No acto de inauguração do evento, o titular da pasta das Telecomunicações sublinhou, visivelmente entusiasmado, que a transformação digital não é apenas uma questão tecnológica em Angola, mas um instrumento de desenvolvimento económico e eficiência governativa.
Para Mário de Oliveira, Angola deu avanços importantes nos domínios da saúde, agricultura, educação e administração pública com a utilização de cirurgia robótica e telemedicina, e a combinação de inteligência artificial e tecnologias espaciais para melhorar a produtividade e a monitorização das culturas.
O ministro ressaltou a entrada em funcionamento de um novo ponto de acesso à telefonia móvel e a expansão de infraestruturas de telecomunicações como o Conecta Angola e a Rede Nacional de Banda Larga em Fibra Óptica.
Segundo Mário Oliveira, os progressos alcançados por Angola deviam-se, em grande parte, do arranque do satélite AngoSat-2 que, segundo ele, cujos benefícios eram extensivos aos países africanos vizinhos.
No mesmo dia em que tecia incontidos elogios aos "avanços tecnológicos" de Angola, sem se esquecer de atribuir os respectivos louros à visão estratégica de sua "Ex.ª, o Presidente da República, camarada João Manuel Gonçalves Lourenço", o governante viu-se confrontado com um ataque cibernético ao site do ANGOTIC.
Embora num comunicado, o órgão de tutela da Comunicação Social tivesse procurado minimizar o assunto, reduzindo-o a uma mera "tentativa de ataque cibernético", o facto é que o site esteve inacessível durante algumas horas.
Foi nesse período de tempo que os "assaltantes" cibernéticos que colocaram em causa a vulnerabilidade da plataforma digital, aparentemente inexpugnável, difundiram mensagens pouco abonatórias à imagem do Executivo, que foi acusado, dentre outras práticas, de promover a exclusão de determinados estratos sociais. É o que pode inferir desta mensagem postada pelos "piratas cibernéticos", em que diziam: "Somos o povo que ignoram".
Na edição deste ano, à semelhança dos eventos anteriores, o ANGOTIC foi uma verdadeira montra de exposição de tecnologia de ponta, de equipamentos de qualidade indiscutível e ferramentas que despontam no mercado digital. Mas por detrás do verniz da modernidade e dos discursos embelezados, prenhes de retórica, escondiam-se uma série de fragilidades e limitações do funcionamento das telecomunicações em Angola.
Apesar de ter sido lançado no espaço há quase 4 anos, o AngoSat-2, o satélite que a propaganda oficial dizia que iria cobrir toda a África e parte do Sul da Europa, ainda não convenceu em termos de expansão e qualidade dos seus serviços em Angola.
Depois do desaire registado com o AngoSat-1, esperava-se que com o funcionamento do seu sucedâneo, a par da rede nacional de banda larga em fibra óptica, haveria uma melhoria substancial nos serviços de telefonia móvel, de internet e uma consequente redução dos preços. Debalde!
Não é preciso mergulhar na chamada Angola Profunda para que os utentes desses serviços sintam na pele o deficiente funcionamento das telecomunicações no país, que têm sido marcadas por constantes ausências de sinal ou a sua quebra frequente lá onde ele existe, sobretudo em períodos de maior tráfego.
Em distintas ocasiões, os responsáveis do sector dizem, alto e bom som, que no país existem mais de 17,5 milhões de consumidores de internet, o que significa que metade da população angolana tem ligações ao mundo digital. No entanto, estes números são bastante discutíveis, já que carecem de uma série de dados e outros elementos de aferição.
O certo é que muitos "pontos de acesso à internet" gratuita que estavam espalhados pelo país já não existem ou os poucos que sobreviveram funcionam de forma deficiente, para não dizer aos solavancos. O mesmo ocorre nas instituições públicas, salas digitais de estabelecimentos de ensino ou nos aeroportos do país, incluindo o mais recente e moderno António Agostinho Neto.
O débil funcionamento da internet foi particularmente sentido durante o período do Censo Geral da População e Habitação registado no ano passado, no qual as equipas de recenseamento no terreno tiveram dificuldades em transmitir os dados a partir das zonas recônditas do país.
Outro dado bastante questionável da prestação de serviços em prol das comunidades tem a ver com a área da saúde, mais concretamente no diz respeito à telemedicina.
Não obstante a má qualidade dos serviços de internet e das comunicações, aliada a uma gritante falta de meios de diagnóstico ( RX, TAC, RMN e exames laboratoriais) nos hospitais de periferia, a máquina de propaganda, que envolve os Ministérios da Saúde e das Telecomunicações, esmera-se em convencer-nos que a telemedicina tem sido um autêntico sucesso, que tem poupado a deslocação de pacientes de uns municípios para outros ou mesmo de umas províncias para outras.
No entanto, a prática tem desmentido isso, e a propaganda enganosa entrado em contradição.
Em tempos, a máscara dessa propaganda caiu por terra quando a RNA entrevistou alguns gestores hospitalares, dentre os quais um dos directores do Hospital do Prenda.
Segundo ele, esta unidade de saúde tinha operado, no quadro da telemedicina, 14 pacientes provenientes das províncias da Lunda-Sul e Moxico, e que os pacientes, depois de operados, regressaram às suas terras de origem às expensas dos seus familiares.
É caso para perguntar: como é que a telemedicina funcionou neste caso, se os pacientes foram deslocados de uma província para outra, de um hospital para outro numa distância de centenas de quilómetros?
Das duas, uma: ou os entrevistados não sabiam o significado e o alcance da telemedicina ou, conhecendo, mentiram com quantos dentes tinham na boca.
Convém sublinhar que a telemedicina não se resume às teleconsultas, ou seja, ao contacto à distância entre os profissionais de saúde das distintas unidades de saúde para a resolução de casos pontuais, ou entre estes e os pacientes.

De que serve vender uma imagem irreal do país aos nacionais e aos estrangeiros, quando o mesmo enferma de uma série e debilidades e insuficiências no funcionamento das suas estruturas comunicacionais?