E mais à frente também escrevi:
Quando o Sr. Presidente assumiu o pedido de perdão em nome do Estado, certamente não pretendeu eximir os agentes de responsabilidades individuais dos crimes praticados. Não concedeu um perdão aos criminosos que nunca foram até hoje processados. Não lhes garantiu nenhuma impunidade. Pediu sim, perdão em nome do Estado às vítimas dos crimes e dos atentados aos Direitos Humanos. Atrevo-me mesmo a afirmar que não se confundam os desatentos, nem queiram ver nas palavras do Sr. Presidente a defesa da impunidade. Isso é absurdo.
Nessa linha de pensamento, ocorre-me então reafirmar que, ao contrário do que muitos procuram hoje apressadamente concluir, diminuindo ou aumentando a barbárie praticada naquela época, a questão do número de mortos continua em aberto e continuará até que seja apurada com a existência de uma Comissão de Verdade sobre o Processo 27 de Maio.
HOUVE BARBÁRIE NO CEMITÉRIO DO CATORZE!
O CEMITÉRIO DO CATORZE É UM LOCAL DE PROVA DE UM POSSÍVEL GENOCÍDIO?
FORAM COMETIDOS CRIMES MUITO GRAVES!
CRIMES CONTRA A HUMANIDADE?
Hoje foi a vala comum do Cemitério do Catorze, amanhã serão as de Benguela, do Huambo, do Uíje, do Bié, etc. Elas estão espalhadas pelo território nacional e sempre se soube. Esse tema, "o do número certo de mortos", não deveria ser o tema de debate neste momento, mas sim, deveria falar-se antes de um consternamento generalizado da sociedade pelo que se percebe que ali aconteceu. Apareceria à vista de todos a maldita vala, não para se passear como se se tratasse da construção de uma "avenida dos mortos" (como alguém que tem o seu marido desaparecido lhe chamou), mas sim, para lamentar o sofrimento infligido às vítimas que para ali foram atiradas depois de torturadas. É hora de lamentar o sofrimento das suas famílias ao longo quase 49 anos, lamentar pelas vidas humanas perdidas para sempre e que encontraram o seu fim naquela maldita vala. Para ali foram conduzidas na calada da noite pelos tais "executores de ordens", bem conhecidos de todos e que também foram muitas vezes "fazedores da sua própria ordem". Ainda andam por aí alguns e não estão nem podem estar amnistiados e impunes. Repetindo-me pergunto:
O que preconiza a JUSTIÇA TRANSICIONAL da União Africana?
...O Painel de Sábios da União Africana realizou e aprovou um trabalho de investigação que levou à publicação de um relatório, em Maio de 2011 , em Adis Abeba, Etiópia, intitulado «A Não Impunidade, Verdade, Paz, Justiça e Reconciliação em África: oportunidades e constrangimentos».
Depois da aprovação deste relatório e das suas recomendações, foi mandatada a Comissão da União Africana para elaborar a chamada Política de Justiça Transicional, para servir de guia aos Estados-Membros da União Africana que necessitem de intervenções em matéria de justiça transicional.
Uma Comissão de Verdade poderá abrir a porta ao perdão aos criminosos desde que exista uma confissão do crime, um arrependimento sincero e colaboração na identificação dos locais onde se encontram os corpos das vítimas de desaparecimento forçado. Aí as vítimas e seus familiares poderão ser sensíveis e perdoar, mas precisam de saber a verdade...
PORQUE NÃO SEGUIU A CIVICOP ESTAS RECOMENDAÇÕES DA UNIÃO AFRICANA?
PORQUE POUPOU OS MENTORES E EXECUTORES A INDICAREM AS VALAS?
Ocorre-me ainda referir que a CIVICOP, na sua ânsia em "mostrar trabalho", tem distribuído pacotes informativos e publicitários em desrespeito pelos mais elementares direitos das vítimas do Processo 27 de Maio de 1977, subvertendo a cada momento os direitos das vítimas e das suas famílias. Assistimos a tristes espectáculos televisivos que pareciam noticiar um campeonato de futebol. Não basta dizer que "as imagens podem ferir susceptibilidades". Haja decoro! Nesses actos de propaganda da CIVICOP gabaram-se de um longo trabalho de campo e de terem usado meios técnicos importantes. Ficam mais estas perguntas:
QUAL O ORGANISMO INDEPENDENTE QUE FISCALIZOU AS EXUMAÇÕES À LUZ DOS PADRÕES CIENTÍFICOS DO PROTOCOLO DE MINNESOTA DA ONU??
COMO FOI ASSEGURADA A RIGOROSA CADEIA DE CUSTÓDIA PARA IMPEDIR A CONTAMINAÇÃO OU A ADULTERAÇÃO DAS PROVAS FORENSES?
ANGOLA JÁ TEM MEIOS TÉCNICOS E AUTONOMIA LABORATORIAL PARA A PESQUISA E EXTRAÇÃO DE ADN EM MATRIZES ÓSSEAS ALTAMENTE DEGRADADAS?
PARA QUANDO O PEDIDO DE DESCULPA DO MPLA?
PARA QUANDO O ARREPENDIMENTO E O PEDIDO DE DESCULPA DOS ALGOZES, AINDA VIVOS?n
1 Política de Justiça Transicional da União Africana (AUTJP)
2 Manual da ONU para a investigação de mortes potencialmente ilícitas
*Sobrevivente