Estamos diante de uma fraude que falseia a competição, prejudica crianças e destrói a credibilidade das instituições.
A adulteração das idades é um dos problemas mais antigos e persistentes do desporto africano. Alimenta-se da fragilidade dos registos de nascimento, das inscrições tardias, da falta de comunicação entre escolas, hospitais, serviços de identificação e federações, da impunidade mas também de uma cultura excessivamente orientada para a vitória imediata.
Em muitos casos, dirigentes, treinadores e familiares convencem-se de que diminuir a idade de um jovem constitui uma forma de lhe proporcionar melhores oportunidades.
Na verdade, estão a hipotecar-lhe o futuro.
Um atleta dois ou três anos mais velho possui, normalmente, vantagens físicas e psicológicas consideráveis. Marca mais pontos, corre mais depressa, suporta melhor o contacto e parece possuir um talento extraordinário.
O clube vence, o treinador é elogiado e a selecção conquista uma medalha. Mas a ilusão termina quando o atleta chega ao escalão sénior e deixa de beneficiar da diferença de maturação. Descobrimos, então, que construímos resultados sem termos construído jogadores.
Há também uma injustiça silenciosa. Por cada atleta fora da idade que ocupa um lugar numa equipa, existe outro, com a idade regulamentar, que perde minutos de jogo, visibilidade e, por vezes, a possibilidade de continuar no desporto.
A fraude não altera apenas uma data num documento: altera trajectórias de vida. Quando crianças e adolescentes aprendem que é necessário mentir para competir, o desporto deixa de ser uma escola de valores e transforma-se numa escola de conveniências.
A experiência internacional demonstra que não existe uma solução milagrosa. A ressonância magnética do punho, utilizada pela FIBA em competições juvenis, fornece indicações sobre a maturação óssea, mas não determina com exactidão a idade cronológica e possui limitações, sobretudo no feminino.
O verdadeiro combate deve começar antes das competições, através de um cadastro electrónico único, do cruzamento de informações e da construção de um histórico desportivo desde os primeiros escalões.
Angola precisa de criar um Sistema Nacional de Integridade Etária no Desporto. Cada praticante deverá possuir um número único, uma espécie de Passaporte Digital do Atleta, associado ao Bilhete de Identidade. A primeira data de nascimento apresentada deverá permanecer registada, mesmo quando houver uma rectificação posterior autorizada.
No basquetebol, a Federação e as associações provinciais podem implementar um Passaporte Digital do Basquetebolista, contendo o histórico de inscrições, clubes, transferências, competições e selecções.
Os atletas inscritos para campeonatos nacionais ou selecções não deveriam aparecer na base de dados apenas nas vésperas das provas.
A inscrição antecipada, as auditorias independentes e o cruzamento de dados com os sectores da Justiça, Educação e Saúde reduziriam as possibilidades de fraude.
É igualmente necessário responsabilizar quem organiza, facilita ou encobre a adulteração. A criança, quase sempre, não é a autora intelectual da fraude. As sanções devem atingir principalmente clubes, dirigentes, treinadores e agentes, através da perda de jogos e títulos, multas, suspensões e impedimentos de inscrição. Ao menor deve ser assegurada protecção e reintegração na categoria correspondente.
Antes da aplicação integral do novo sistema, poderia ser aberto um período extraordinário de regularização voluntária de seis meses, permitindo a correcção de dados sem sanções automáticas. Terminado esse prazo, a fiscalização teria de ser rigorosa, permanente e igual para todos.
Talvez a maior mudança tenha de ocorrer na forma como avaliamos o sucesso desportivo. Uma medalha conquistada com atletas fora da idade não representa desenvolvimento, talento ou boa formação. É apenas uma vitória emprestada ao presente e cobrada, com juros, no futuro. Ganhar através da mentira não é formar. E uma nação que pretende construir um desporto forte não pode começar por ensinar os seus jovens a falsificar o tempo.
*Presidente do Clube Escola Desportiva Formigas do Cazenga
