Não há desenvolvimento desportivo sustentável sem educação, nem educação transformadora quando a cultura, o desporto e a leitura caminham separados.

A mais recente edição do programa «Conversa à Sombra da Mulemba», conduzido pelo Raimundo Salvador, trouxe para o centro do debate o extraordinário papel das bibliotecas comunitárias do Cazenga.

A oportunidade é particularmente relevante porque recorda uma verdade muitas vezes esquecida: uma biblioteca comunitária não é apenas um local onde se guardam livros.

É um espaço de cidadania, de inclusão social, de construção de pensamento crítico e de promoção da igualdade de oportunidades.

A história da Biblioteca Comunitária Multicultura, idealizada por Ernesto Macuanda, demonstra que as grandes transformações nem sempre começam com grandes recursos.

Começam, muitas vezes, com uma visão e um compromisso com a comunidade. O projecto nasceu debaixo de uma árvore e evoluiu para um espaço que promove leitura, reforço escolar, música, artes plásticas e formação humana.

Este exemplo confirma que a Constituição da República de Angola não deve ser lida apenas como um catálogo de direitos. O direito à educação, à cultura e ao desporto deve ser concretizado através de políticas públicas, mas também pelo incentivo às iniciativas da sociedade civil que aproximam esses direitos das populações.

A Lei de Bases do Sistema de Educação e Ensino reconhece a educação como um processo de formação integral da pessoa humana.

É precisamente essa visão que deve inspirar os clubes desportivos modernos. Um clube não existe apenas para ganhar torneios. Existe para formar cidadãos. A disciplina, o respeito pelas regras, a capacidade de trabalhar em equipa e o gosto pelo conhecimento são competências que se aprendem tanto numa biblioteca como num campo de jogos.

No Clube Escola Desportiva Formigas do Cazenga essa tem sido uma preocupação permanente. O acompanhamento escolar dos atletas, a valorização da leitura e o incentivo ao sucesso académico fazem parte da missão institucional do clube, porque o verdadeiro triunfo mede-se pela capacidade de transformar vidas.

O debate promovido pela «Conversa à Sombra da Mulemba» deixa igualmente um desafio aos decisores públicos e ao sector privado: apoiar bibliotecas comunitárias não representa uma despesa, mas um investimento social de elevado retorno.

Cada livro lido, cada criança acompanhada e cada jovem integrado através do desporto representam menos exclusão e mais desenvolvimento.

Talvez seja tempo de deixarmos de olhar para educação, cultura e o desporto como sectores autónomos.

São pilares da mesma estratégia de desenvolvimento humano. Quando trabalham em conjunto, reduzem desigualdades, fortalecem comunidades e ampliam oportunidades.

Continuo, por isso, a defender que o maior campeonato de Angola não será conquistado apenas nos pavilhões ou nos estádios.

Será vencido quando conseguirmos garantir que cada criança tenha simultaneamente acesso à escola, ao livro, à biblioteca e ao desporto.

Nesse dia estaremos, verdadeiramente, a cumprir o espírito da Constituição e a investir no futuro do País.n

*Presidente do Clube Escola Desportiva Formigas do Cazenga