sobretudo, no futuro de Angola.
*Presidente do Clube Escola Desportiva Formigas do Cazenga