A acalmia da tempestade de fogo que caiu no passado Sábado, 28 de Fevereiro, sobre o Médio Oriente, com a guerra lançada pela coligação israelo-americana contra o Irão (ver links em baixo) evaporou subitamente com a possibilidade de um agravamento no campo de batalha.

Isto, porque os mesmos media que levaram ao optimismo de uma solução pacífica, estão hoje a lançar de novo a possibilidade de agravamento devido a sinais de que os EUA estão a preparar uma operação terrestre, que, para já, pode não implicar "boots on the ground".

As botas no chão iraniano podem ser, para já, as das milícias curdas, tradicionalmente adversárias de Teerão, como de Bagdad ou de Ancara ou ainda de Damasco, porque o Curdistão abrange partes relevantes do Irão, Iraque, Síria e Turquia.

Isto, não apenas porque os media norte-americanos avançam que as milícias curdas foram armadas fortemente pela CIA, mas também porque a Guarda Revolucionária do Irão lançou na última madrugada uma intensa operação preemptiva de combate contra as milícias curdas no Curdistão iraquiano.

Ora, perante este contexto, que significa um agravamento da instabilidade se se vier a confirmar, sendo que uma parte substancial do crude produzido no Iraque está em território curdo, os marcados estão a reagir como sempre o fazem... com subida preemptiva do preço do barril.

A somar pessimismo a este cenário, que já o é claramente, a China, o maior importador de crude do mundo, acaba de anunciar que o afunilamento da produção no Golfo Pérsico, com sauditas, kuwaitianos, emiratos e cataris a suspender a produção de crude e gás, e o fecho do Estreito de Ormuz, anunciou a sentir o impacto com severidade.

O que se percebe com a suspensão sine die das exportações de gasóleo e gasolina saída das suas refinarias como forma de precaução, ou seja, Pequim está a armazenar reservas porque não confia numa solução de breve trecho.

E a China deve saber o que está a fazer porque é o mais sólido aliado do Irão em todo o mundo, a par da Rússia, ambos os países acusados pelos media ocidentais de estarem a apoiar Teerão no seu esforço de guerra contra a coligação israelo-americana.

Mas os sinais de que as grandes potências se estão, e estiveram antes do conflito deflagrar, a preparar para um longo período de guerra, é que as reservas estratégicas dos EUA subiram nos últimos dias quase 4 milhões de barris, para os 439 milhões de barris, número longe dos máximos de 730 milhões há alguns anos, mas acima do que seria expectável, na visão dos analistas.

A contribuir para este cenário de nova escalada no valor do barril de crude, com o Brent a voltar aos 84 USD, máximo de Julho de 2024, nesta quinta-feira, 05, embora tenha depois recuado ligeiramente, para, perto das 11:50, hora de Luanda, 0s 83, 4 USD, ainda assim, mais 2,94% que no fecho da sessão anterior.

Angola soma ganhos, mas...

O actual cenário internacional tende a manter os preços acima do valor estimado para o OGE 2026, que contempla um ajustamento em baixa deste valor, 61 USD, em relação aos 70 USD de 2025, valor conservador mas aconselhável, atendendo aos altos e baixos e às incertezas globais...

Ainda assim, Angola é um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.

Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.

O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.

O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano com o anúncio da TotalEnergies de uma grande descoberta com potencial de 500 mb, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.

Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008.

Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.

A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.