Um acrescento diário de esperança nas negociações de paz iraniano-americanas na Suíça, mesmo que das margens do Lago Lucerna cheguem pontuais notas de desacordo, tem reduzido em sentido inverso o ritmo do valor do crude.

A 02 de Março, a segunda-feira seguinte e dia de reabertura dos mercados após os ataques injustificados e ilegais da coligação israelo-americana contra o Irão, ocorridos no Sábado, 28 de Fevereiro, o barril trepou para cima dos 75 USD, mais 5 dólares...

... naquilo que se percebeu imediatamente que seria uma nova explosão dos mercados para lá dos 100 USD mais dia menos dia, o que viria a suceder cerca de 10 dias depois, a 12 de Março, mantendo-se nas alturas até que Washington e Teerão tiraram o dedo do gatilho.

Isso foi sendo assim, e o seu contrário, com saltos e recuos sucessivos movidos pelas publicações do Presidente dos EUA na rede social Truth Social, com oscilações impróprias para cardíacos até que no início deste mês de Junho encetou uma descida coerente, mas lenta.

Tudo, porque as negociações de paz entre iranianos e americanos foram sendo cada vez mais levadas a sério nos mercados, até que nos últimos dias o Estreito de Ormuz alargou-se para os superpetroleiros encalhados no Golfo há mais de dois meses.

E foi assim que, também como se estava a adivinhar, o barril de Brent voltou, em Londres, a assentar arrais, tal como o WTI, em Nova Iorque, nos valores que, mais cêntimo, menos cêntimo, tinha quando a guerra começou.

Pelas 09:20 desta quarta-feira, 24, o barril de Brent, a referência maior para as exportações angolanas, estava a valer 75,5 USD, com tendência para acentuar a queda, a esta hora, na hora de Luanda, que já era superior a 2%.

A alargar ainda mais o Estreito que liga o Golfo Pérsico, fonte de 20% do crude e do gás mundiais, ao Oceano Índico, surgiu esta manhã a notícia de que a agência da ONU para o trânsito marítimo global, a IMO (sigla em inglês) a garantir a segurança naquela passagem estratégica.

Isto, ao mesmo tempo que entre os países do Golfo emergem dados que apontam para o regresso aos níveis de exportações prévios ao conflito lançado por Israel e EUA contra o Irão, com os Emiratos Árabes Unidos a registarem já perto de 85% desses valores no que diz respeito ao petróleo.

E prevê-se, pelo menos é isso que pensa a maioria esmagadora dos analistas, que nos próximos 60 dias este refluxo vai intensificar-se porque é o prazo oficial para que as partes concluam os passos para a paz no Memorando de Entendimento (MeD) negociado na Suíça.

O prazo que o Irão viu ser-lhe concedido temporariamente para poder voltar a vender o seu crude nos mercados internacionais sem as grilhetas das sanções ocidentais, especialmente as norte-americanas, o que pode só por si representar mais 3 milhões de barris por dia nos mercados internacionais.

Este regresso do crude do golfo à circulação global está a permitir aliviar o stresse gigantesco em que já estavam as reservas estratégicas globais, usadas abundantemente para manter os preços durante esta crise em valores "razoáveis".

Foi por isso que, apesar de quebras muito maiores que o que aconteceu em 2007/08, o barril nem sequer se aproximou do recorde mundial dos147 USD de Junho de 2008, mas deixou a ver-se o fundo das reservas estratégicas dos EUA, que estavam a 3 semanas de secar, como confirmou o próprio Donald Trump.

Embora valores se tenham mantido abaixo dos de 2008, estiveram ainda assim na condição de bonança para os países petrodependentes como ainda é o caso de Angola, que viveu estes cerca de e meses de bonança para as suas contas públicas, como, de resto, sucedeu com muitos outros com economias semelhantes.

Ainda assim, estes 75 USD registados nesta manhã de quarta-feira, 24, estão sobejamente além dos 61 USD usados como valor médio de referência para o OGE 2026 pelo Governo angolano, representando um "superavit" de perto de 14 USD.

Perante a imprevisibilidade deste contexto, até porque existem sinais de que esta acalmia pode ser de curta duração, como todos os países exportadores e com economias petrodependentes, Angola está numa natural expectativa para ver como correm os meses, semanas, dias, ou horas, que se seguem.

É que este acordo de paz não é do agrado de todos e entre as forças que se lhe opõem em Washington e em Telavive, estão poderosas "mandíbulas" que o podem rasgar de um momento para o outro...

Isto, a par das dúvidas que já começam a ser levantadas entre alguns analistas sobre se não se está a viver mais um momento teatral der Trump devido às eleições intercalares de Novembro e a reposição das reservas queimadas durante a crise para depois voltar com o dedo ao gatilho...

Angola soma ganhos, mas..

O actual cenário internacional tende ainda a manter os preços acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, 61 USD, que compara ainda com os actuais 75, 5 USD, no caso do Brent, perto de 14 USD acima do OGE do ano corrente.

Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.

Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.

O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.

O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.

Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.

Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.

A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.