O momento mediático criado pela ruidosa passagem do B1 Lancer, um dos mais poderosos bombardeiros estratégicos dos Estados Unidos, aconteceu quando este avião passou em voo rasante sobre a cabeça de Donald Trump e Xi Jinping, sendo de tal forma incómodo que as televisões de todo o mundo focaram as caretas feitas pelo norte-americano enquanto fazia a continência.

Os nós diplomáticos, comerciais e políticos que se estendem na extensa corda de interesses entre Washington e Pequim são de tal modo abundantes, estando na memória colectiva a gigantesca guerra comercial das tarifas aplicadas por Trump logo após ter regressado à Casa Branca, em Janeiro de 2025, que a chegada do líder chinês a Washington foi minuciosamente analisada.

E a conclusão foi fácil depois de se saber que Donald Trump e a mulher, Melania Trump, estariam no aeroporto à espera de Xi e da sua mulher, Peng Liyuan: se não for possível levar a melhor com argumentos, as honrarias terão de servir para impressionar o líder chinés e a sua comitiva.

O foco mediático estava colocado em tentar perceber as primeiras palavras do norte-americano, porque se sabia que o visitante dificilmente falaria fora dos momentos previamente agendados.

Mas, como raramente acontece, não foram as palavras de Trump que tomaram de "assalto" as páginas e ecrãs dos jornais de todo o mundo, foram os gestos do Presidente norte-americano, desde logo ter-se posicionado junto à escada do avião de Xi e, depois, pelo incómodo com a ruidosa passagem rasante do B1 Lancer, visível nos esgares e na movimentação da cabeça em direcção ao som...

Xi Jinping, impávido e sereno, só mexia a cabeça para acompanhar o bailado incómodo do seu homólogo, que se viu na necessidade de lhe dar uma explicação para tamanho ruído na recepção... sem que se tenha ficado a saber o conteúdo dessa curta troca de impressões, mas ficou-se a saber o motivo da surpresa. Foi uma questão técnica.

A passagem do bombardeiro estratégico supersónico B1 Lancer não estava prevista. Deveria ser, e essa era aguardada, uma passagem do B2 Spirit, sendo que a diferença no ruído produzido pelo primeiro é muitíssimo superior ao gerado pelo segundo, muito mais silencioso e moderno, características que justificam ser este o avião "quase" sempre usado neste tipo de cerimónias.

O porquê da troca, como é natural, está envolto em discussão nos múltiplos corredores dos media tradicionais e alternativos nos EUA, mas uma das versões aponta para que os estrategas da Casa Branca tenham optado pelo ruidoso B1 Lancer para impressionar Xi Jinping, que muito raramente vira os olhos para os aviões que lhe sobrevoam a cabeça.

Deste vez foi quase assim, mas o incómodo de Trump, que também não se sabe se fora posto ao corrente da alteração, visível na sua cara e nos gestos, obrigou o visitante a tentar ver a fonte de tamanha barulheira, o que não é surpreendente porque entre os entusiastas dos aviões, os decibéis produzidos pelos motores do B1, um dos mais ruidosos do mundo, são uma das maiores atracções mundiais neste universo de fãs da aviação.

Uma visita do Presidente chinês aos Estados Unidos nunca ficaria marcada unicamente por uma passagem inesperada de um avião de guerra norte-americano sobre a cabeça do visitante, mas não é possível nem viável ignorar que se trata das duas maiores potências económicas do mundo, que disputam palmo a palmo a influência planetária e que o Pentagono (comando militar global dos EUA) entende que ambos vão estar em guerra directa até mais tardar 2030.

Nessa perspectiva, o voo rasante e ensurdecedor do B1 Lancer não pode ser visto apenas como uma passagem que faz parte do protocolo, porque isso é verdade quando se trata do B2 Spirit, cuja diferença é que se trata de um aparelho que é quase silencioso na aproximação e produz um ruído claramente mais suportável ao afastar-se do local da cerimónia.

É parte da coreografia que Pequim e Washington produzem no palco global das ameaças, mais, menos ou subtis trocadas entre estes dois superpoderes que Xi Jinping, antes de partir para os EUA, defendeu que deveriam apostar mais na "construção de parcerias que fomentar rivalidades", e Donald Trump diz querer resolver os problemas da vantagem comercial que a China explora há décadas devido a fraquezas dos seus antecessores.

Alias, foi essa a razão para a mais ruidosa guerra comercial entre EUA e China declarada por Donald Trump no início de 2025, com aplicação de tarifas gigantescas, que chegaram aos 140% em centenas de produtos importados daquele país, à qual o "gigante asiático" ripostou com iguais medidas, tendo obrigado Washington a recuar depois de cortar as exportações para os EUA das famosas "terras raras", fundamentais para as mais importantes indústrias 2.0.

Nesta visita aos EUA, Xi Jinping vai ficar quase 72 horas, nas quais Pequim quer procurar resolver ou encaminhar para uma solução problemas como a questão das tarifas, o problema da ameaça militar norte-americana devido ás suas dezenas de bases militares em torno da China ou, entre outros, como podem Pequim e Washington colaborar na busca de soluções pacíficas para os conflitos no Golfo Pérsico e na Ucrânia.

A primeira medida de boas-vindas norte-americana foi prolongar por mais alguns meses o "cessar-fogo" comercial entre estes dois gigantes planetários, mas muitos assuntos por resolver estão assinalados nesta intensa agenda de trabalhos de três dias, que deverá servir a Trump para impressionar o visitante, não apenas com o ruído do B1 Lancer à chegada, mas com muito pompa e ainda mais circunstância protocolar...

Tudo indica que a palavra de ordem na Casa Branca, porque é pública a informação de que os EUA se estão a preparar para uma guerra aberta militar com a China, sendo que até o Presidente chinês já se referiu a isso, quando, ao receber Trump em Pequim, lhe pediu para não deixar os EUA caírem na "Armadilha de Tucidides", que ocorre quando uma potência emergente ameaça outra, dominante e já consolidada no sistema internacional, que tende a acabar numa guerra de tira-teimas (ver links em baixo).

Pelo contrário, Xi Jinping entende que a China e os Estados Unidos devem ser "parceiros, e não rivais", porque ambos têm mais a ganhar através da cooperação do que digladiando-se no palco do mundo, embora a China não esconda que está a trabalhar para derrubar a Ordem Mundial baseadas nas regras criadas pelos EUA no pós-II Guerra Mundial, que lhes permitiram, com os seus aliados ocidentais, dominar o Planeta no último século.

Citado pelas agências, Xi sublinhou que "os dois países devem ser parceiros, e não rivais", acrescentando, nesta nota publicada pela agência de notícias chinesa Xinhua, que "os povos chinês e norte-americano mantêm há muito intercâmbios amistosos e os seus interesses estão estreitamente ligados".

As declarações surgem na véspera das aguardadas conversações entre os líderes da China e dos Estados Unidos, que trocaram um aperto de mão à chegada de Xi Jinping a Washington.

As discussões deverão abordar o comércio, a concorrência tecnológica - em particular no domínio da inteligência artificial - e o apoio de Pequim ao Irão e ainda a questão do conflito no leste europeu.

O Presidente chinês, citado pela Lusa, afirmou também estar "ansioso por manter conversações aprofundadas com o Presidente Trump sobre as principais questões relativas às nossas relações bilaterais e à situação mundial", segundo a Xinhua.

Os dois países devem "trabalhar em conjunto para promover uma relação estável, tendo a cooperação como principal pilar, a concorrência dentro de limites razoáveis, divergências controláveis e perspetivas pacíficas", afirmou Xi.

Numa referência ao lema de Donald Trump, o líder chinês acrescentou que "o grande rejuvenescimento da nação chinesa e o objetivo de tornar a América novamente grande podem perfeitamente avançar lado a lado".

"Acredito que, com os esforços conjuntos, esta visita produzirá resultados frutíferos, melhorará o bem-estar dos nossos dois povos e trará uma nova esperança para a paz mundial", acrescentou.