Nas democracias liberais, existem além dos mais mecanismos de pesos e contrapesos que, para além da Constituição, limitam os abusos do exercício do poder, estimulando a transparência e a participação popular e não apenas a realização de eleições livres e justas.
As democracias liberais tiveram na sus génese o iluminismo, coincidindo com o fim do absolutismo, consolidando-se inicialmente em Inglaterra no século XVIII e influenciando a partir daí a França, os EUA e inúmeros outros países.
Quer isto dizer que as democracias liberais no conceito que antecede estão para além das democracias meramente electivas, porque não é pela existência de eleições para sufragarem os representantes dos eleitores que se pode concluir pela existência de uma democracia liberal.
Há muitas democracias electivas que suportam regimes autoritários, seja porque os tribunais não são, de facto, independentes, ou por outras razões, cumulativas ou não com cerceamentos à liberdade.
Os regimes nas democracias liberais tanto podem existir em Monarquias como em Repúblicas, em função do peso da avaliação tendencialmente generalizada que é imposto pela História do respectivo país.
Na Europa, por exemplo, coexistem países que são Repúblicas, como Portugal, França e Itália, a par de outros que são Monarquias como Espanha, Bélgica ou a Holanda, e mesmo fora da Europa poderíamos citar inúmeras monarquias como a do Japão na longínqua Ásia.
A democracia liberal não se limita, como se vê, ao princípio de a cada cidadão pertencer, em igualdade, um voto.
Nos últimos anos, temos vindo, porém, a assistir no mundo a um mal-estar nas democracias liberais, que, na essência, tem a ver com as ondas de choque subsequentes à implosão da ex-URFSS.
Os EUA, que foram os motores da globalização, afadigam-se agora em promover o seu contrário, procurando por uma nova recomposição geoestratégica de um novo mundo multipolar, encorajando e apoiando os nacionalismos.
Esta postura foi precedida a nível mundial de duas crises da maior relevância, a primeira do subprime que arrastou a partir de 2008 a crise das dívidas soberanas e a segunda, em 2020, a epidemia da Covid - 19, que se prolongou até ao segundo semestre de 2023.
A crise da pandemia conduziu a vagas migratórias de grande dimensão com as consequências políticas, sociais e económicos conhecidas, fazendo crescer o populismo.
Se recuarmos no tempo e nos situarmos nas consequências da implosão da ex-URSS e com esta com a queda do mundo de Berlim, verificamos que os países com regimes autoritários, de direita ou de esquerda, tiveram de promover transições para regimes democráticos, em função dos novos ventos que sopravam.
Em muitos casos, estas transições foram levadas a efeito por forma mecanicista, limitando-se ao princípio de que a cada cidadão pertencia um voto, sem se acautelarem molas amortecedoras em Estados que ainda não eram nações, pela existência de múltiplas etnias com identidades e afirmações próprias.
No caso da ex-Jugoslávia, situada na Europa, a tensão étnica conduziu a um conflito muitíssimo sangrento, com impactos que ainda hoje existem, dando lugar à dissolução do Estado e à criação de 7 novos estados, isso para não falar no que ocorreu no Rwanda ou em outros países africanos, da Somália à República Democrática do Congo.
O Caso de Angola, tendo feito a transição para a democracia sob forte tensão conflitual, numa guerra com intervenções de potências estrangeiras, dada a longa duração, fez mobilizar e circular, durante muitos anos, os combatentes dos dois lados do conflito por todo o País, contribuindo, assim, para acelerar a integração a propiciar o aceleramento da noção de Nação, caso invulgar em qualquer outro significativo país da África subsaariana.
A circunstância de, por efeito da guerra, ter havido uma grande concentração de cidadãos nas principais cidades, vindos de todo o País, cidades essas que cresceram exponencialmente, mais contribuiu paro o reforço da integração identitária angolana.
Isso em parte explica os resultados nos nove municípios de Luanda nas últimas eleições legislativas pela UNITA, bastião histórico do MPLA.
O facto de a esmagadora maioria da população ser muito jovem e os originários das duas maiores etnias se encontrarem dentro do território fazem convergir condições únicas em África para Angola poder e vir a ser modelo e exemplo de uma democracia liberal.
Para isso, é imperioso que os principais partidos políticos angolanos dinamizem esforços de convergência para este objectivo que pode e deve ser assumido como um desígnio nacional.

A democracia liberal será o futuro se souber aprender com os erros.