Comemorou-se o Dia do Jazz, a 30 de Abril. Um estilo musical de resistência e resiliência, como sublinha nas suas opiniões. Hoje, o jazz pode ombrear com os demais estilos musicais, tal como a kizomba e o semba?
Estamos a meio-termo. O jazz ainda é entendido pelas elites africanas, em geral, e angolanas, em particular, como um corpo estranho. Há um desinteresse quase estrutural por essa música de resistência, que nasceu à margem, cresceu sem pedir licença e sobreviveu. Falta visão, falta coragem e discernimento para reconhecer no jazz uma linguagem universal que também nos pertence. Esquece-se de que o jazz também é uma forma de estar no tempo, na memória, no mundo. Na origem do jazz está o sofrimento de pelo menos quatro milhões de angolanos que foram para as Américas, e no global são 13 milhões e meio de africanos transportados à força para as grandes plantações de cana-de-açúcar e algodão nas Américas. O jazz transporta África no coração, mesmo quando o mundo insiste em esquecê- la.
E há uma particularidade indesmentível: Luanda foi o mais importante entreposto atlântico de escravos para as Américas entre o século XVII até ao século XIX (1867), a data da abolição da escravatura. Estima-se que, ao longo de 366 anos ininterruptos de escravatura, aconteceu uma das maiores migrações forçadas da História. Isso dá-nos uma responsabilidade moral. Por que, afinal, o jazz o quê é? É um sinónimo de resistência e resiliência. Um estilo de música que surge na América, mas que é o confronto de pelo menos duas culturas: a europeia dominante e africana escravizada.
O que resulta desse encontro entre africanos, afro-americanos e europeus ensinou o mundo a improvisar com dignidade, e que uma música nascida da dor e do sofrimento, que, no entretanto do tempo, caminha para um estatuto de enorme dignidade, e que se tornou a música das cidades. É pouco compreensível que as nossas elites culturais e institucionais não tenham nos seus objectivos o jazz como uma prioridade, sobretudo ou tendo em conta que, a partir dos anos 40, na África lusófona os poetas militantes mais comprometidos com a libertação dos seus países colonizados por Portugal, e agora menciono Agostinho Neto, Viriato da Cruz e António Jacinto - os nomes mais emblemáticos da nação literária angolana, que constitui a tríade que melhor cumpriu os objectivos: "Vamos descobrir Angola" - cujo mérito da sua formulação teórica é atribuído a Viriato da Cruz -, ao qual se associam outros homens de grande estatura, nomeadamente Francisco José Terreiro (de São Tomé e Príncipe) e Noémia de Sousa (de Moçambique). Todos eles manifestaram, no seu labor poético e na sua práxis militante, a preocupação com o destino do homem negro transplantado para América e a libertação dos seus países.
Leia este artigo na íntegra na edição semanal do Novo Jornal, nas bancas, ou através de assinatura digital, pagável no Multicaixa. Siga o link: https://reader.novavaga.co.ao/
