O resultado desta primeira volta das Presidenciais no Brasil, como se esperava, de acordo com a tendência das sondagens, foi renhida, e só ficou fora da grelha das expectativas a posição, porque não se esperava que o filho de Jair Bolsonaro ficasse à frente.

Flávio Bolsonaro ao chegar aos 47,4% enquanto o incumbente Lula da Silva se ficou pelos 44,6%, mostrou que não existe linearidade nas opções dos eleitores brasileiros com as sondagens, que davam uma ligeira vantagem ao velho sindicalista de 80 anos.

O jovem Flávio, de 45 anos, congressista há 20 anos, candidato da extrema-direita nestes eleições, compareceu frente aos eleitores com uma missão bem definida e suportada pela avalanche de apoio das igrejas e seitas evangélicas, que é tirar o seu pai, Jair Bolsonaro, da cadeia.

Lula da Silva, que já lutava nas ruas contra a ditadura militar no Brasil, que terminou em 1985, ainda Flávio não era nascido, e depois de um mandato marcado pelas dificuldades económicas, mas sob a marca da luta contra a pobreza, chegou à campanha a prometer mais do mesmo, menos pobreza e mais igualdade social.

Olhando para os números, a campanha fulanizada de Flávio, da qual não se conhece uma única proposta, além de baixar impostos de forma generalizada, e libertar o seu pai da cadeia por ter liderado um golpe de Estado falhado há cinco anos, após ter perdido as eleições para Lula, parece ser mais convincente que a do actual Presidente.

Porém, nada está perdido, porque nenhum dos dois candidatos assegurou os 50% dos votos mais um, que lhe permitiria manter-se ou chegar ao poder em Brasília, estando agora marcada uma segunda volta para 25 de Outubro.

Se Flávio Bolsonaro já veio mostrar o seu "enorme contentamento e felicidade" pelo resultado, no qual passou as sondagens pela direita, chegando à frente, e agora com uma vantagem clara sobre Lula, até porque os restantes candidatos derrotados são todos de direita ou extrema direita nacionalista, Lula da Silva aposta tudo na sua fama de resistente.

O incumbente já veio garantir que é "muito melhor na segunda que na primeira volta", estando "preparado para derrotar os extremismos" da direita radical sem projecto político que não seja submeter o Brasil aos ditames dos Estados Unidos de Donald Trump, como o demonstra o aparente, e sob investigação, financiamento da campanha de Bolsonaro pelo Governo norte-americano, directamente pelo Departamento de Estado, que pode anular a candidatura de Flávio. (ver em baixo)

Mais: Lula e o seu Partido dos Trabalhadores acusaram Washington de estar a tentar influenciar os resultados eleitorais através de mecanismos estranhos como mandarem fechar os consulados em todo o país alegando falta de condições de segurança.

Mas as suas primeiras palavras, após se ter conhecido a vitória relativa de Flávio, foram para garantir que a máquina da sua campanha de esquerda já está em marcha, prometendo dar tudo por tudo para afastar do poder os radicalismos de direita e a "barbárie" promovida por aqueles que não acreditam na democracia.

Por seu lado, Bolsonaro disse estar "muito feliz" com o resultado na primeira volta nas eleições de domingo, declarou "ser o fim da era do PT" e que o "povo quer mudança".

O filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro mostrou-se confiante na vitória na segunda volta, em 25 de Outubro, e prometeu fazer "uma campanha limpa".

"Estou muito confiante com a possibilidade real de que, daqui a três semanas, iremos vencer", declarou, afirmando que Lula da Silva "só quer poder".

Partido de Flávio pode ser extinto?

A Polícia Federal brasileira abriu uma investigação para apurar a alegada interferência dos Estados Unidos da América nas eleições gerais do país, informou, o director-geral da corporação, Andrei Rodrigues.

"Recebemos representação da Advocacia Geral da União sugerindo apuração de interferência externa. Foi encaminhado para a Directoria de Inteligência para dar início à apuração. É uma investigação em andamento, um procedimento prévio", declarou Rodrigues em conferência de imprensa, citado pela Lusa.

O requerimento enviado à Polícia Federal na quinta-feira pela Advocacia Geral da União - ministério responsável por defender os interesses do Governo brasileiro nos tribunais - foi baseado numa reportagem do jornal britânico The Guardian.

A publicação afirma que a presidência de Donald Trump passou um milhão de dólares a grupos da sociedade civil que se opõem ao Supremo Tribunal Federal no Brasil.

Os recursos foram destinados a financiar o projecto "Combate à Litigância Deliberativa e à Censura no Brasil", pelo que classificaram como abuso de poder judicial e censura por parte do STF brasileiro.

Segundo o The Guardian, a iniciativa integra um conjunto de 43 concessões que somam 176,9 milhões de dólares do Fundo de Direitos Humanos e Democracia do Departamento de Estado dos EUA.

Ainda hoje, o director-geral da PF, reiterou que a apuração ainda está em andamento sob carácter preliminar, sem instauração formal de inquérito, mas que já existe "uma investigação em curso".

Andrei Rodrigues falava no Centro Integrado de Comando e Controle Nacional (CICCN), na sede da Polícia Rodoviária Federal, em Brasília, onde forças de segurança do país acompanham as eleições gerais do país.

Rodrigues, ainda citado pela Lusa, também reiterou que a Polícia Federal não identificou elementos concretos que indiquem risco na Embaixada dos Estados Unidos ou a outras representações diplomáticas em Brasília.

Na sexta-feira, a embaixada do Brasil nos EUA anunciou suspensão dos serviços consulares e da embaixada no país por uma "questão de segurança", o que mobilizou as forças de segurança do Brasil.

"Não comprovamos nenhum elemento concreto que nos apontasse algum risco efectivo contra qualquer embaixada. Os elementos colhidos não indicam nada de concreto, nenhum plano que a gente tenha identificado", completou.