Em 2025, depois de um período de mais estabilidade, foram registadas "11 mortes por suicídio", avançavam os órgãos de comunicação social portugueses falando da realidade do seu país. E em Angola? Como é que a questão da saúde mental nas forças de segurança é tratada, como é que é ela discutida e trabalhada? Urge um olhar e uma abordagem séria sobre um tema que deve ser colocado na agenda das chefias da corporação.
A polícia hoje é considerada uma das profissões mais estressantes do mundo, devido a questões como o contacto directo e permanente com a violência, o horário de trabalho prolongado, baixos salários, inflexibilidade de escalas, e ambiente nocivo e de pressão em muitas instituições.
Gina é nome fictício de uma oficial da Polícia Nacional de Angola(PNA) com quase 16 anos de casa que me contactou porque está a passar por uma crise depressiva. Ela sempre trabalhou na área administrativa, sempre foi uma executiva como me disse, mas agora recebeu uma transferência provisória (e não definitiva) para uma área operativa numa província que fica há mais de 400 quilómetros de Luanda. Terá de se apresentar no novo posto imediatamente, por sua conta e risco. Vive há meses uma situação profissional de grande pressão, de humilhação e num ambiente de trabalho que considera bastante nocivo.
Em depressão, quando comunicou as competentes estruturas da corporação sobre a sua situação disseram-lhe indirectamente que estava a "representar", a "criar manobras" para atrasar a transferência...! Uma autêntica falta de reconhecimento pelo esforço realizado, trabalho em condições precárias, enfrentando falta de equipamento, baixos salários, pressão social, falta de folgas e excesso de trabalho! A saúde mental nas forças de segurança deve ser trabalhada de forma preventiva, e não apenas quando já existem sinais evidentes de dificuldades... uma maior atenção, uma abordagem preventiva é importante! No nosso país, não trabalhamos com números, com dados, e assim fica difícil trabalhar na prevenção das doenças do fórum mental!
Tivemos recentemente casos em Luanda e no Cunene onde agentes das forças de segurança tiraram a vida de companheiros da estrutura de forma leviana e por alegadas razões passionais, um sinal de alguma coisa não anda bem do ponto de vista psicológico; são factos e não meras opiniões circunstanciais. E a grande questão é esta: "Quem trata da Polícia?" Ou melhor, "como é que ela se trata?" Obviamente que o caso da Gina não é isolado... devem haver elevados níveis de stress no seio da corporação, e, com poucos a procurar apoio psicológico - se é que existe -, "Como é que feito o acompanhamento dos profissionais expostos à elevados níveis de pressão?" "Como é que os agentes gerem as emoções e lidam com a pressões?"
Não se pode ignorar quando a polícia se mata entre si... é um sinal de que alguma coisa não está bem! Quando na abordagem aos cidadãos e/ou a colegas um agente da polícia usa expressões como " Eu também já ando frustrado com esta porcaria", "vou fatigar aqui um gajo e mando lixar" e "aqui são todos malaiques e eu não quero saber desta me**a", é algo a não encarar de ânimo leve.
Assim, urge um investimento e maior atenção na saúde mental dos efectivos das forças da PNA e outras instituições afectas ao Ministério do Interior, MININT, devendo ser compatível com os que são feitos em muitos sectores da instituição.
Os cidadãos precisam de ter uma polícia em prontidão, sã e saudável para os atender, para os proteger; uma polícia que lhes inspire confiança e garanta segurança, pois se aos seus "companheiros de caserna" não perdoa no que diz respeito à sua integridade física, como será com os cidadãos? Que esta Gina e todas outras que existem na corporação consigam encontrar apoio e tratamento adequado.
É importante encarar esta situação com bastante preocupação e procurar soluções. A saúde mental nas forças de seguranças é algo que não se resolve com discursos ocasionais e com algum floreado, nem com " lives"... é algo muito mais profundo! É algo que está a afectar e a tirar muitas vidas...!"quem cuida daqueles que têm de nos proteger?" "Quem cuida daqueles que têm de cuidar de nós?" "Quem vai cuidar da Gina?" "Quem cuida da Polícia?"










