O regresso de milhares de famílias às suas casas representa, sem dúvida, uma notícia positiva. Depois de dias marcados por medo, deslocações, perdas materiais e incerteza, muitas famílias puderam finalmente voltar ao lugar onde viviam. Esse é um momento que merece ser celebrado.
Importa, antes de mais, reconhecer o esforço realizado até aqui. Em poucas semanas, 4.280 famílias regressaram a casas que estiveram submersas, mas não totalmente destruídas. Houve cadastramento das vítimas, categorização dos danos e mobilização de recursos para responder a uma situação particularmente difícil. O governo central, através do Despacho Presidencial n.º 185/26, mobilizou mais de 356 mil milhões de kwanzas para obras de mitigação, reassentamento e recuperação. São medidas necessárias e urgentes perante uma tragédia que provocou 19 mortos, 31 desaparecidos e afectou mais de oito mil famílias.
Nenhuma resposta a uma catástrofe desta dimensão será perfeita. Quem conhece a realidade das emergências sabe que decisões desta natureza precisam muitas vezes de ser tomadas rapidamente, em circunstâncias difíceis e com recursos limitados. Ainda assim, a capacidade de mobilização demonstrada até agora merece reconhecimento.
Mas talvez seja precisamente agora - quando as águas baixam e as famílias regressam - que começa a fase mais delicada da recuperação.
Porque regressar a casa não significa necessariamente regressar à normalidade.
Imagine-se uma mãe que regressa à sua residência depois de dias de deslocação e incerteza. Abre a porta e encontra o silêncio pesado de uma casa onde a água entrou sem pedir licença. Os colchões estão inutilizados. Os armários inchados pela humidade já não fecham. Os alimentos guardados para sustentar os próximos dias apodreceram. O pequeno congelador onde vendia sumos, água fresca ou peixe para complementar o rendimento da família deixou de funcionar. As roupas das crianças desapareceram na enxurrada. Os cadernos da escola transformaram-se em papel colado pela lama. As ferramentas de trabalho do pai foram levadas pela corrente.
Mas talvez o mais difícil não seja apenas aquilo que se perdeu. Talvez seja a sensação de voltar ao mesmo lugar e já não reconhecer a vida que ali existia antes.
As paredes continuam de pé, sim. Mas as valas de drenagem e as linhas de água permanecem entupidas. A água para consumo doméstico - venha ela de poço, nascente ou da rede pública - pode estar contaminada. O quintal onde as crianças brincavam está coberto de resíduos. O medo da próxima chuva permanece dentro da casa, mesmo depois de a água ter baixado.
O que esta família encontrou quando regressou? Uma estrutura física que resistiu à cheia. Mas um lar é mais do que paredes. Um lar é segurança, estabilidade, rotina, sustento e tranquilidade. E uma parte importante de tudo isso ficou para trás com a corrente das águas.
Regressar fisicamente é um passo indispensável. Mas é apenas o primeiro passo de uma caminhada mais longa: a reabilitação.
Reconstrução e reabilitação não são sinónimos. A reconstrução repara o que foi danificado. Limpa-se a lama, substitui-se uma porta, recupera-se um telhado. É uma resposta física, material e visível. É indispensável.
Mas reabilitar significa algo mais profundo. Significa restaurar os meios de vida, garantir o regresso seguro das crianças às escolas e reduzir as vulnerabilidades que tornam estas comunidades tão expostas a cada nova época chuvosa. Reabilitar é olhar para a frente e não apenas tentar voltar ao ponto onde tudo estava antes da tragédia.
O que se observa até agora é um esforço importante de reconstrução física. E isso é positivo. Mas talvez ainda falte ampliar a reflexão sobre aquilo que significa recuperar verdadeiramente.
Importa também ir além da explicação imediata de que "choveu muito". O dique do Rio Cavaco rompeu-se. Há quem aponte causas mais profundas, como o assoreamento do leito e a insuficiente manutenção das barreiras de contenção. Mais preocupante ainda: problemas semelhantes ocorreram em 2003 e 2004, e o dique foi, segundo vários relatos, "construído e reconstruído várias vezes" sem que se alcançasse uma solução duradoura.
O próprio governador reconheceu a existência de outras áreas vulneráveis ao longo do rio e admitiu a necessidade de um estudo aprofundado para uma "solução definitiva". Se o problema é conhecido há anos, talvez seja legítimo perguntar porque continuam tantas famílias expostas aos mesmos riscos. E, se necessário, apurar responsabilidades para que os mesmos erros não se repitam.
Com respeito pelo trabalho já realizado, permitimo-nos deixar algumas sugestões de reflexão para os próximos meses.
Primeira sugestão: olhar para a água que as famílias consomem.Depois de inundações, aumenta o risco de doenças de origem hídrica. Muitas famílias regressam a bairros onde as fontes de água podem ter sido contaminadas. Um programa simples de testagem da água e distribuição de pastilhas de cloro poderia evitar surtos graves - e custaria muito menos do que tratar centenas de doentes posteriormente.
Segunda sugestão: apoiar a recuperação económica das comunidades.Muitas famílias perderam não apenas bens domésticos, mas também os instrumentos que garantiam o sustento diário. Pequenos comerciantes perderam mercadorias. Trabalhadores perderam ferramentas. Famílias perderam fontes de rendimento. Programas temporários de trabalho comunitário, ligados à limpeza das valas, recolha de resíduos e recuperação de pequenas infra-estruturas locais, poderiam injectar rendimento nos bairros afectados, acelerar a recuperação e devolver dignidade a quem prefere trabalhar para reconstruir a própria vida.
Terceira sugestão: ouvir directamente as comunidades afectadas.Nenhum gabinete provincial, municipal ou ministerial consegue conhecer plenamente as necessidades específicas de cada bairro. Uma escuta organizada com líderes religiosos, associações de moradores e representantes comunitários poderia ajudar a identificar prioridades que muitas vezes escapam aos relatórios técnicos. Há famílias que precisam de sementes. Outras de ferramentas de trabalho . Outras de pequenos créditos para retomar actividades comerciais. Outras ainda precisam de apoio psicológico para lidar com o trauma vivido. Escutar as comunidades pode ajudar a tornar as respostas mais humanas, mais próximas e mais eficazes.
Quarta sugestão: aproveitar esta fase para construir de forma mais segura.Se uma casa foi totalmente destruída, talvez faça sentido reconstruí-la em zonas menos vulneráveis, com fundações mais elevadas ou materiais mais resistentes. Se determinados bairros permanecem constantemente expostos ao risco de inundação, talvez seja necessário discutir seriamente o ordenamento do território. São decisões difíceis, naturalmente. Mas adiá-las poderá significar repetir a mesma tragédia dentro de poucos anos.
Quinta sugestão: não esquecer as famílias que continuam nos centros de acolhimento.Mais de quatro mil famílias regressaram às suas casas, mas muitas outras continuam à espera de soluções porque as suas habitações ficaram parcial ou totalmente destruídas. O avanço conseguido até agora não deve diminuir a atenção dedicada aos que ainda permanecem deslocados.
Ninguém pode exigir que as autoridades tenham todas as respostas no imediato. As cheias foram devastadoras e a resposta demonstrou capacidade de mobilização. O que se sugere é apenas que o regresso a casa não seja encarado como o fim do problema, mas como o início de uma fase diferente - mais calma, mais planeada, mas igualmente urgente.
O anúncio de um estudo para uma "solução definitiva" para o Rio Cavaco é uma boa notícia. Oxalá esse estudo se traduza em acções concretas: diques bem dimensionados, sistemas de alerta precoce, melhoria das drenagens, fiscalização das zonas de risco e políticas urbanas mais responsáveis.
O verdadeiro desafio começa agora: transformar estudos em obras, promessas em prevenção efectiva e emergência em planeamento duradouro. Tudo isso custa dinheiro, naturalmente. Mas custa menos do que reconstruir as mesmas comunidades depois de cada nova cheia.
Cabe também à sociedade civil acompanhar, participar e manter viva a memória do que aconteceu. Porque tragédias repetidas deixam de ser apenas naturais quando os problemas já eram conhecidos e continuam sem solução duradoura.
Porque, no fundo, não se trata apenas de sobreviver à tempestade. Trata-se, finalmente, de aprender a lição da formiga.
*Coordenador OPSA
