Assim, torna-se óbvio que a tradição e o peso histórico não garantem vitórias antes do encontro. Nos 90 minutos qualquer favorito pode ser surpreendido por um adversário teoricamente mais fraco.
O talento está disperso por vários continentes e sistemas de formação, tornando difícil às antigas potências manterem um estatuto dominante.
Após o apuramento e o sorteio, o torneio transforma-se num espaço onde os índices de competitividade são elevados e a crença no inesperado torna as surpresas prováveis.
Para isso basta recordar alguns exemplos recentes.
Em 2022, a vitória da Arábia Saudita frente à Argentina que seria campeã mundial mostrou como o equilíbrio pode ser quebrado num único jogo.
Em 2018, na Rússia, a Alemanha foi eliminada na fase de grupos após derrotas frente ao México e à Coreia do Sul num dos maiores choques dessa edição.
Já o percurso de Portugal no Mundial de 2022 terminou nos quartos-de-final com uma eliminação frente a Marrocos, num momento em que a equipa africana voltou a confirmar a sua capacidade de surpreender em fases decisivas.
Isto transporta-nos para os duelos desta tarde.
A Alemanha defronta o Curaçao pelas 18:00 (hora de Angola) no Estádio NRG, em Houston, na partida inaugural do grupo E.
Quando as duas equipas subirem ao relvado ficará evidente como o futebol contemporâneo se desenvolve a partir de modelos distintos.
A "Mannschaft" explora um conceito híbrido assente na formação interna e na integração de jogadores oriundos de diferentes contextos migratórios. Funciona como uma fábrica que produz soluções de alto nível, embora não se encontrem os Gerd Müller, Rudi Völler e Franz Beckenbauer a cada esquina. Jogadores como Jamal Musiala, Joshua Kimmich e Florian Wirtz são alguns dos talentos modernos a despontar no futebol germânico.
Já o Curaçao representa uma realidade diferente, onde a diáspora tem um papel central. Muitos dos seus jogadores são formados nos Países Baixos e trazem uma identidade dupla que marcou a evolução da selecção. Um exemplo é o de Leandro Bacuna e Juninho Bacuna, irmãos que simbolizam essa ligação entre origens e percurso europeu.
Costa do Marfim vs Equador
Na madrugada de segunda-feira, pelas 00h00 (hora de Angola), a Costa do Marfim e o Equador fecham a primeira jornada do grupo E, em Miami, no Estádio Hard Rock. Um encontro muito difícil de prever entre duas formações que apostam na organização, disciplina e possuem futebolistas com um maior critério de passe, inteligência e visão de jogo.
O Equador consolidou-se como uma das selecções sul-americanas mais organizadas, com Moisés Caicedo como símbolo da evolução do seu futebol, enquanto Pervis Estupiñán acrescenta experiência no contexto europeu.
Já a Costa do Marfim é uma das selecções africanas mais consistentes, com atletas que actuam em ligas europeias. Simon Adingra, Serge Aurier, Franck Kessié, Nicolas Pépé e Seko Fofana são casos de afirmação internacional.
Suécia vs Tunísia
No Estádio BBVA, em Monterrey, no México, a Suécia e a Tunísia abrem o grupo F na madrugada de domingo pelas 3:00 (hora de Angola).
Os dois países têm em comum uma matriz multicultural.
A identidade futebolística dos suecos é construída entre a tradição escandinava e a influência de diferentes comunidades migrantes. Alexander Isak e Dejan Kulusevski fazem parte desta geração evoluída, dinâmica e técnica, com e sem bola.
Enquanto a Tunísia mantém uma ligação estrutural entre o futebol africano e europeu, com jogadores que evoluem entre os dois sistemas. Wahbi Khazri e Ellyes Skhiri são figuras centrais de um conjunto que alia experiência e disciplina táctica.
Um Mundial que cruza identidades
Neste torneio, a geografia já não explica sozinha a identidade das selecções.
Alemanha, Curaçao, Costa do Marfim, Equador, Suécia e Tunísia chegam ao mesmo palco por caminhos diferentes, mas inseridos na mesma lógica global de circulação de talento.
É este o retrato da modalidade em expansão, onde se verifica maior equilíbrio e um conhecimento amplo do desporto-rei em transformação constante.

















