Esta é uma situação em que o jogador é obrigado a fazer uma jogada, mas qualquer movimento disponível vai piorar a sua situação, levar a perda de material ou resultar em xeque- mate. É a triste necessidade de ter de jogar, não se pode passar a outro a sua jogada, ou seja, não é permitido " passar a vez", somos obrigados a jogar, ainda que nos seja prejudicial. E quando um jogador está em " Zugzwang", a própria obrigação de mover é o que dita a sua derrota.
Os franceses usam a expressão " La piéce touchée, piéce jouée", ou seja : peça tocada, peça jogada! As pessoas têm de aceitar, de assumir as consequências dos seus actos. O jogador não pode passar a sua vez e nem pode manter as peças no lugar onde estão, tem de jogar. "Não duvidem das nossas boas intenções relativamente a este passo muito sensível que estamos a dar, se quisermos olhar para o passado histórico dos nossos relacionamentos", chegou a afirmar o Presidente João Lourenço em Dezembro de 2022, citado pelo Governo norte- americano, no auge daquela que acabei por chamar de sua " paixão americana". Na altura, o nosso " exímio xadrezista" chegou a admitir mudanças no jogo de parcerias estratégicas. O chefe de Estado assumiu que Angola estava a fazer esta mudança de alinhamento por si , não contra ninguém, mas que " tinha optado pelos EUA e pelo Ocidente em geral", depois de décadas lado a lado com a Rússia e a China. João Lourenço iniciou a sua " paixão americana" na era Biden com alinhamentos globais e estratégicos. E já na actual era Trump tem procurado fazer perceber, conforme citou o NJ na sua edição online, que ao reposicionar-se geoestrategicamente com os EUA e a União Europeia, havia uma condição prévia: Não deixar cair Angola!
A visita do Presidente Joe Biden ao nosso país em Dezembro de 2024, numa altura em que Donald Trump já era o Presidente eleito dos EUA, também foi algo que não agradou muito o actual inquilino da Casa Branca. Certo também é que desde a chegada de Trump à Casa Branca, deixou de se olhar para o continente africano da mesma forma que Joe Biden o fazia. O Tenente- General John Brennan, Vice- Comandante do Comando dos Estados Unidos para África, disse em entrevista concedida ao NJ e publicada na sua edição 951 de 21 de Agosto que "O AFRICOM continuará a apoiar a segurança de Angola para que os angolanos possam beneficiar dos seus recursos soberanos", acrescentando ainda que os EUA têm estado a ajudar Angola a reforçar a sua vigilância marítima. Assumindo mesmo que "as relações de defesa entre os Estados Unidos e Angola estão a desenvolver com sucesso uma parceria estratégica de longo prazo, com uma trajectória clara para um crescimento continuo ".
Este é um optimismo que as chefias militares do EUA têm e que do lado angolano é partilhado pelo Presidente João Lourenço e um grupo muito restrito de chefias militares. Os americanos vão sentido que existem " forças de bloqueios" nas estruturas intermédias das Forças Armadas Angolanas ( FAA) na implementação desta cooperação e por várias razões. Primeiro pelo próprio passado histórico de conflito no período da Guerra Fria e de luta contra o regime do Apartheid na África do Sul. Existe também uma realidade que não pode ser ignorada, a que grande parte da elite castrense angolana foi formada nas academias militares da antiga União Soviética ou em países da Europa do Leste; há valores, ideologias e metodologias que ainda permanecem enraizadas.
Depois temos o facto de que este alinhamento geoestratégico de João Lourenço com os EUA não foi objecto de uma abordagem ampla no seio das FAA, ou seja, nunca foi bem esclarecido. Por último, existe também algo importante: A maior parte da estrutura castrense angolana acha que os americanos não são confiáveis, daí os vários "focos de resistência" nesta cooperação e de muitas coisas não estarem a andar com a velocidade que Washington desejava. Sem esquecer que as FAA ainda usam meios da Rússia e existe um importante grupo de conselheiros russos nas diferentes estruturas das nossas forças armadas. O vídeo feito por mim no Hotel Intercontinental onde o Major- General português Agostinho Costa surge a ser " disputado" por altas patentes militares angolanas para fazer fotos é bem revelador das simpatias e alinhamentos da nossa " tropa" tendo em conta os seus posicionamentos como comentador na comunicação social de Portugal.
A um ano do fim do seu mandato, João Lourenço não pode " passar a sua vez" e vai ter de continuar o movimento. Vai ter de fazer o seu " Zugzwang", e parece que já não tem muita margem de manobra para recuar. É a própria obrigação de mover que dita a sua derrota.
