É o Irão, porque é agora claro que Donald Trump tem mentido permanentemente como forma de manipular os mercados energéticos de forma a pressionar e manter o barril de petróleo em valores "aceitáveis", e quem o demonstra é a Agência Reuters.
Ormuz "garante" em tempo de paz cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia, 1/5 do total consumido no mundo, e 20% de gás (LNG), mas com o começo da guerra a 28 de Fevereiro, estes números esfumaram-se e nunca mais recuperaram.
O trânsito de navios, especialmente importantes os petroleiros e metaneiros, pelo Estreito de Ormuz, ao contrário do que Trump ainda apregoava esta segunda-feira na Casa Branca, está longe do normal, quando muito chega aos 40%.
A Reuters, depois de consultar os registos oficiais do tráfego marítimo entre o Golfo Pérsico e o Índico recolhidos pela Kpler, uma das maiores plataformas de compilação de dados e análise sobre comércio naval global, concluiu que este "permanece deprimido",
Ainda assim, Donald Trump insiste que esta passagem fulcral para a economia mundial, especialmente relevante devido ao período eleitoral que os EUA atravessam face às eleições intercalares de Novembro e aos efeitos nefastos que produz na economia norte-americana, está "a funcionar em pleno e de extrema boa saúde".
Além disso, de a Kpler, citada pela Reuters, dar conta de uma queda de mais de 50% do trânsito nesta passagem, os ataques aos petroleiros que tentam contornar a vigilância iraniana, sucedem-se e são noticiados diariamente.
É ainda de sublinhar que quase todas as embarcações que atravessam Ormuz fazem-no com consentimento e acordo do Irão, que excluiu da lista de países autorizados a usar esta passagem, entre outros, os EUA, Israel e União Europeia.
Embora os navios que tentam passar por ali com os "transponders" desligados não integrem a contagem da Kpler, a verdade é que são muito poucos os que tentam fazê-lo, e não apenas porque se sujeitam aos drones iranianos...
... é assim especialmente porque as seguradoras se recusam, sempre, a assumir responsabilidades nessas condições e nenhuma companhia se sujeita a tamanho prejuízo em caso de um navio que vale centenas de milhões de dólares ser afundado...
Embora os EUA tenham, mais uma vez, atacado posições militares iranianas em Ormuz, com Teerão a responder com ataque massivo sobre bases norte-americanas na Jordânia e nos Emiratos Árabes Unidos, há sinais de que Washington e Teerão estejam prontos a falar.
Isso mesmo foi demonstrado pelo Presidente iraniano, Massoud Pezeshkian, que está por estes dias no Quirguistão, para a Cimeira da Organização para a Cooperação de Xangai (SCO, sigla em inglês), mantendo reunião paralelas com os homólogos russo, chinês e indiano, entre outros.
Estes encontros têm um valor supranumerário devido à demonstração pública de que os esforços para isolar o Irão de Donald Trump são inóquos, até pelo facto de a SCO valer quase 40% do PIB global PPP e mais de 40% da população mundial.
Massoud Pezeshkian, entre as diversas reuniões multilaterais e bilaterais, disse aos jornalistas que o Irão não teria "nenhum problema" em corresponder de imediato a um avanço dos EUA no sentido de cumprir o conteúdo do Memorando de Entendimento que Donald Trump assinou em Junho.
Memorando esse que visava - os 60 dias de referência para procurar a paz extinguiram-se em Agosto, mas não caducou em definitivo por não ter um prazo de validade - permitir a Washington e Teerão desenhar um plano de paz que garantisse os mínimos exigidos pelos dois lados.
Todavia, para já, Trump não admitiu corresponder à possibilidade levantada por Pezeshkian, que permitiria a reabertura total de Ormuz imediatamente, tendo, pelo contrário, somado ameaças de novos e devastadores ataques contra o Irão.
Isto, quando, inclusivamente dentro da nomenclatura norte-americana, são cada vez mais as vozes que defendem que as opções de Trump na forma como está a lidar com o Irão "estão condenadas ao fracasso".
A última dessas vozes é a do embaixador Joey Hood, conhecedor profundo da região e das suas particularidades, depois de ocupar postos no Kuwait, Arábia Saudita, Iraque... que entende que a "pressão económica não levará o Irão a mudar o comportamento".
E, citado pela Al Jazeera, o diplomata norte-americano acrescentou que a Casa Branca já percebeu os limites dos ataques militares, avisando, ainda assim, que as sanções económicas reforçadas "não vão surtir o efeito" que o Presidente Trump pretende.
E deu um exemplo claro: Para levar o Irão a sentar-se à mesa para, em 2015, negociar os limites ao seu programa nuclear, foram precisos dois anos de sanções duríssimas, e nessa altura, China e Rússia estavam com os EUA e a Europa Ocidental, hoje a realidade é totalmente diferente e Teerão conta com Pequim e Moscovo a proteger a sua rectaguarda.
O que Hood pretende sublinhar com esta abordagem é o mesmo que outros analistas, como John Mearsheimer, professor de Ciência Política da Universidade de Chicago, e um dos mais prestigiados analistas de política internacional nos EUA, entende como a "normalidade criada pelo Irão em extremas dificuldades" geradas por décadas de sanções.
É que se há um país que aprendeu a viver sob sanções extremas é o Irão, que assim subsiste deste 1979, ano da revolução islâmica que afastou o ditador e amigo do Ocidente, o xá Reza Pahlavi.
Além disso, agora, enquanto membro dos BRICS, e com um conjunto de parcerias estratégicas, com destaque para as com a China e a Rússia, o Irão tem uma nova "carapaça" para aguentar os golpes económicos de Trump, embora as dificuldades sejam reconhecidas sem dúvidas pelo próprio Massoud Pezeshkian.










