Mas poderia citar outras mais, de nacionalidades diversas, por desempenho semelhante, fazendo igualmente jus ao provérbio bem conhecido: "Atrás de um grande homem está uma grande mulher."
Agora, depois de ter lido as cartas que Maria Eugénia enviou a Agostinho Neto na prisão, tomo-as, no conjunto, como um documento histórico (segundo Lucien Febvre a história faz-se com todos os textos) que ela começou a escrever em Julho de 1955, estando ele já na prisão da PIDE no Porto, transferido, sem culpa formada, da prisão de Caxias, onde ficara detido em Fevereiro do mesmo ano.
Nessa época, sendo Maria Eugénia uma colegial menina lisboeta de 20 anos de idade, tendo Neto mais de 30, não imaginava que escreveria cartas para registar memórias, pensando antecipada e preventivamente como o famoso Gabriel García Márquez: "Geralmente as memórias são escritas quando o seu autor já não se lembra de nada, e eu acho que deve começar-se mais cedo a escrevê-las." Ou, se lhe fosse dado reflectir já sobre o futuro, pudesse repetir outro famoso escritor que ela também ainda não conhecia, John Steinbeck: "A verdade dos historiadores só é verdade até que alguém passe e faça um novo arranjo do mundo no seu próprio estilo." Como hoje é consabido...
Na verdade, o "estilo" de Maria Eugénia, fundido no teor daquelas suas cartas, era, inamovivelmente, ela própria, amiga, desde os 16 anos, do estudante angolano Agostinho Neto, por circunstância do local de encontros na mesma rua onde a mãe era cabeleireira de senhora angolana e em cuja morada se reuniam figuras ligadas ao movimento independentista de Angola.
Desses encontros ocasionais resultou um mútuo conhecimento de ideias e gostos literários que haveria de gerar uma mútua simpatia, extensiva aos revolucionários que frequentavam aquela morada e tratavam mesmo por Jeny a menina branca que participava em grupos corais, estudava francês e escrevia versos num semanário de pendor progressista chamado Gazeta do Sul e se editava em Montijo.
(Diga-se que eu próprio era, na mesma época, colaborador daquele semanário, enviando de Angola contos e artigos).
Não seria despiciendo naquela geral simpatia o facto de Maria Eugénia ser filha de um marítimo enfermeiro, que também viajava por África, ao mesmo tempo que Agostinho Neto participava na formação de um Clube Marítimo para congregar os marítimos angolanos que rumavam a Lisboa.
Certamente por algumas afinidades temáticas e literárias, a Gazeta do Sul era uma das poucas e vigiadas publicações que ele recebia de Maria Eugénia, a par de remessas regulares de artigos e roupas que amenizavam o regime presidiário, porém sem darem lugar a comentários críticos que aliás a censura policial não permitiria. Donde, o substancial das cartas eram as informações sobre as respectivas famílias e amigos e o estado de saúde dos dois, o dele baseado obviamente em respostas mais sugeridas que concretas.
Ocasionalmente, Maria Eugénia referia-se a leituras e autores editados em Portugal, como Ferreira de Castro, Eça de Queirós, Júlio Dinis, Soeiro Pereira Gomes e Fernando Pessoa, que motivariam as respostas positivas dele, necessariamente vagas, o que já não acontecia quanto a autores de eleição de Maria Eugénia, como João de Deus e Florbela Espanca...
Destas cartas, cujo efeito real conheceríamos se não se tivessem extraviado as cartas de resposta do destinatário, uma coisa emerge: por elas logo se avalia o que foram os anos de prisão, em isolamento e tortura, de Agostinho Neto, até ao incrível julgamento no Porto, em 1957, ao lado de mais cinquenta opositores ao regime fascista português, seguido do desterro em Cabo Verde.
Foram cartas deliberadamente omissas da verdadeira e íntima paixão que começou, nela, na adolescência, - declarada inimiga de exposição pública - por um estudante de Medicina negro, o que desafiava o costume e o preconceito. Só isto começaria por fazer história... Que também seria a de um amor inaudito que ela não deixaria de exprimir nas suas cartas, intencionalmente contidas, se transcrevesse aquele significativo primeiro poema da série "He hum não querer mais que bem querere" (Camões), de Florbela Espanca:
Gosto de ti apaixonadamente,
De ti que és a vitória, a salvação.
De ti que me trouxeste pela mão
Até ao brilho desta chama quente.
A tua linda voz de água corrente
Ensinou-me a cantar...e essa canção
Foi ritmo nos meus versos de paixão,
Foi graça no meu peito de descrente.
Bordão a amparar minha cegueira,
Da noite negra o mágico farol,
Cravos rubros a arder numa fogueira!
E eu, que era neste mundo uma vencida,
Ergo a cabeça ao alto, encaro o Sol!
-Águia real, apontas-me a subida!
