Não é a primeira vez que este tipo de ataque ocorre de forma limitada sem que a Guarda Revolucionária do Irão (IRGC) responda com a mesma moeda, embora mantendo os sistemáticos ataques aos petroleiros que procuram deixar o Golfo Pérsico sem autorização de Teerão para levar o caos económico ao Ocidente.

Este finca-pé de ambos os lados mais não é, aponta Larry Wilkerson, antigo coronel dos EUA e ex-Chefe de Gabinete do secretário de Estado Colin Powell, na Administração Bush, que a antecâmara de "uma quase inevitável confrontação que o Irão quer que seja a última".

No podcast Dialogue Works, Larry Wilkerson defendeu que Donald Trump já tem uma decisão tomada e a Casa Branca, tal como o Irão, entende que o regresso à guerra desta feita não pode ser um intervalo até à próxima crise, o que é demonstrado pela gigantesca e extremamente dispendiosa máquina de guerra norte-americana deslocada para a região.

Com efeito, segundo vários analistas além de Wilkerson, como o ex-diplomata britânico e antigo director do departamento do Médio Oriente do MI6 (a secreta do Reino Unido), Alastair Crooke, o dispositivo militar dos EUA na região já é superior ao que foi usado na invasão do Iraque, em 2003, o que não pode deixar de ser mais que uma manobra da famosa fórmula trumpiana da "diplomacia de paz pela ameaça da força militar".

De acordo com várias fontes, nas últimas semanas, depois de uma retirada em larga escala após as semanas de conflito aberto entre os meses de Março a Maio, a Marinha dos EUA já colocou três esquadras de porta-aviões na zona de guerra, cada um deles com entre 10 a 15 navios de guerra, de superfície e submarinos nucleares, além de dois navios de desembarque anfíbio, que possuem capacidade de porta-aviões com saída na vertical...

Enquanto a Força Aérea mandou de volta à região mais de uma centena de aviões-cisterna de reabastecimento em voo, especialmente às bases em Israel e Jordânia, além de largas dezenas em stand by nas suas bases em países como Portugal (Açores), Itália, Reino Unido, Alemanha..., como apoio aos F-35, F-16 e F-18 presentes nas mais de duas dezenas de bases que os EUA possuem neste "mapa" de interesse no que toca ao conflito como Irão.

As dúvidas na Casa Branca...

O que vai fazer Donald Trump com esta força gigantesca pronta para entrar em acção à sua ordem, é impossível ter uma certeza, porque a sua inconsistência nas decisões é famosa, podendo mudar de opinião de uma hora para a outra, mas, como notava há dias o especialista militar Agostinho Costa, major-general português, na CNN Portugal, a partir de um determinado ponto, "uma máquina de guerra desta envergadura começa a ganhar uma mobilidade imparável".

Até porque a geoestratégia envolvida tem sido, como apontam alguns analistas, embrulhada na ideia propositadamente errada de que só existe como combustível para esta guerra com o Irão a questão israelita, o que, embora não seja possível de ignorar, sublinha Larry Johnson, antigo analista da CIA, o quadro global da disputa pela influência no oeste-asiático com a China e a Rússia também está em cima da mesa de trabalho da Casa Branca.

E é por isso que, em grande medida, o Irão, acrescenta Douglas MacGregor, ex-coronel e Conselheiro da primeira Administração Trump, está a ser apoiado, numa extensão superior à que o Pentagono quer admitir, por Pequim e Moscovo, de onde chegou a tecnologia hipersónica que faz dos mísseis balísticos iranianos armas com grande poder de dissuasão e destruição.

A generalidade dos analistas, onde se inclui ainda Jacques Baud, antigo coronel da intelligentsia suíça e da NATO, notam que a ligação geoestratégica de Teerão a Pequim e Moscovo é fundamental para chineses e russos no "grand jeu" em curso pela disputa da Nova Ordem Mundial, que visa diluir a hegemonia norte-americana que vigora desde o fim da II Guerra Mundial, em 1945.

E o Irão é parte indissociável deste xadrez jogado a essencialmente três mãos, os Presidentes Donald Trump, Vladimir Putin e Xi Jinping, sabendo o norte-americana que se conseguir destruir a "Torre" iraniana, fragiliza toda a estratégia de longo curso dos seus adversários.

Sabendo-se que este "driver" é mais importante que os outros, na medida em que dele pode resultar uma mudança inédita na condução do "Mundo", a ligação umbilical de Israel aos EUA e os danos que o fecho do Estreito de Ormuz está a provocar na economia global, não são de molde a desconsiderar, até pelo seu imediatismo nas consequências, o que pode ser melhor percebido no links em baixo nesta página.

É neste quadro que os ataques desta segunda-feira tardia sobre o sul do Irão ganham relevância maior que os anteriores, visto que acontecem a horas do começo da votação nos EUA para as eleições intercalares desta terça-feira, 03, e quando em Israel o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu deve ter conseguido, devido ao impasse dos resultados, mais uns meses para perseguir o seu grande objectivo de vida, por si reconhecido, que é mudar o regime em Teerão.

As certezas em Teerão...

Só que na capital iraniana, este ataque, embora não tenha merecido uma resposta simétrica, pelo menos, até porque há notícias de que o vice-Presidente dos EUA, J.D. Vance, está num derradeiro esforço para evitar a retoma da guerra, mereceu do presidente do Parlamento e chefe das negociações iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, uma contundência clara.

Até porque ele próprio tem recordado amiúde que por duas vezes, em Junho de 2025, em Fevereiro deste ano, a coligação israelo-americana atacou o Irão quando decorriam negociações que estavam a ser encaradas por Teerão como sérias, usando esse cenário de conversações como máscara para os ataques devastadores ocorridos então, o últomo dos quais onde foi morto o Líder Supremo Ali Khamenei e dezenas de figuras de proa do regime iraniano.

Logo após os ataques norte-americanos das últimas horas, Mohammad Bagher Ghalibaf frisou que "este é o momento em que Washington em de perceber que a bola está do seu lado para evitar uma guerra", sendo estas palavras já proferidas depois de Teerão ter enviado aos americanos uma "resposta autorizada e racional" com as condições iranianas para evitar o confronto.

Ghalibaf fez questão de fazer saber, através da agência de notícias Tasnim, que o Irão "está totalmente disponível para encontrar uma solução negociada mas claramente preparado para responder a um ataque com o dedo no gatilho", avisando que "qualquer erro estratégico dos EUA forçara as suas tropas a uma nova realidade no campo de batalha".

Enquanto isso, nos EUA, nos diversos comícios de campanha que fez no apoio aos candidatos republicanos para estas eleições intercalares, Donald Trump voltou a usar o discurso da sua contenção estratégica de modo a "evitar ter de destruir o Irão", mas deixando a ameaça de que "mais cedo ou mais tarde tudo indica que isso terá de ser feito".

O que levou o porta-voz do Exército iraniano, Mohammad Akraminia, a avisar os norte-americanos e os seus aliados israelitas que em caso de regresso à guerra, a resposta iraniano desta vez será "muito dura e alargada" sem, como indicou o Líder Supremo Mojtaba Khamenei, filho do anterior Ali, assassinado a 28 de Fevereiro, "quaisquer limitações geográficas".

E na nova lista de alvos do Irão estão todo o tipo de infra-estruturas militares que tenha dado ou estejam a dar apoio à coligação israelo-americana nos ataques ao Irão, dentro ou fora do mapa do oeste-asiático (Médio Oriente), desde que dentro do alcance das armas iranianas.

Alcance esse que já é superior a 4 mil kms, como ficou demonstrado em Julho, quando um míssil balístico de "teste" chegou a Diego Garcia, uma base britânico-americana no Índico, deixando isso claro que também quase toda a Europa Ocidental está nesse mapa de possível actividade militar iraniana.

A falsa ameaça nuclear

Apesar desta retórica israelo-americana pouco condizente com um cenário de paz, quase sempre assente na ideia já provada ser falsa, incluindo pela intelligentsia norte-americana, de que o Irão está à procura de obter armas nucleares, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, voltou esta segunda-feira, 02, a sublinhar que a prioridade de Teerão não é a guerra mas sê-lo-á se a isso for forçado.

"O país está mais preparado que nunca para responder a uma agressão americana e que neste momento depende de Washington que caminho vai ser seguido, porque em Teerão, como já tinha sido notado por vários analistas, sejam quais forem os termos, acabou este contexto de paz podre e guerra aos soluções: qualquer solução será sólida e duradoura.

Mas só a partir de quarta-feira, 04, poderá começar a emergir uma ideia do que vai Trump fazer, o que em grande medida poderá ser determinado pelo resultado das eleições, sendo que um cenário de derrota histórica para o Partido Republicano é o mais certo considerando as sondagens.

Nessa medida, Trump pode ainda, até 01 de Janeiro de 2027, usar as suas actuais maiorias no Senado e na Câmara dos Representantes para soltar as amarras da sua gigantesca máquina de guerra que deslocou para o Médio Oriente e "destruir o Irão", como tem ameaçado repetidamente.

O que levaria a uma resposta igualmente inédita do Irão, sobre todos os aliados dos EUA na região, o que faria colapsar as sociedades árabes do Golfo Pérsico, levaria a destruição a Israel e à Jordânia, seguramente, e possivelmente além deste mapa de guerra, sem excluir a Europa e Diego Garcia.

Face a este cenário ainda hipotético, Tucker Carlson, um dos mais famosos comunicadores norte-americanos e antigo jornalista da Fox News, que está em colisão com Trump, depois de ser um dos seus maiores apoiantes, vem agora anunciar que a Casa Branca tem em cima da mesa como estratégia o uso de armas nucleares.

E isso não é descontextualizado das afirmações do Presidente dos EUA que voltiou recentemente a dizer que pode "destruir o Irão" e que pode ser obrigado a permitir que "muitas pessoas morram".

Para bom entendedor, mesmo tratando-se de Trump...