Com efeito, se se olhar para o período de vigência desta montanha-russa, que começou a 28 de Fevereiro, com o ataque israelo-americano ao Irão, se sair deste "calendário" o período de 09 a 22 de Abril, o barril esteve sempre de mãos dadas com os 100 USD.
Subindo e descendo ao ritmo da inconstância das declarações do Presidente Donald Trump, mas nunca a perder de vista deste valor/fasquia, o que começa a servir de referência para os analistas começarem a admitir que por ali ficará nos próximos anos.
E a razão é simples e está no Estreito de Ormuz, que está fechado, total ou parcialmente, há três meses, retirando entre 15 e 20 milhões de barris de circulação todos os dias, o que é muito mais do que alguma vez aconteceu por tanto tempo.
Faith Birol, director-geral da Agência Internacional de Energia (AIE), assume mesmo o risco de advertir que o mundo nunca viveu uma crise como a actual e nem o histórico choque petrolífero de 1973 teve esta dimensão, o que permite admitir que a mais drástica das consequências ainda estará para chegar...
Então porque é que os mercados não explodem como, por exemplo, explodiram em 2028 por muito menos? Porque os grandes países em termos de reservas estratégicas e a Agência Internacional de Energia estão, semana após semana, a libertar reservas.
Com isso aplacam a sede da economia mundial por crude ao mesmo tempo que se verifica que a economia planetária não só está a crescer menos no lado da procura que o esperado como tem, aqui e ali, perdido fulgor consumista.
Mas a um preço que pode ser muito caro. Se o Estreito de Ormuz se mantiver fechado ou parcialmente aberto, o fornecimento pode vir a equilibrar com a procura, mas não poderá, sem um fluxo crescente, chegar para tapar os buracos deixados para trás neste período.
E sem essa absoluta normalização, os mercados estarão sempre pressionados, o que alguns analistas apontam já como razão mais que suficiente para não permitir que o barril veja o seu valor descer para onde estava antes de 28 de Fevereiro, ficando por muito tempo, anos mesmo, à beira dos 100 dólares, no caso do Brent.
Até porque, naquilo que é já um padrão adivinhável por especialistas mais atentos, sempre que o barril ameaça esvaziar para baixo dos 90 USD, que é mais ou menos o valor do breakeven do barril na indústria do fracking norte-americano, algo sucede para voltar a engordá-lo.
E desta feita foi um inesperado, surpreendente e, até ver, sem nenhuma justificação observável, ataque dos norte-americanos, quando decorrem negociações que Washington considera positivas, a posições iranianas junto ao Estreito de Ormuz, na cidade portuária de Bandar Abbas.
O que fez o valor do barril, tanto no Brent, como no nova-iorquino WTI, saltar uns dólares, em Londres para até 102 USD, tendo depois baixado para os 99,7 USD, perto das 14:30, hora de Luanda, e nos EUA, para os 92,4 USD, á mesma hora desta terça-feira, 26.
Perante este cenário é já claro que, se não voar um "cisne negro" sobre o Golfo Pérsico, mesmo que nos próximos dias, ou até horas, aconteça um acordo de paz entre iranianos e americanos, ou mesmo e apenas um memorando de entendimento que ponha um ponto final nesta guerra, o barril pode flutuar com mais ou menos lastro, mas navegará sempre na cabotagem dos 100 USD como horizonte.
O que, para um país como Angola, cuja economia ainda respira petróleo, apesar dos esforços de diversificação em curso há vários anos, é um cenário no mínimo satisfatório para os anos vindouros.
Angola na expectativa...
O actual cenário internacional tende ainda a manter os preços acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, 61 USD, que compara ainda com os actuais 105, 5 USD, no caso do Brent, perto de 39 USD acima do OGE do ano corrente.
O que pode ser uma faca de dois gumes, porque se o país obtém mais rendimentos deste sector, é igualmente verdade que, enquanto grande importador, especialmente de bens alimentares e refinados do petróleo, esse impacto vai ser fortemente sentido nas contas nacionais de forma igual aos restantes com as mesmas características e perfil económico.
Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.
Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.
O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.
O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.
Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.
Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.
A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.
