Com o Estreito de Ormuz fechado pelo Irão, com ameaça a todos os navios que não tenham a permissão de Teerão para atravessar este estratégico canal entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico, a Donald Trump só restaria duas opções: negociar ou atacar.
Uma das duas possibilidades teria de ser usada rapidamente, porque o Presidente norte-americano e o seu Partido Democrata estão a ficar sem tempo face ao aproximar das eleições intercalares de Novembro.
É que se Trump perder estas eleições, como todas as sondagens indicam, sendo já dado como certa a perda da maioria na Câmara dos Representantes, e o Senado corre esse risco em crescendo a cada dia que passa, o seu futuro político estará na corda bamba.
Certo é que se perder a maioria nas duas câmaras do Congresso a sua capacidade "presidencial" ficará limitada a pouco mais que a gestão do dia a dia sem o apoio da oposição Democrata, e ainda tem à perna vários "impeachments". (ver links em baixo).
Entre negociar e atacar, Donald Trump escolheu, sem margem para dúvidas, a opção que mais agrada ao seu "amigo" Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro de Israel, que atravessa problemas idênticos.
O primeiro-ministro israelita e o Presidente dos EUA têm ambos eleições e a justiça à perna, ambos precisam de ganhar as eleições para "sobreviver" mas, enquanto o americano só tem hipóteses se a guerra acabar, o israelita precisa dela para ter possibilidades de manter o poder.
Com os mercados energéticos aparentemente a sair do coma, reagindo com fortes subidas - o barril de Brent está nos 95 USD - a este regresso da guerra ao Golfo Pérsico, a "fonte" de 20% do crude e do gás (LNG) globais, Trump, se não conseguir o colapso do regime iraniano nas próximas duas semanas, tem a cabeça a prémio.
É que nos EUA os eleitores votam com a mão na "pistola" da bomba de gasolina e os olhos no preço que vão pagar.
E não há nada neste momento que indique que a diplomacia possa substituir os mísseis como forma de resolver esta guerra, porque, ainda por cima, como veio já explicar o presidente do Parlamento iraniano e chefe das negociações com os EUA, Mohammad Bagher Ghalibaf, "o Irão não pode deixar sem punição mais um ataque a civis indefesos".
Com efeito, nos ataques que fizeram entre terça-feira e hoje, quarta-feira, 02, os EUA mataram vários civis que assistiam a um casamento, incluindo duas crianças, na província de Kermanshah, no nordeste do Irão, que decorria num local sem qualquer alvo militar conhecido.
Só nestas 24 horas morreram duas dezenas de iranianos, a maioria civis, sob os ataques norte-americanos, sendo a situação mais grave o ataque ao local do casamento, que trouxe à memória o catastrófico ataque à escola de Minab, no sul do Irão, onde, de uma só vez, os EUA assassinaram 168 meninas em idade escolar e sete dos seus professores.
Indiferente a estes cenários de terror, o Presidente dos EUA veio já dizer que não quer saber se o Irão vai ou não ceder a negociar nos termos americanos, o que ele garante é que os ataques vão continuar como castigo pela resposta de Teerão sobre as bases dos EUA na região.
Isto, depois de o Irão ter atingido alvos militares, desconhecendo-se oficialmente com que resultados, no Kuwait, Jordânia, Emiratos Árabes Unidos, Bahrein e o Curdistão iraquiano, onde os EUA possuem uma forte presença militar, na cidade de Erbil.
A resposta do Supremo Líder iraniano, aiatola Mojtaba Khamenei, filho do seu antecessor, Ali Khamenei, morto pela coligação israelo-americana a 28 de Fevereiro, bem como a sua mulher e filha, na primeira reacção a esta retomada da guerra, foi que o Irão "tem muitas lições inesquecíveis armazenadas para os EUA".
Os EUA reiniciaram estes ataques ao fim de quase um mês de pausa realizada em torno da anunciada opção por um aumento das sanções económicas sob a forma de "Dia D Económico" (ver links em baixo), mas que os analistas, como Jacques Baud, antigo coronel da intelligentsia suíça e da NATO, consideram ter sido mais uma vez apenas para reorganizar planos de ataque e reabastecer paióis.
E alegaram que este regresso aos bombardeamentos se deveu á necessidade de garantir a segurança na navegação em Ormuz, constantemente ameaçada pelos drones e mísseis anti-navio da Guarda Revolucionária do Irão (IRGC), apesar de Trump ter dito antes, repetidamente, que aquela via marítima estava totalmente livre e protegida.
Recorde-se que os actuais objectivos dos EUA estão reduzidos a duas situações, a reabertura do Estreito de Ormuz e garantir que o Irão não tem uma arma nuclear, duas coisas que antes da guerra estavam garantidas.
Alias, todos os objectivos concretos anunciados aquando do começo da guerra lançada por Israelitas e americanos estão por conseguir, desde logo desmantelar o regime iraniano, eliminar o seu programa de mísseis balísticos e cortar as relações de Teerão com os seus aliados regionais.
Se Trump garante que vai continuar os ataques "cada vez com mais violência", o Irão já avisou que só haverá paz quando Washington aceitar regressar e cumprir o Memorando de Entendimento que o Presidente dos EUA assinou em Junho com o iraniano Massoud Pezeshkian.
Conclusão: Se não acontecer algo de extraordinário que permita o triunfo da diplomacia ou a vitória clara de uma das partes, a guerra vai evoluir para uma das históricas "guerras sem fim" que os EUA têm criado no Médio Orientes.
E são disso bons exemplos as do Afeganistão (20 anos) e a do Iraque, que nas suas consequências objectivas ainda não acabou mas que contou com uma presença militar durante mais de 20 anos.










