Afinal, depois de o Presidente dos EUA ter dito que não apenas tinha o controlo total do Estreito de Ormuz como graças a ele o fluxo de crude por esta estratégica passagem entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico estava quase em números pré-conflito, nos 98%, quase 17.5 milhões de barris por dia, mais uma vez a realidade choca com a suas palavras.

Com esta conversa, não com os iranianos, mas para os media, Trump conseguiu esta semana puxar o barril de Brent dos quase 110 USD para muito perto dos 95 USD, uma queda com estrondo positivo na economia global mas que durou pouco, muito pouco.

É que, depois dos primeiros dias da última semana de Setembro terem sido de descidas acentuadas no valor da matéria-prima, esta quinta-feira, 01 de Outubro, a realidade chocou de frente com os desejos e as dúvidas impuseram-se face à fábula trumpiana.

Afinal apesar de o Irão confirmar que o norte-americano lhes enviou uma proposta para negociar a abertura de Ormuz, não lhe deu relevância e repete, isso sim, que em cima da mesa de trabalho de Trump está a sua proposta (ver links em baixo) para reabrir o Estreito de Ormuz em sete dias.

E sobre os números da quantidade de crude que o Presidente dos EUA "jura" estar a fluir entre o Golfo Pérsico e o Índico, afinal os analistas dos mercados foram obrigados a equilibrar a realidade e a ficção e nesse esforço, a matemática de Donald Trump cede em toda a linha.

É que os dados em que assenta a sua contabilidade são fornecidos, segundo alguns analistas, apenas pelo site da Kpler, uma plataforma que agrega informação sobre a navegação global comercial e estes começam a afundar nas águas turvas dos interesses.

O Irão, porém, parece não querer deixar cair totalmente Donald Trump e vem agora admitir que sim, que alguns petroleiros de pequena dimensão estão a sair sem o seu controlo por Ormuz, mas numa pequena quantidade que não influi na mecânica global da economia.

E o facto de a Arábia Saudita ter reposta parcialmente a capacidade do oleoduto "Leste-Oeste", que atravessa a Península Arábica entre o Golfo Pérsico e o Mar Vermelho, permitindo contornar os constrangimentos em Ormuz, isso não parece ter a importância que lhe estava a ser dada pelos mercados.

É que o trânsito entre o Mar Vermelho/Canal do Suez e o Índico, no Estreito de Bab al-Mandeb, mantém-se reduzido ou nulo, especialmente no que diz respeito ao crude saudita, devido ao apertado controlo da AnsarAllah, no contexto da retoma da guerra de Riade contra os também conhecidos por Houthis do Iémen.

A decompor ainda mais esta matéria amolecida está uma potencial crise económica global ao virar da esquina do tempo, porque as grandes economias, com a Europa em destaque, vivem uma escassez histórica de refinados, como o gasóleo e o jet fuel, atingindo os seus preços números recorde, ameaçando a sustentabilidade de vários sectores, como a agricultura.

E ainda, nesse contexto, porque ainda está por ser digerido pelos mercados o facto de que mesmo com mais crude a circular, se fosse verdade o que diz Trump, a capacidade de refinação mundial foi brutalmente reduzida pelos conflitos no Médio Oriente e no leste europeu, porque as refinarias são alguns dos alvos preferidos dos contendores.

É de tal modo assim que em países europeus os protestos dos agricultores e do sector dos transportes rodoviários, entre outros, ameaçam paralisar cidades devido ao preço do gasóleo, que já está acima de 2,5 euros (3.200 kz) nalguns países, o que faz com que estas actividades deixem de ser viáveis economicamente.

Neste contexto, esta quinta-feira, 01, o valor do barril de Brent atingiu, perto das 09:30, os 100 USD, uma subida de quase 2,5%, mostrando o incómodo dos mercados com a avalanche de incertezas sobre o desfecho da crise no Golfo Pérsico.