O documento, também chamado Memorando de Islamabad, com 14 pontos, foi assinado a 12 de Junho na capital do Paquistão, sendo evidente na sua arquitectura o fim dos combates no Golfo Pérsico e no sul do Líbano.

Se os EUA, com regularidade expectável, e ameaças repetidas do seu Presidente, Donald Trump, de destruição do Irão, não pararam de atacar este país, Israel bombardeia o MeD desde o primeiro dia "matando" o seu primeiro compromisso recusando-se a sair do Líbano.

Se a inclusão da frente libanesa no Memorando de Islamabad foi, na altura, visto por todos os analistas como uma vitória iraniana, com o passar do tempo essa "frente" é a que mais ameaça a prossecução do processo de paz, porque Israel não está a cumprir.

E já se sabia que iria ser difícil, porque o documento ainda não tinha sido assinado e já o ministro da Segurança Nacional, Itamar Bem Gvir, fazia afirmações "terrosistas" contra a paz, garantindo que os ataques israelitas no Líbano iriam continuar com ou sem acordo entre EUA e o Irão.

E assim foi, porque desde 12 de Junho as Forças de Defesa de Israel (IDF) já mataram dezenas de civis libaneses alegando que é resultado de ataques ao Hezbollah, a milícia xiita que resiste à ocupação israelita desde 1982.

E agora o ministro da Defesa, Israel Katz, veio confirmar que as IDF continuam com o dedo no gatilho e a ocupação do Líbano "é de longa duração", o que é o mesmo que dizer que a paz passou do papel assinado em Islamabad para o departamento das miragens.

Porque o Irão já repetiu que a frente do Líbano é fundamental, o que é o que diz desde que a coligação israelo-americana lançou esta guerra sem justificação a 28 de Fevereiro ao matar de um golpe o Líder Supremo Aiatola Ali Khamenei e mais de 40 figuras do topo da hierarquia política e militar do país.

E isso parece ser claro quando, depois dos mais recentes ataques americanos ao sul do Irão, numa troca de acusações com Teerão sobre quem teria violado primeiro o acordo, devido ao controlo do Estreito de Ormuz, Donald Trump anunciou uma ronda negocial em Doha, no Catar, entre delegações dos dois países.

Encontro esse que o Presidente norte-americano apontou para esta terça-feira, 30, mas que os iranianos vieram de imediato dizer que não sabem do que Trump estava a falar.

Porque, como explicou o ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, "a delegação iraniana vai ao Catar apenas para tratar da devolução do dinheiro iraniano congelado devido às sanções norte-americanas" e que o MeD determina que seja devolvido.

Com isto fica claro que os ataques dos EUA à ilha de Qeshm e Sirik, uma cidade portuária, entre Sexta-feira, 27 e Domingo, 29, foi uma forma de Trump pressionar Teerão para que em Doha se vergue à sua vontade...

O que não vai ser o caso, como os iranianos já clarificaram, não apenas com a resposta contra as bases dos EUA no Kuwait e no Bahrein, mas essencialmente porque o Irão não se afasta um milímetro do que está inscrito no Memorando de Islamabad.

Sendo, porém, também verdade que um e outro lado mantém a declaração inicial de que o MeD é um processo em curso até que seja possível assinar um acordo de paz definitivo dentro de 60 dias, e que as actuais escaramuças são inevitáveis mas não comprometem esse processo.

O mesmo não se pode dizer do papel que Israel está a desempenhar, porque tanto os seus ministros como o primeiro-ministro, Benjamin Netanyhau, não escondem que não aceitam MeD entre EUA e Irão e que não vão cumprir a parte que Washington decidiu por eles.

Todavia, alguns analistas admitem que se a delegação americana estiver em Doha ao mesmo tempo que a iraniana, esse encontro dificilmente deixará de acontecer, nem que seja para os iranianos ouvirem o que os americanos têm para lhes dizer...

As palavras de guerra de Katz

Mas a possibilidade de descarrilamento do MeD nunca tinha sido exposta com o vigor que foi agora, ao final do dia de segunda-feira, 29, pelo ministro da Defesa israelita, Israel Katz, ao dizer que a ocupação israelita no Líbano é de "longo prazo" e reiterou que as suas tropas não se retirarão "nem um centímetro" até que o grupo xiita Hezbollah seja desarmado.

A declaração de Israel Katz, aponta a Lusa, surge após um encontro com o líder do Comando Central dos Estados Unidos (Centcom), Brad Cooper, que se avistou igualmente com o chefe das forças armadas do Líbano em Beirute e com o Presidente libanês, Joseph Aoun.

Após a reunião, Aoun destacou pelo seu lado a intenção de assumir a soberania da totalidade do território libanês até à fronteira com Israel, no seguimento do acordo-quadro assinado na sexta-feira em Washington, que merece a oposição do Hezbollah.

Israel tem afirmado repetidamente que não abandonará o sul do Líbano até que o grupo xiita aliado do Irão seja desarmado e o ministro da Defesa israelita observou hoje que esta posição foi aceite pelos Estados Unidos e está consagrada no anexo militar do acordo-quadro.

Israel Katz salientou, ainda citado pela Lusa, que, durante a sua reunião com o comandante do Centcom, ambos concordaram que "as Forças de Defesa de Israel não se retirarão das zonas de segurança no Líbano, na Síria ou em Gaza", a designação adotada por Telavive para as suas ocupações militares, que justifica como medida de proteção do seu território.

Em relação às perspetivas de desarmamento das milícias xiitas, Katz indicou que não acredita que o Exército libanês "se transforme subitamente num leão que caça o Hezbollah".

O ministro disse ainda que, sem a pressão dos Estados Unidos sobre Israel, as forças israelitas já teriam provocado "o colapso" do grupo libanês e revelou que estava preparada uma "enorme" campanha aérea que "teria desmantelado o Hezbollah", que pelo seu lado estava a "implorar aos iranianos que os salvassem" desta ofensiva.

"Quando o Presidente [norte-americano, Donald] Trump ligou o Irão ao Líbano, deixámos de demolir edifícios em Beirute. Essa ligação deve-se aos americanos, às limitações impostas pela relação [israelita] com os Estados Unidos", comentou Katz.

O ministro, nota a Lusa, aludia ao memorando de entendimento entre Washington e Teerão, que prevê a cessação imediata das hostilidades iniciadas em 28 de fevereiro pelos ataques israelo-americanos contra a República Islâmica, incluindo o Líbano.

O acordo entre Beirute e Telavive estipula que as forças armadas libanesas assumirão gradualmente o controlo de "zonas piloto" no sul do Líbano, como um passo preliminar para uma retirada gradual das tropas israelitas, que, durante, este conflito, expandiram as posições militares que já ocupavam no país.

O acordo prevê ainda a formação de grupos de trabalho conjuntos para concluir as negociações sobre um acordo permanente, bem como o compromisso do Líbano em exercer a plena soberania sobre todo o território e desarmar grupos armados não estatais, sobretudo o Hezbollah.

Por sua vez, o Centcom anunciou apenas os encontros de Cooper no Líbano e em Israel, onde visitou tropas norte-americanas destacadas, e indicou que estão atualmente mais de 50 mil militares do seu país a operar no Médio Oriente.