Para quem conhece a realidade angolana, levanta, legitimamente, algumas dúvidas sobre se a escolha do nosso País, dentre os 10 melhores destinos mundiais do turismo, resulta de uma escolha sincera, como fruto de um forte investimento feito no sector ou de um mero exercício de propaganda que terá custado largos milhares de dólares norte-americanos aos cofres do erário.
O pacote turístico, que está a ser "vendido" aos potenciais visitantes, parece enquadrar-se naquele princípio que o então ministro de Estado Marcy Lopes defendeu, há uns anos, em Lisboa, quando, num encontro com angolanos na diáspora, lhes recomendou para que recorressem à mentira para atrair os investidores estrangeiros.
Segundo o governante, os angolanos deveriam dizer aos estrangeiros que Angola era um País, usando a metáfora, uma casa que reunia boas condições de habitabilidade, mesmo sabendo, à partida, que tinha rupturas na sua canalização que inundava o seu interior.
Por infeliz coincidência, a elevação do nome de Angola na rota do turismo mundial ocorreu numa altura em que o Presidente da República se encontrava nas Ilhas Seychelles, em férias.
Embora lhe assistisse o direito de escolher os locais e os países onde melhor lhe aprouvesse passar as suas férias, a opção de João Lourenço pelas praias paradisíacas de um país do Índico não deixou de ser, no mínimo, um paradoxo, já que ele tem sido um dos maiores, senão o maior impulsionador da atracção do turismo em Angola, convidando, em diversos fóruns internacionais em que participa, os estrangeiros para que visitem o nosso País.
Que Angola possui inúmeras potencialidades turísticas, belezas naturais capazes de deslumbrar qualquer visitante, disso não existe a menor dúvida!
O País foi bafejado com uma rica e diversificada fauna e flora, dispõe de lindas praias, rios majestosos que serpenteiam entre montanhas de escarpas esverdeadas, ou ainda de raridades como a Palanca Negra Gigante, um género de antípole que apenas existe em Angola, bem como a Welwitschia Mirabilis, uma planta exótica de raízes profundas, salpicada no deserto do Namibe.
A par da exuberante riqueza faunística e florestal, e dos vários locais de atracção turística, os promotores da campanha têm dado grande ênfase ao facto de Angola ter abolido, recentemente, vistos de entrada para cidadãos de quase uma centena de países, assim como de ter procedido à inauguração de um novo aeroporto internacional de Luanda, com capacidade de movimentar 15 milhões de passageiros, dentre os quais 10 milhões de turistas.
A dispensa de vistos de entrada pode facilitar a mobilidade dos visitantes estrangeiros, mas por si só não constitui uma garantia do fomento do turismo, assim como um bom aeroporto, por mais moderno e sofisticado que seja, não faz de um país um pólo de atracção turística.
Verdade seja dita, ainda que isso possa ferir o orgulho e os excessos de patriotismo de alguns, o nosso País não é um destino turístico de eleição devido a uma série de factores que muitos conhecem, mas que os responsáveis políticos e as entidades do sector fingem não enxergar.
Dentre os motivos que emperram o desenvolvimento do turismo ou da também conhecida indústria da paz, avultam a falta de estradas, muitas delas esburacadas, inseguras, os excessivos controlos e "pentes" policiais ao longo das vias, mau fornecimento de água e electricidade, deficiente rede hoteleira que tem estado longe de praticar serviços de qualidade e a preços compatíveis; os constrangimentos que se registam no funcionamento das comunicações digitais, sobretudo da rede de telefonia móvel, internet e na "proibição" do uso de máquinas fotográficas e filmar por parte dos turistas, a falta de recursos humanos (guias e intérpretes), ou ainda a ausência de casas de câmbios, assim como a crónica desorganização.
Apesar de algumas vozes desvalorizarem a questão das estradas, com o argumento de que o ecoturismo não requere estradas asfaltadas, o facto é que Angola não possui as vias secundárias e terceiras em condições, para além de não dispor no meio rural de estruturas hoteleiras e unidades de saúde que prestem serviços minimamente aceitáveis.
Nesta vasta campanha, salta à vista o facto de as atenções estarem apenas viradas para a atracção do turismo externo em detrimento do nacional.
O Estado não deve apenas promover o turismo estrangeiro, que possa gerar boas receitas, mas também o nacional que sirva de lazer, de elevação e de intercâmbio de conhecimentos entre os locais e os visitantes.
Não seria altura de o Ministério da Cultura e do Turismo apostar na criação de parques de campismo para incentivar o chamado "turismo do pé descalço", sobretudo entre os jovens de baixa renda, que não dispõem de capacidade para custear as despesas dos hotéis ou pensões?
Estou recordado dos anos de 1980 quando, em Portugal, cruzava com milhares de jovens, de enormes mochilas às costas, provenientes de diversas partes da Europa, que se alojavam em parques de campismo, onde eles podiam pernoitar em tendas, com equipamentos sociais onde podiam cozinhar, lavar a roupa e assistir programas televisivos.
Com parcos recursos financeiros, muitos daqueles jovens tiveram a possibilidade, naquela época, de conhecer outras realidades fora das suas terras de origem, conhecer o mundo e dar-se a conhecer.
Não se promove o turismo com publicidades aparentemente enganosas ou com empolamentos por ser uma indústria bastante sensível, cujo mau ou deficiente funcionamento pode desviar os turistas para outros destinos.
